Carro-de-boi

“Carro-de-boi” é uma obra-prima escrita por Antônio Grilo, reportando uma clásica tradição dos mundões que fazem o interior de Minas.

O texto original é acompanhado pela fotografia mostrando o Carro-de-boi original que, pacato, desde a Praça do Rosário observava o andamento da Exposição Agropecuária de 1943.

Está no livro “Beco do Grilo”: uma fartura de causos. Foi presenteado a Mundo Século XXI, em abril de 2019, entre uma conversa e outra numa mesa de café pelas quadras de Brasília, por Eustáquio Grilo, irmão mais novo de Antônio.

 

Do livro: Beco do Grilo
Carro de boi

por Antônio Grilo

 

Se eixar carro-de-boi já não era coisa para o improviso de qualquer um, fabricar o dito cujo, nem se fala: requeria sapiência de prática, que só se obtinha nos muitos anos de experiência acumulada. Tal era o caso do sô Quintino e do Zequinha Alves. Não que os dois fossem de si sócios ou aparentados, pois que vinham cada um de seu canto, sendo o primeiro daqui mesmo das redondezas do arraial, por nascimento e criação dos filhos, e o outro, dito seu Zequinhalves, vindo lá das bandas de Santa Rita, a de Cássia.

Estes homens eram artistas nas feituras de carpintaria e marcenaria, coisas aprendidas de antanho e aperfeiçoadas no quotidiano de lavrar engradamento em casas, à maneira antiga de caixotes rejuntados e depois preenchidos por paredes barreadas; mas também em currais, porteiras e ranchos, no alongamento das casas de fazenda, ou nos caixotões, armários e aparatos de cômodos e despensas.

Mas, a arte mais aprumada eles punham era no fazer artefatos de mor valia, que demandavam perfeição de cálculo, de entalhe, curvaturas de graus certos e medidas de rigor. Caso dos carros-de-boi, das moendas de engenho e outras manufaturas de real necessidade nos tempos em que a vida se apoiava nestas soluções e tarefas. Carro-de-boi era fabricação que se fazia nas fazendas mesmo e era, como se adivinha, coisa complexa. De princípio, porque requeria especialidade e, em antes, porque havia um sem número de providências e
senões a serem devidamente ajeitados. Assim, que quando alguém decidia em precisão ou gosto fabricar lá o seu, ou mais um carro, tinha de encontrar os fabriqueiros certos, se acaso não houvesse ali, na própria fazenda alguém com tais requisitos de carapina e marceneiro. O comum era acertar estas tarefas com gente de costume e de fama reconhecida, e por primeiro, palavrear a ocasião propícia, o que já era um arranjo deveras grave que requeria conversa de muita antecedência. Devido a que o dono tinha de preparar madeiras e mais carências e que, da outra banda, os mestres do ofício costumavam ter compromissos encarrilhados de meses.

Quando quadrava de o dono não ter madeira seca armazenada nos porões como soia ser costume, havia de derrubar mato e arrastar os paus com parelhas de bois atrelados em carretão. E depois, desmanchar as toras em pranchas, pranchões, tábuas, e vigotas, o que se fazia nos jiraus montados em barrancos, e demandava dois homens de boa serra, um acima, em geral encarrapitado sobre o pau, e outro abaixo, manejando a lâmina. Isto feito, em labuta de meses, era deixar as pranchas ensarilhadas em lugares apropriados para a secagem.

Naquele ano, o coronel já tinha madeirada seca e suficiente. Mandou vir portanto os dois artífices, tidos como os melhores, já ditos, sô Quintino e Zequinhalves, para o mês seguinte, com a incumbência de aprontar um bom carro, no estilo o mais costumeiro. Coisa assim tão azafamada transtornava a rotina morrinhenta da roça e do poviléu nela agasalhado por parcerias, tarefas, compadrios e outros arranjos de convivência. É que, no fundo, fabricar carro-de-boi demandava um mundaréu de gente de competências várias, maiores ou menores,
consoante as posses e gosto do precisado.

Foi assim que ganhou re-vivência o cômodo de uma casinha baixa, comprida, caiada de branco, onde desde tempos muito anteriores estava instalada a oficina da marcenaria. Naqueles tempos, não era marcenaria motorizada, de máquinas de apertar botão. A dita em questão era por grosseria de falar, um banco de carpinteiro, grande, feito a capricho em madeira de lei e mais dúzias de ferramentas de mão: a garlopa, a plaina, os cepilhos, as enxós, serras de arco e serrotes, os formões, goivas, macetes e martelos, arco de pua, verrumas, além, claro, dos apetrechos de medida, metros e compassos de madeira, e mais artimanhas
inventadas ao gosto e necessidade da ocasião. Infalível, na ponta da bancada, era a morsa de duas pranchas compridas, de madeira, onde se prendiam as peças para trabalho. Era ali que tomariam forma, uma a uma as partes do carro, articuladas ou jungidas, embora muitos arremates e complementos viessem de labutas apartadas. No fundo da carpintaria, havia um puxado de telhas onde ficava a forja, alimentada de boa lenha e soprada por fole de puxar com corda, ao lado da grande bigorna além dos instrumentos que lhe eram
próprios, como as marretas, as torqueses. Do lado de fora, tinham demarcado uma espécie de canteiro redondo, aí com uns dois metros de largo onde meteram uma quantidade de serragem gravetos menos graúdos, destinado às funções de arremate.

