Líbia consumida em sua 2a. guerra civil

Os imensos campos, de alta qualidade e de fácil extração, que fazem da Líbia a principal reserva petrolífera do norte da  África, representam um atrativo irresistível para as grandes potências. Terra de árabes e nômades berberes, a Líbia sofreu o domínio romano entre o século I a.C. e o ano 537 quando sucessivamente passou às mãos dos impérios bizantino e otomano até se tornar parte do território italiano em 1939. A independência só foi alcançada em janeiro de 1952, mas dezessete anos depois o coronel Muamar Khadafi assumiu o poder. Para removê-lo foi necessária uma guerra civil que desembocou em 2011 com o bombardeio por foguetes britânicos e franceses em pleno deserto da caravana em que o ditador tentava fugir de Sirte, sua cidade natal. O tiro que matou o ditador foi disparado por um combatente do Exército de Liberação Nacional liderado pelo marechal líbio Khalifa Belgasin Haftar. Pouco mais de um ano antes Khadafi previu o caos atual caso seu país não mais cumprisse o papel de contenção das hordas vindas da África subsaariana, permitindo seu acesso à Europa. Esta história é contada no texto “A maldição de Khadafi” publicada por Mundo Século XXI em abril de 2015 e reproduzida ao final

O caos atual está detalhadamente contado no vídeo “ONU adia conferência na Líbia” (em idioma português), acessível neste site. A figura-chave do conflito é o marechal Khalifa Haftar de 76 anos, considerado como o mais experiente Senhor da Guerra líbio. Fluente em árabe, inglês, italiano, russo, viveu vinte anos em Langley na Virginia (onde hoje vivem sua filha Asma Haftar e dois dos cinco filhos) e possui cidadania norte-americana. Á frente do “Exército Nacional da Líbia” com sede em Tobruk, já domina toda a região oriental abrangendo cerca de 70% do território, incluindo Benghazi, a segunda maior cidade. Resta-lhe ocupar a capital Trípoli que é, desde 2015, sede do Governo de Acordo Nacional presidido por Fayed Al Serraj e imposto pela ONU com suporte do Reino Unido, França, Turquia, Qatar e Itália. Depois de expulsar as milícias ligadas à Al Qaeda, ao EI (Estado Islâmico) e à Irmandade Muçulmana, controlar quatro portos e os grandes campos petrolíferos de Al Sharara e Al Fil, ao decidir atacar a capital Haftar tem no momento uma posição forte e sem dúvida dominante graças ao apoio da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e de vários países africanos da região subsaariana. Em recente visita a Moscou ouviu do ministro da Defesa Sergey Lavrov que a Rússia o vê como o único real bloqueio ao extremismo. Os Estados Unidos, que mantinham relativo silêncio, agora ao que tudo indica assumiram uma posição pró-Haftar em função da declaração de Trump ao “reconhecer o seu significativo papel no combate ao terrorismo, além de assegurar a integridade dos recursos petrolíferos da Líbia”.

As Nações Unidas defendem a via diplomática como única solução, mas em sua apressada e urgente visita ao país desta semana, o português António Guterres, Secretário-Geral, dedicou a maior parte do seu tempo a uma conversa pessoal com Khalifa Haftar, ao final declarando que “a ONU está disponível para apoiar qualquer solução que seja possível”. A 2a. guerra civil é, na verdade, uma continuidade da 1a. guerra civil, a que derrubou Khadafi em outubro de 2011 e abandonou a Líbia nas garras de milícias, grupos terroristas, máfias criminosas e tribos locais num ambiente sem segurança e sem lei. Enquanto isso, a rede de boatos segue tentando desestabilizar a tudo e a todos. A vítima maior tem sido Haftar, do qual se diz que em abril último teria sofrido um AVC que o deixou em coma, sendo hospitalizado na França. Outros dizem que teria morrido, mas a imprensa informa que segue vivo e está em Benghazi, tratado-se em Paris. Denúncias de mercado humano escravo e as instáveis barcas enviadas pelos “coiotes” superlotadas com desesperados migrantes que querem aportar nas praias europeias a qualquer custo, continuam fazendo da Líbia a mais provável nova Síria.

 

Marechal líbio Khalifa Haftar (imagem: Trial international, 2019)

(Texto publicado por Mundo Século XXI)

A maldição de Khadafi

A origem próxima da atual crise dos imigrantes no Mediterrâneo remonta a 31 de agosto de 2010 quando, em retribuição a uma recente visita de Silvio Berlusconi a Trípoli, Muamar Khadafi foi a Roma para comemorar o 2º aniversário do Tratado de Amizade entre Itália e Líbia, aproveitando a ocasião para rogar uma praga que hoje, mais do que nunca, parece impossível de desmanchar. Anunciou “o perigo de uma Europa negra” dizendo: “ou me dão mais dinheiro ou se abrem as portas”. E pediu 5 bilhões de euros para continuar contendo as hordas de africanos miseráveis em seu território (ocupado de 1911 a 1943 por forças italianas), geralmente matando-os ou escravizando-os. Menos de dois meses depois a Comissária Europeia do Interior, Cecilia Malmstrom, autorizou uma verba de 5 milhões de euros para os três anos seguintes. Só a primeira parcela foi paga, pois em 20 de outubro de 2011 Khadafi tentou uma fuga desesperada pelo deserto desde Sirte, sua cidade natal, à frente de um comboio de 75 veículos que foi abatido por morteiros e mísseis franceses e ingleses.  O tiro de graça, disparado por um militante do Exército de Liberação Nacional, não respeitou o pedido derradeiro do ditador: “não me matem!”.

