O ditador renuncia após 30 anos

Para grande espanto de todos, Nursultan Nazarbayev aos 78 anos de idade decidiu pegar o boné, desistindo de ser o presidente eterno do Cazaquistão, cargo que na realidade ocupava desde 1989 quando ainda era o Secretário-Geral do Partido Comunista cazaque. Em 17/2/1991 a então província foi a última das quinze repúblicas socialistas soviéticas a se tornar independente. Dez dias depois a URSS deixou de existir. Antes, a pátria dos cazaques fizera parte do império mongol de Gengis Khan no século XIII e do império russo no século XIX. Com 2,7 milhões de km2 (a 9ª maior área do mundo), está entre os últimos em termos de densidade populacional com seus 18.5 milhões de habitantes. Cobiçado pelos vizinhos e pelas grandes potências devido às vastas reservas de petróleo e minerais que possui, este país sem litoral tem extensas fronteiras com Rússia (quase 7 mil km, a maior parte com a Sibéria), China, Uzbequistão, Quirguistão e Turcomenistão, afora o “mar” Cáspio que divide com outras quatro nações.

Nazarbayev cumprimenta a Donald Trump, que não costuma escolher amigos e inimigos

Nazarbayev não tinha a menor necessidade de abdicar, mesmo porque aparentemente está perfeitamente saudável. Sempre venceu as eleições internas e na última, em 2015, obteve um novo mandato quinquenal com 98% dos votos. Declarou que “como fundador do estado cazaque, vejo como meu dever agora facilitar o surgimento de uma nova geração de líderes e decidi encerrar minhas funções como presidente”. Na Ásia Central a tradição firmada após o colapso do comunismo tem sido de ditaduras do maior longo prazo que as condições de saúde do chefe suportarem e o normal é que ele morra no cargo, como no caso do tadjique Islam Karimov que assumiu em 1990 e ficou no posto até falecer por causas naturais em 2016. No Cazaquistão a oposição, após ser massacrada e sistematicamente anulada ao longo de três décadas, inexiste. A transição deverá ser pacífica.

Para a área da saúde, o Cazaquistão é uma emblemática lembrança. Foi em sua então capital, a cidade de Alma-Ata, que em 1978 aconteceu a Conferência Internacional de Atenção Primária, a qual definiu a saúde como um direito fundamental do homem. Dada a mania dos cazaques de trocar nomes de locais e eventos, logo depois a cidade passou a chamar-se Almaty para de imediato deixar de ser a capital. Chegou então a vez de Astana, plana como Brasília, a “cidade futurística” planejada virtualmente a partir do zero por Nazarbayev para ser a nova capital embora localizada nas longínquas e geladas estepes do norte. Agora, na primeira homenagem imaginada pelo líder do Senado Kassym-Jomart, designado para substituir o presidente até a posse de quem for eleito, em seu ato final no cargo, a proposta foi de mudança do nome de Astana para Nursultan. O projeto obteve imediata aprovação pelos senadores, ao mesmo tempo em que aplaudiam a nomeação para a presidência da Casa de Dariga Nazarbayeva (55 anos), a filha mais velha de Nursultan Nazarbayev. Ela, assim, transforma-se na candidata natural favorita para dirigir o país, embora deva enfrentar alguma resistência da parte dos honestos e dos mais velhos, devido a seu histórico de vários casos de corrupção e por ser divorciada.

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