Assim, com braços próprios e outros de ajudantes diversos, os dois mestres principiaram a desbastar os paus e pranchas, dando as formas iniciais do esqueleto do carro. O Sô Quintino manejava as serras, enxós e formões com precisão de mestre artífice e dali, da bancada, foram saindo as peças menores: a chavelha, a orelha, o pigarro, as arreias ou travessas, os cocões, o chumaço de peroba branca, os canzis, o recavém, – o seu Tião ferreiro sempre chamava aquilo de recavenho – até que toda a mesa, soalhada ao comprido por tábuas de peroba ficou pronta. Enquanto isto, no terreiro aplainado e limpo da banda de fora da oficina, sob o comando do Zequinhalves, havia um magote de mãos manejando enxós, machados e serras sobre troncos e pranchas de bálsamo, jacarandá, sucupira peroba e angico e dali foram tomando forma o cabeçalho, as chedas, os cambões, as cangas, e com manejos especiais o eixo e a roda.

O eixo era um tronco só, de madeira de lei, que ali lavravam em sucupira. Com pouco, mede de cá e lá, desbasta, serra, apara, escava, mede tudo de novo, foram surgindo as partes do eixo como uma escultura simétrica: as espigas rigorosamente quadradas nas extremidades para o justo encaixe nas mechas das rodas; as romãs, uma de cada lado, e igualmente as empolgueiras ou empolgadeiras cilíndricas, para o giro do eixo, e a vara; esta, sextavada, ligeiramente afilada no centro. Quanto estivesse pronto e alisado iria para dentro, para que o sô Quintino abrisse a formão os orifícios retangulares, nas espigas, no geral dois em cada uma, para travamento de cavilhas de madeira ao depois de encaixados os rodeiros.

As rodas eram desafio de monta para as artes de carpintaria. Cada uma tinha lá seus muitos segredos: da escolha da madeira, à escultura da circunferência, tudo muito simétrico e balanceado. Era ali que os mestres punham o melhor de sua sapiência. Os rodeiros eram feitos num canto especial da oficina, apoiados em troncos preparados para tanto. E só carpinteiro experimentado, de mão certeira no manejo da enxó, encarava o desafio. Em geral, eram reservadas madeiras resistentes, como as pranchas de bálsamo empilhadas no canto da
oficina. Duas delas já tinham sido separadas, escolhidas a dedo e a cheiro, sem trinca ou rachadura. Nelas começaram a esculpir o meão, a parte central da roda, em relevo acentuado do centro para as extremidades. Demarcado o pião, abriam a formão o orifício quadrado da mecha, onde seria encaixada a espiga do eixo. Depois ajustavam as duas outras partes, as câimbras ou cambotas, rejuntando-as no través pelas relhas. Antes das aparas finais, abriam os culos, os dois orifícios que chamavam os olhos das rodas, e por costume, haviam de colocar os grampos no encontro das cambas. Só então o rodeiro estava pronto para ser ferrado. Aí se juntaram à arte do Tião ferreiro que já tinha adrede em preparo as chapas e um grande número de cravos e agulhas.

Em pontos e distâncias regulares e certas, demarcadas por experiência e metro, pregaram as agulhas na face externa de cada roda, formando uma cinta, pouco abaixo da extremidade. Só então chegou a tarefa para a qual tinham preparado o canteiro de serragem que àquela hora ardia em fogaréu. Metido no meio da fornalha, o grande aro de ferro de circunferência igual à das rodas avermelhou de vez, os ajudantes comandados por Zequinhalves o retiraram com enormes tenazes e o ajustaram, queimando, a poder de marreta, a trilha da roda. Quando estava justo, deitaram água fria fazendo-o encolher sobre a madeira sapecada. Aí arrochou de vez. Veio a parte final: nos orifícios abertos em direitura às agulhas, ferraram os cravos. Fixaram então os rodeiros no eixo, a poder de marreta e travaram as espigas com cavilhas que era mor costume que por cunhagem. Também aí havia uma sapiência dos mestres: a linha dos óculos não podia coincidir nas duas rodas: enquanto uma estava na vertical, a outra tinha de estar no horizontal. E não era isso nenhuma simpatia mas uma sabedoria da experiência que aumentava a resistência e a duração das peças.

Em outras bandas da fazenda já tinham preparado todos os complementos de couro. Neste pormenor a arte era do João Serafim, e das mãos dele tinham saído as cordoalhas de couro cru, trançadas há muito e curtidas, resistentes como correntes de ferro: os tamoeiros, as brochas, os passadores, as tiradeiras ou soleiras, as correias diversas, as conjuntas, as gargalheiras. Tudo estava pronto à espera dos bois e do carro.

Do lado de fora da oficina, onde tinham eixado e ferrado o rodeiro, a grande mesa foi posta sobre o eixo, ajustando os cocões nas empolgueiras. Tinham acabado de fixar o argolão na rabeira do cabeçalho, bem perto do recavém e alguém veio com a azeiteira de chifre, cheia de óleo de mamona e lambuzou o cocão, enquanto o Ditinho ajustava os fueiros de pau pereiro. Estava pronto o carro! O coronel distribuiu cuités de boa aguardente e serviu um almoço domingueiro, com a leitoa assada especialmente reservada para a ocasião.

Pouco depois, o sô Dito Carreiro emparelhou duas juntas de bois e jungiu da forma costumeira. O coronel aprumou e subiu no carro novo, chamando para o seu lado o sô Quintino e o Zequinhalves, e nem reclamou dos meninos que se empoleiraram na rabeira. Deu sinal e o candeeiro chocalhou a vara de ferrão. O carro aluiu e, na curva na paineira, principiou por vez primeira a cantiga que haveria de entoar anos a fio.

 

 

1 Comentário

  1. Prosa boa de ler, com feitio de quem escuita. Nem parece leitura de tão boa prosa escrita. Careceu de gastar dicionário, de tanto palavrório das antigas…mas bem entendida foi. Parabéns para o escritor e para o amigo que presenteou.

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