Yazidis e o renascer de Zaratustra

Contando com não mais de 700 mil crentes, a maioria dos quais na cidade de Mosul (em Nínive, no Iraque atual), os yazidis sequer constituem uma etnia. Pertencem ao povo curdo. Mas não só isso: são os curdos puros,  pois que suas origens remontam a 2.000 a.C. De fato, o yazidismo tem como fundamentos básicos os ensinamentos do reformador e poeta persa (o Irã de hoje) Zoroastro – mais conhecido pelo seu nome grego: Zaratustra – que viveu por volta do ano 549 a.C. O zoroastrismo resistiu à ocupação da Pérsia por Alexandre O Grande e ao final do século VII d.C. era a religião dos muitos povos que habitavam um imenso território abrangendo boa parte do Oriente Médio até as fronteiras da China. Então, veio o domínio árabe e o islamismo se impôs, silenciando os adeptos de Zoroastro até transformá-los em uma minoria entre cujos remanescentes estão os atuais yazidis.

Em sua concepção e na prática original, o zoroastrismo representou a criação do monoteísmo pela oposição entre o bem e o mal (o claro e o escuro). Suas virtudes fundamentais estão concentradas no tríplice da bondade pelo qual para ter uma vida ética é preciso exprimir bons pensamentos, boas palavras e ter boas condutas. Pensar bem, falar bem e agir bem faz o indivíduo ser justo, reto, verdadeiro e bom, o que representa a tradução primeira do que é o livre arbítrio, pois Zoroastro entendia que os seres humanos são livres, mas se vêm recompensados em vida pelas escolhas que fazem. No fundo, essas são formulações ideais que originaram os conceitos de ética e moral, antepondo-se àquilo em que se transformou o mundo ocidental e às regras que, de maneira geral, passaram a reger a vida humana em suas sociedades (especialmente as cristãs) nos últimos quatorze séculos. Bem mais tarde, em 1893, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche ao denunciar o que chamou de renúncia à vontade e dizer “sim à vida” (é sua a frase “Deus morreu”) escreveu seu clássico “Assim falou Zaratustra” onde defende o niilismo, doutrina que rechaça qualquer crença. Com o mesmo título, Richard Strauss compõs a ópera que mais tarde se tornou ainda mais conhecida ao servir como tema do filme “2.001, uma odisseia no espaço”.

Os yazidis, que seguem tanto a Bíblia quanto o Corão, desenvolveram uma religião própria na qual adoram a sete anjos, o mais importante dos quais, Malek Taús, representa o Pavão Real que para cristãos e muçulmanos tradicionais é, como está no alcorão, Shaytan, ou Satanás. Para os yazidis, os primeiros cristãos tinham o Pavão Real como símbolo da imortalidade e Malek Taús seria um anjo de Deus e não do diabo. Quando Deus criou Adão seis anjos o aceitaram, mas não Malek Taús, por isso sendo condenado ao inferno onde chorou sete mil anos até apagar por completo suas chamas. O inferno foi, assim, eliminado e Deus o perdoou transformando-o em seu Alter Ego, representante entre Si e a humanidade e centro da adoração pelos yazidis que acreditam na reencarnação num processo contínuo de purificação cujo ápice é o paraíso. No entanto, face à ausência do inferno, o pior castigo em vida é o banimento da comunidade (pois não poderá mais progredir) e, após a morte, a reencarnação num corpo não-yazidi. No dia a dia das comunidades curdas iraquianas, os yazidis podem beber álcool e comer carne de porco. Não há casamento (o noivo costuma raptar a noiva e após alguns dias é incorporado à familia), mas há divórcio. O adultério feminino é aceito se aprovado pelo marido. As mulheres são figuras muito importantes e, no ambiente de guerra permanente no Iraque e na Síria elas formam as YPG, ou Unidades de Proteção Popular Femininas.

Não obstante toda essa aparente evolução, os yazidis continuam sendo considerados, principalmente por sunitas radicais, como Adoradores do Diabo. Historicamente ilhados no Vale do Lalish e na montanha de Sinyar, a 60 km. de Mosul, para onde devem peregrinar ao menos uma vez na vida, seja porque têm sido sistematicamente perseguidos, seja porque – como nos casos de drusos e alawis – não é possível converter-se ao yazidismo (para sê-lo é necessário nascer yazidi), sua população diminuiu de maneira drástica ao longo dos anos 1.900.

O virtual anonimato em que viviam terminou em agosto de 2014 com a jihad do Estado Islâmico (EI) que cercou a cidade dos yazidis no episódio conhecido como “Massacre de Sinyar”. Os peshmergas curdos optaram por retirar-se pacificamente, deixando os yazidis à mercê dos jihadistas num capítulo considerado como uma inesperada traição. Homens (mesmo os que aceitaram converter-se ao islamismo) e crianças foram assassinados e mulheres escravizadas sexualmente para sofrerem estupros inclusive coletivos num ambiente de barbárie poucas vezes visto mesmo no palco das guerras típicas do Oriente Médio. Escondidos na montanha, os yazidis que conseguiram escapar, sem água e sem comida (aeronaves iraquianas lançavam-lhes pacotes de mantimentos), só no final de dezembro começaram a ser resgatados graças a um contra-ataque de forças curdas formadas por peshmergas e brigadas das YPG com forte apoio da aviação norte-americana, que formaram um corredor humanitario e iniciaram aquela que seria uma lenta recuperação do território ocupado. O êxodo de cerca de 200 mil yazidis em direção à Turquia e Síria tornou-se um acontecimento global e em 2.018 o Prêmio Nobel foi concedido a Nadia Murad (25 anos) em nome da luta contra o uso da jihad sexual como arma de guerra e conflito armado.

Mulheres que casam fora do clan não mais são consideradas como yazidis. Assim, ao se libertarem do EI encontraram a rejeição de suas comunidades de origem. Um ano depois do massacre o Conselho Espiritual Supremo Yazidi finalmente emitiu uma declaração dizendo que “todas as sobreviventes de crimes cometidos pelo EI são aceitas, inclusive crianças nascidas de estupro desde que ambos os seus pais sejam yazidis”. Tal decisão motivou fortes reações de grupos internacionais de apoio às mulheres. Fora do Iraque, em outras comunidades yazidis, é possível assumir os filhos de estupros em casas de parentes, mas a discussão acerca das seculares leis divinas e suas interpretações pelos “mulás” (sacerdotes) prossegue sem flexibilizações à vista.

Ao mesmo tempo, o Movimento Yazidi pela Reforma e pelo Progresso tem 3 representantes compondo a lista curda  no Congresso iraquiano e outros 2 fazem parte do Parlamento Autônomo Curdo que tem 111 membros em Bagdad. Lutam por uma representação política permanente como minoria e já conseguiram aprovar uma Lei de proteção e apoio às mulheres vítimas da jihad sexual de 2014. Depois de séculos de perseguição e sem nunca se livrarem do anátema de adorarem um cristo identificado (pelo radicalismo sunita) com satanás, os yazidis jamais abandonaram sua fé e, numa demonstração extraordinária de firmeza de caráter, permaneceram unidos, insistindo que tão somente desejam viver em paz. (VGP)

Pavão Dourado, símbolo que identifica Malak Taus, o Anjo de Deus para os Yazidis (Imagem: panorama-mosque.jpg)

 

 

 

Grupo de Yazidis em Mosul (Ninive) no Iraque

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