Seguiu-se o caos de uma Líbia dividida  e sem governo, com as costas abertas para as levas de invasores sem nome. A maioria vem da África Subsaariana – Chade, Niger, Nigéria, Serra Leoa, Eritréia, Somália, Guiné, Gana, Darfur no Sudão – para uma escala nas cidades marítimas de Benghasi, Misurata, Trípoli onde, submetidos a condições similares às da escravidão, permanecem à espera de que os coiotes digam em que barcaça ou traineira devem entrar. Feridos, velhos que fraquejam, são lançados ao mar para alimentar os tubarões. Se o Mediterrâneo permitir, se os barcos superlotados não afundarem, se a metralha da polícia costeira não os pegar de mau jeito, colocarão os pés na Sicília, na ilha de Lampedusa, quem sabe via Tunes em Malta. É preciso economizar durante anos para custear a viagem e mais ainda a travessia pelas mãos dos coiotes. Na hora agá ao verem que não há mais lugar para eles e que a barca já está saindo, alguns pais lançam suas crianças para que caiam no meio dos que conseguiram embarcar, na vã esperança de que seus filhos sobrevivam e tenham um futuro melhor.

Há muitas causas para o êxodo de milhares no norte, centro e ocidente da África: a fome, uma temporada especialmente agressiva de mudanças climáticas com secas agressivas e intermináveis, as guerras islâmicas e acima de tudo a ganância dos contrabandistas e traficantes de gente. A melhora do clima nesta primavera convenceu a todos de que deviam tentar agora ou nunca. Neste domingo quando a barcaça com mais de 800 “passageiros” deixou a costa da Líbia o mar estava calmo, mas rapidamente o tempo mudou. Feitores mantinham os migrantes engaiolados no porão e no momento do naufrágio não houve como escapar. Fala-se em até 700 pessoas afogadas (ali perto, outras 400 afundaram no dia seguinte), superando o recorde de até então: as 366 vítimas frente à costa de Lampedusa em outubro do ano passado. Embarcações italianas resgataram cerca de 11 mil migrantes só na última semana, mas este ano passa de mil o número de mortos  no Mediterrâneo. A Operação Mare Nostrum custeada pela Itália salvou a vida de 100 mil pessoas em 2014. Já a Operação Triton da União Europeia que a substituiu com visão policial, limitou-se até aqui a trazer 5 mil para terra. A Lampedusa (205 km ao sul da Sicília e 113 km da costa africana) é possível chegar em 3 a 4 dias de navegação, mas é preciso não naufragar e ser aceito pelas autoridades portuárias. Matteo Renzi, o 1º Ministro italiano, no encontro com Obama na semana passada observou, com razão, que o Mediterrâneo é um mar e não um cemitério.

Um pouco mais acima a pressão se repete nos limites da Grécia, pelo mar sobre as ilhas a noroeste do Egeu – Samos, Lesbos, Leros, Quíos – fronteiriças à costa turca, e por terra na estação ferroviária de Idomeni que, na divisa com a Macedônia, assiste a invasão diária de refugiados da guerra da Síria e do Iraque, além dos que fogem do Paquistão ou de Bangladesh. Viajam, depois de cruzarem a fronteira da Turquia, até em baixo dos vagões com o sonho de atravessar a Sérvia para entrar na Hungria, o país da comunidade Europeia economicamente melhor situado na região. A viagem desde os Balcãs até o coração da Europa não é barata: uns 1.800 euros de trem e 3.000 euros de barco, sem qualquer garantia de sucesso.

A tragédia agora se repete diariamente. Duzentos mil estão empilhados em acampamentos concentrados no litoral da Líbia, desesperados por enfrentar uma travessia que, de qualquer maneira, lhes dá algo entre 90% e 95% de chances de sobrevivência. A União Europeia, sob intensas críticas à sua passividade, dobra o apoio financeiro à Operação Triton e quer controlar os piratas. A demora em agir fortalece o ódio aos imigrantes inoculado pela propaganda dos partidos de extrema direita, enquanto os de esquerda – ligados a causas populares por tradição – têm se manifestado com assustadora timidez. É urgente uma política abrangente de imigração para o Mediterrâneo e a salvação política e social da Líbia, um Estado falido que sem dúvida necessita um milagre para recuperar-se, além de muito incenso e sal grosso para anular a mandinga aplicada por Khadafi.

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