Nepal: o Acordo de Raut e os sacrifícios a Gadhimai

Nepal: o Acordo de Raut e os sacrifícios a Gadhimai

Maoístas e a resistência do Terai

Há poucos meses especialistas voltaram a discutir qual a mais alta montanha do Nepal concluindo a favor do Everest com 8.848 metros contra o Kanchenjunga com 8.598. Na verdade depende de onde se começa a medição. O Nepal possui 90 maciços com mais de 7 mil metros e, desses, oito ultrapassam os 8 mil. Não sem razão os “povos do alto”, os Parbatiyas, consideram-se melhores que os demais e dominam a administração nacional para revolta dos Madhesis que são os mais pobres e vivem nas terras baixas das planícies do Terai (23% do território e 50% da população total que é de 36,2 milhões de habitantes). A guerrilha maoísta após dez anos de batalha permanente, em 2006 deu fim à sua “guerra popular” convertendo-se numa agremiação política com o curioso nome de “Partido Comunista do Nepal – Maoísta” e que numa aliança com o tradicional PC nepalês venceu as últimas eleições e hoje comanda o país com o camarada Khadga Prasad Oli como 1º Ministro. A monarquia foi definitivamente abolida em 2008, não resistindo ao assassinato do rei e de parte da realeza sete anos antes, como está contado no artigo de fevereiro de 2005  “O rei do Himalaia” que tem um extrato inserido ao final deste texto.

A longa resistência dos madhesis ganhou agora um novo e surpreendente capítulo com a libertação pelo governo maoísta de seu principal líder, Chandra Kant Raut que, depois de ser encarcerado por doze vezes nos últimos tempos, enfrentava a ameaça de condenação pela justiça federal o que o faria ficar preso nos próximos dez ou doze anos. Ele não só foi solto, como viu-se perdoado das acusações que lhe pesavam em cima e conquistou plena autonomia, revelando em seu primeiro discurso que estava criando um novo partido político: o Janamat (Partido do Referendo), com a missão de lutar pelo povo do Terai, mas com um Nepal único, ou seja, abandonando a luta pela independência da região. A interpretação mais corrente inclusive entre seus antigos aliados e defensores é de que Raut teria se rendido ao governo, fazendo o acordo em troca de sua liberdade. O Parlamento atual tem o Partido Comunista Unificado (reúne o maoísmo e os marxistas-leninistas) com 323 cadeiras, o liberal Congresso Nepalês com 110, o Forum Madhesi e o partido Tarai-Madesh que representam os madhesis com 72, além de diversas outras forças minoritárias com 98 parlamentares.

A deusa tem sede

Junto às flutuações políticas, o Nepal é vítima constante das instabilidades climáticas. Ainda longe de recuperar-se do terremoto de abril de 2015 – 7,8 na escala Richter, o pior dos últimos oitenta e um anos que deixou 5.200 mortos e destruiu 100 mil casas em Katmandu (seguido por diversos sismos menores, um dos quais atingingo o Everest) -, agora o país convive com o costumeiro período das monções de primavera. Uma tempestade com violência ímpar mesmo para os padrões nepaleses acaba de desabar sobre as províncias de Bara e Parsa no Terai, apenas 120 km ao sul da capital causando 31 mortos e mais de 400 feridos. Aí está o vale dos templos onde a fé hinduísta se multiplica e por vezes assume sua face mais terrível.

O país tem 1.690 km de fronteira com a Índia e é num ponto ao sul, na localidade de Bariyarpur (em Bara) que está o templo a Gadhimai, que no hinduísmo é a Deusa do Poder. A cada cinco anos acontece o Festival no qual são feitos milhares de sacrifícios de animais para satisfazer a deusa, num ritual destinado a trazer prosperidade e acabar com o mal. Como diz o motorista Manoj Shah, “se necessitamos de alguma coisa e trazemos uma oferta à deusa, nos próximos cinco anos nossos desejos e nossos sonhos serão atendidos”. A pequena localidade, com pouco mais de 7 mil habitantes, durante o mês de duração do festival costuma receber não menos de 1 milhão de romeiros (vindos principalmente da Índia onde esse tipo de matança de animais tem sido proibida),  que se instalam ao ar livre em suas próprias tendas.

Cada penitente que tem um pedido s fazer traz um ou mais animais destinados ao sacrifício para entregá-los aos sacerdotes hindus que por seu turno os encaminham a um dos cerca de 250 homens encarregados de decapitá-los utilizando uma kukri – cutelo especial nepalês de larga e afiadíssima lâmina. Obviamente as estradas de acesso ficam superlotadas com a multidão enquanto a cidade e seus arredores exalam um odor insuportável para não-iniciados. Por evidente, esse não é um lugar para turistas ocidentais. A abertura se dá no templo principal com o sacrifício de dois ratões, dois pombos, um porco, um cordeiro e um galo. A multidão, que se acotovela para nada perder do espetáculo, hurra: “longa vida a Gadhimai!” Mas a grande mortandade acontece no matadouro onde são sacrificados de 20 mil a 40 mil búfalos d´água machos a cada festival. O matadouro é uma arena cercada por muros de três metros de altura e fortemente protegida por policiais, pois a entrada do povo é proibida. Resta aos mais curiosos ou mais afoitos escalar os muros pelo lado de fora até conseguirem uma visão de cima que lhes permite assistir à carnificina. Os bichos, desesperados, correm em volta dos seus carrascos que, vestindo largas braçadeiras e coloridos lenços, são especialistas em acuá-los e vitimá-los, depois de romper-lhes os joelhos, num rápido movimento do cutelo. Não há números precisos, mas em 2009 cerca de 250  mil animais foram sacrificados. Em outros anos o total pode ter chegado a meio milhão. O próximo festival começa em novembro de 2019.

