Malásia e seus lastimáveis políticos

Um pouco de história

Aqueles que acreditam ter o Brasil os piores políticos do mundo provavelmente desconhecem o caso da Malásia, que obteve sua independência somente em 1957. O estreito de Málaca, descoberto pelos portugueses em 1511, três séculos mais tarde caiu nas mãos dos ingleses que aí permaneceram ao longo de 144 anos com um único lapso durante a 2ª. guerra devido à invasão japonesa. Com uma área de 331 mil km2 – equivalente ao Maranhão – e 32 milhões de habitantes como a Holanda ou dois estados do Rio de Janeiro, o país só conquistou a independência em 1957 e daí em diante o comando foi assumido pela direitista OMNU (Organização Malaia Nacional Unida). Tem o islamismo como religião oficial, embora somente 61% dos malaios o professem; budistas, graças à numerosa comunidade chinesa, respondem por 20%, havendo ainda uma fatia de 15% de cristãos e hinduístas. Sua viabilização econômica a partir do final do século XIX deu-se graças a um furto histórico: o inglês Henry Wickam enrolou em folhas de bananeira 70 mil sementes de seringueiras amazônicas contrabandeando-as até Londres onde foram entregues ao Jardim Botânico Real. Cerca de 2.700 vingaram e foram replantadas na Malásia e no Ceilão, países que trinta anos depois dominaram o comércio global decretando o fim do ciclo da borracha brasileiro (o americano Joe Jackson conta essa história no livro “O ladrão no fim do mundo” com edição pela Objetiva). Ainda hoje a Malásia é o 5º maior produtor mundial de borracha, depois de Tailândia, Indonésia, Vietnã e China.

Sudeste asiático em 2019

Com altas taxas de crescimento nos anos 1980 e 1990, mesmo tendo perdido a ilha de Cingapura, tornou-se um dos tigres asiáticos, mas caiu em recessão em 1997 devido à crise iniciada pela quebra da economia tailandesa. Neste século a indústria malaia, especializando-se na produção de fármacos e em tecnologia médica, voltou a crescer não obstante sofra com a atual queda nos preços do barril de petróleo. Com um PIB de US$ 30000 per capita (o dobro do brasileiro), a Malásia – nitidamente neoliberal – ainda é tida como um dos melhores países do mundo para fazer negócios.

  • Os políticos malaios

O atual Primeiro Ministro (PM),  Mahathir Mohamad de 93 anos, já exerceu a mesma função entre 1981 e 2003 e no ano passado mudou-se para o oposicionista Pakatan Harapan (PH, Partido da Esperança) e se juntou a Anwar Ibrahim, um antigo desafeto, a fim de derrubar a Nagib Rasak do partido Barisan Nasional, responsável pelo roubo de 4,5 bilhões de dólares do Malaysia Development Berhad (1MDB – Fundo de Desenvolvimento Malaio) naquele que o The Guardian considerou como sendo o maior escândalo financeiro mundial. A esposa de Nagib, Rosmah Mansor, costumava ir às melhores festas com um colar destacando uma pedra de diamante pink avaliada em 27,3 milhões de dólares. Na semana passada o casal foi novamente detido em Hong Kong para responder por múltiplas acusações de corrupção. Os caminhos do dinheiro furtado do tesouro nacional estão sendo procurados no mundo inteiro. Rasak era o PM há dois anos quando Kim Jong-nam, irmão do presidente norte-coreano Kim Jong-il, foi assassinado no aeroporto de Kuala Lumpur.

Mahathir é antissemita assumido. Em outubro último, sem se dar conta do ridículo a que se submetia, repetiu em entrevista à BBC em Londres, uma piadinha por ele mesmo criada, de que os judeus são hook nosed, ou seja, narigudos. “Eles dizem que somos fat nosed (nariz de batata), mas não vamos brigar por isso”. Afora as brincadeiras sem graça, ele acusa Israel de ter desestabilizado o Oriente Médio desde sua criação em 1949, afirmando que os judeus são terroristas e culpados pela crise humanitária da Palestina. Sem citar suas fontes, diz que o holocausto não matou 6 milhões e sim “apenas” 4 milhões de judeus. E acaba de negar o visto à delegação israelita para o torneio regional classificatório, o pré-olímpico de Kuala Lumpur. Discursando em recente conferência islâmica chamou todos à luta dizendo que “1,3 bilhão de muçulmanos não podem ser derrotados por uns poucos milhões de judeus”.