Lenço vermelho na cabeça e Kukri na mão direita, o nepalês já escolheu sua próxima vítima em honra a Gadhimai

 

 

 

Um sacerdote hindú, Chandan Dev Chaudhary, ao se declarar satisfeito com a elevada frequência ao certame, comentou que a tradição milenar precisa ser mantida: “a deusa necessita sangue. Só com isso os desejos de cada um podem se transformar em realidade.” Um movimento mundial comandado pela Associação Internacional de Proteção aos Animais (sede em Milão, Itália) busca apoios e critica duramente essa que é a maior matança de todo o mundo e recentemente conseguiu firmar um acordo com o governo nepalês para eliminar os sacrifícios de animais durante o festival de Gadhimai. No entanto, na prática tal resolução precisa superar as crenças populares e a resistência dos sacerdotes para que algum dia se torne uma realidade. “É cruel e desumano. Este sempre foi um país supersticioso, mas não considero que sacrifícios sejam parte da religião hindú”, disse Pramada Shah, um dos organizadores dos protestos. Já um ocupado vendedor no mercado local que comercia animais para venda a quem quer entregar uma boa oferenda à deusa, tem outra opinião: “É um legado que nossos pais e avós seguiram e cabe a nós dar-lhe continuidade. Cremos que oferecendo sangue à deusa isso a agradará  e ela nos abençoará. A carne não é perdida. Distribuímos aos vizinhos e assim todos nós celebramos!” Na prática, as carcaças  dos búfalos são destinadas à venda por mercadores e intermediários que se encarregam de dar-lhes um destino comercial apropriado. Cabe, por fim, perguntar: como, em pleno século XXI, tamanho barbarismo ainda tem o seu lugar?  (VGP)

 

O rei do Himalaia

(Por Vitor Gomes Pinto – Extrato de publicação do Jornal de Brasília em 9/2/2005)

No vale de Katmandu, junto às alturas sem fim do Himalaia, o rei, os políticos e os revolucionários não se entendem e o caos impera. No lance mais recente de uma tradição que em pouco mais de quatorze anos de democracia parlamentarista já deu quatorze governos ao Nepal, o rei Gyanendra demitiu de novo o primeiro-ministro Sher Bahadur Deuba (o mesmo ocorreu na vez anterior que ocupara o posto), mandou prender quatro ministros, declarou estado de emergência e suspendeu as atividades do Parlamento. Deuba foi acusado de fracassar na missão de acabar com a guerrilha maoísta que desde 1996 tenta, nas palavras de seu líder, o camarada Prachanda, transformar o país num ramo brilhante da revolução proletária e colocar a foice e o martelo no topo do Everest, baseado na teoria do ano zero de Pol Pot que no Camboja queria purificar a sociedade de qualquer influência ocidental implantando um estado maoísta agrário e autosuficiente. A guerrilha, com cerca de 8 mil homens em armas e 30 mil militantes ativos, tem apoio popular e forte influência na zona montanhosa que cobre 80% do território nacional, enfrentando o bem armado exército imperial de 68 mil soldados (mais 57 mil policiais), com apoio norte-americano.

Gyanendra chegou ao trono logo após o fatídico 1º de junho de 2001, quando seu tio, o rei Birendra, foi assassinado junto com a esposa, rainha Aishwarya, dois filhos e mais cinco parentes, por Dipendra, então o príncipe herdeiro. Era uma festa exclusiva para membros da família real que chegaram pontualmente às 19h30 ao palácio Narianhity em Katmandu. Como de praxe o rei apresentou-se vinte minutos depois, dedicando-se a conversas superficiais com os parentes. Dipendra, fortemente alcoolizado e drogado, tivera de ser levado para casa, mas voltou antes do jantar com dois rifles de assalto, encarou o pai e puxou o gatilho começando a matança para, em seguida, suicidar-se. Nas últimas, o rei ainda perguntou, inutilmente, em nepalês: “Kay gardeko? (o que estás fazendo)”.

O Nepal, independente desde 1768, em 1990 tornou-se uma monarquia constitucional e o único estado hinduista do mundo (a Índia formalmente é um estado laico). O “país dos mil deuses”, do mesmo tamanho que o Ceará ou o Amapá, é uma sociedade baseada em castas onde vivem pelo menos 4,5 milhões de “intocáveis” ou dalits (17% da população), pessoas sem casta e absolutamente discriminados principalmente pelos brâmanes e chetris que detém o poder político. A vaca, símbolo da fertilidade, é adorada e matar uma delas, mesmo por acidente, é crime grave punido pela lei e pela religião. Gyanendra se considera a encarnação de Vishnu, o símbolo da preservação e um dos três deuses maiores do hinduísmo (os outros são Brahma, a criação, e Shiva, a destruição), mas numa recente entrevista à imprensa inglesa confessou, modestamente: “eu nunca disse que sou Deus”.

 

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