Poucos acreditam que ele vá cumprir o acordo com os outros componentes da coalizão que está no governo, pelo qual após dois anos terá de transferir o posto de PM para Anwar Ibrahim, de 70 anos, líder do Partido de Justiça Popular e recém perdoado pelo Rei da acusação de sodomia. A Malásia criminaliza o que o Código Penal considera, no artigo 377, como “relações carnais contra a ordem natural”, o que inclui homossexualismo e lesbianismo, cumprindo a sharia, lei muçulmana que tudo prevê no dia a dia de seus crentes. Há poucos dias duas mulheres foram açoitadas publicamente por terem sido flagradas trocando caricias em um carro. Gays estrangeiros têm sorte quando são deportados. Anwar Ibrahim já teve três condenações, uma em 1998 recebendo sentença de 9 anos de prisão (cumpriu 4) por relações com seu motorista de 19 anos; outra em 2004, e ainda em 2008, neste caso envolvendo o funcionário de sua equipe de trabalho Moud Buckari de 23 anos que o levou à Justiça por sodomia. Somente o jovem foi submetido a perícia médica, com exames anais que “não revelaram sinais de penetração forçada”.  Assim, a acusação formal limitou-se a referir um “relacionamento consensual”, de onde resultou que na metade da pena foi tirado do cárcere graças a um perdão assinado pelo próprio Rei em maio do ano passado. A população apóia a lei e na última pesquisa de opinião sobre o assunto, 86% acha que relações com o mesmo sexo devem continuar proibidas e penalizadas, frente a 9% que pediram sua revogação. Mas a opinião pública é condescendente com Anwar (ele é casado com Wan Azizah Ismail, com quem tem seis filhos) que mantém a influência política que provavelmente lhe dará o posto de PM em substituição a Mahathir.

A desistência do rei

Os adeptos de regimes monárquicos costumam defendê-los como um elemento moderador e de solução de conflitos entre os poderes mesmo em uma democracia constitucional como a Malásia onde, no entanto, existem nove famílias reais que se alternam a cada 5 anos no poder (sempre exercido por um homem, em geral o primogênito da vez). Assim, 9 das 14 províncias malaias têm como governador um membro de uma das famílias reais. Ao final de 2016 foi “eleito” o sultão Mohammad V da província de Kelantan como 15º Chefe do Estado malaio, a fim de que reinasse por 5 anos e já com substituição prevista pelo próximo da fila, sempre dentro das famílias reais. No entanto, mal cumpridos 2 anos no posto e poucos meses depois de ter concedido o indulto a Anwar Ibrahim, Mohammad – agora com 49 anos completos – tirou dois meses de folga para tratamento médico.

Bodas do sultão da Malásia e da miss Moscou

Reapareceu, para surpresa geral, na Rússia conduzindo ao altar a Miss Moscou 2015  Oksana Voyevodina (25 anos) que dois anos antes se convertera ao Islã mudando seu nome para Rihana Oxana Gorbatenko (o sobrenome de seu pai). As bodas aconteceram no luxuoso Barvikha Village Concert Hall no mais sofisticado dos bairros da capital russa e embora tenha sido uma festa espetacular, atendendo às tradições religiosas não incluiu bebidas alcoólicas e serviu comida halal (peixes, legumes frescos, frutas, nozes, castanhas, grãos e tudo o que não for haram, ou seja, proibido pela lei islâmica). Uma vez que a primeira esposa do sultão não lhe deu filhos, ele agora espera construir uma descendência junto com Oxana, que é filha de médico e ex-modelo de passarelas pela China e Tailândia. Nenhuma notícia ou confirmação oficial do casamento foi dada seja pela imprensa malaia, seja pelas famílias.

Provavelmente para evitar novas disputas domésticas, Mohammad abdicou da coroa e uma nova “eleição” já foi feita, escolhendo Abdullah de Pahang, 57 anos, como o 16º monarca da moderna democracia malaia. O país é o lar da mais antiga monarquia do mundo, iniciada em 1136 com o sultão Mudzafar Shah mas, desde que o atual modelo de alternância entre as famílias reais foi adotado em 1957, esta é a primeira vez que um rei abdica do trono.

É verdade que não se pode julgar países com histórias e costumes tão diferentes em relação ao mundo ocidental, mas também o é que maus políticos, a corrupção e a volta do nacionalismo doentio transformaram-se, com suas devidas exceções, numa devastadora epidemia global.

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