As sete eleições de 2019 nas Américas

Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia compõem o Mercosul. A Venezuela está suspensa do Bloco.

Marcadas pela onda da corrupção patrocinada pela brasileira Odebrecht, as Américas vão às urnas em sete países neste 2019. O início não poderia ser mais representativo dos problemas que hoje afetam a região: em 3 de fevereiro na América Central, El Salvador elegerá seu oitavo presidente desde o Acordo de Paz de Chapultepec que em 1992 interrompeu uma guerra civil que fizera 70 mil vítimas em 12 anos. O reinado inicial de cinco mandatos da direitista Arena cessou quando a ex-revolucionária Frente Farabundo Marti de Liberação Nacional, a FMLN, elegeu Mauricio Funes no período 2009 a 2014, graças à milionária campanha coordenada pelo marketeiro João Santana, “emprestado” por Lula. Casado com a brasileira e militante do PT Vanda Pignato (casal já separado) o jornalista salvadorenho nunca explicou a origem de R$ 5,3 milhões gastos na campanha e, depois, de US$ 351 milhões fornecidos pela Odebrecht. Para escapar da prisão, refugiou-se na vizinha Nicarágua onde vive até hoje. Foi sucedido por Salvador Sánchez Cerén que fez um governo lamentável a partir de 2014. Agora, o candidato da Frente, Hugo Martinez, amarga longinquo 3º lugar nas pesquisas com 10% das intenções de voto, bem abaixo do favorito Nayib Bukele da GANA (Grande Aliança para a Unidade Nacional) de centro-direita com 57% que deve ser eleito em 1º turno. Ainda concorre Carlos Caleja pela velha Arena, em 2º com 31,5%.  Bukele, ex-militante da FMLN, que o expulsou um ano e meio atrás, granjeou fama como prefeito da capital.

Em maio há eleições na Dominica e no Panamá. A pequena Ilha britãnica (pertence à Commonwealth desde 1978) do Caribe deve conceder o 5º mandato consecutivo ao Partido Trabalhista de Roosevelt Skemit que governa desde 2004 quando aos 31 anos de idade se tornou o mais jovem Chefe de Estado do planeta. Uma curiosidade: a Diretora Geral da Organização Pan-Americana da Saúde, organismo pertencente à ONU, é Carissa Etienne, da Dominica, cujo apoio foi fundamental para que Dilma Rousseff e o governo cubano fizessem o programa Mais Médicos no Brasil. Já no Panamá (dia 9/5) o poder promete mudar de mãos, elegendo o deputado Laurentino ‘Nito’ Cortizo do Partido Revolucionário Democrático, título aparentemente contraditório. O atual presidente é Juan Carlos Varela do Partido Panameñista que há 4 anos venceu contra todas as previsões e apesar de ser minoria no Parlamento. O candidato da situação, José Blandon (prefeito da capital), provavelmente não conseguirá eleger-se.

Uma mulher deverá governar a Guatemala cujo pleito acontece em 16 de junho, mas desde que a lei eleitoral mudou vetando o uso de recursos públicos nas campanhas, a luta tornou-se mais parelha e há seis concorrentes com chances. No total são 28 partidos no páreo. Uma pesquisa que mede a “opinião favorável” em relação aos candidatos (nesse modelo os resultados superam os 100%), confere a Telma Aldana do ‘Encuentro” a melhor posição com 40% de “simpatia popular”; Sandra Torres da esquerdista UNE, Unidade Nacional de Esperança, que ficou em 2º no último pleito nacional, está com 37% e Zury Ríos 36%, seguindo-se os homens – Alejandro Giammatei 30% e outros dois com 24% e 17%. Muita água ainda deverá rolar por debaixo dos tribunais guatemaltecos, com pesadas acusações de corrupção (a Odebrecht de novo se destacando) afetando o polêmico presidente Jimmy Morales Cabrera. Em 2015 o presidente Otto Perez Molina, mesmo sendo um general, viu-se obrigado a renunciar logo que sua vice, Roxana Baldetti, foi presa. Num ambiente de ilegalidades generalizadas, em geral os candidatos são advogados e os partidos políticos para compensar (ou disfarçar) se estruturam em função de siglas chamativas como “Vamos – Todos – Valor – Fuerza – Unidos – Podemos”. Muitas das propostas eleitorais estão focadas no combate à violência extrema que castiga o país. Um exemplo é Zury Ríos, filha do ex-presidente Ephraín Rios Montt que propõe uma aliança formal com o Depto. de Defesa dos EUA e defende a pena de morte, o aborto e adota um lema parecido com o do brasileiro Bolsonaro: Deus sobre todas as coisas.

Finalmente em outubro teremos três países fronteiriços – Bolívia, Uruguai e Argentina – jogando seus destinos na roleta eleitoral. Apesar do referendo nacional de 21 de fevereiro de 2016 (“el 21F”) que decidiu que não poderia concorrer a uma 4a. reeleição, a dupla Evo Morales e Alvaro García Linera apelou para um Tribunal Supremo Eleitoral amigo e obediente para obter um salvo conduto e estarão firmes na disputa para governar a Bolívia de 2020 a 2025. A oposição reclama muito, pois o resultado do referendo é considerado como em plena vigência e com efeito vinculante, sendo portanto de cumprimento obrigatório. Haja o que houver nas urnas, o povo boliviano sabe que Evo tentará permanecer como seu eterno presidente, se necessário mobilizando indígenas e a militância do MAS (Movimento al Socialismo) como já fez anteriormente. Contudo, as pesquisas assinalam uma vantagem de pelo menos cinco pontos para o ex-presidente Carlos Mesa e chances menores, mas não desprezíveis, para dois outros “ex”: Jaime Paz Zamora e Jorge Quiroga Ramirez.

O Uruguai, tido como o país mais honesto e democrático das Américas, seguirá seu caminho que impede qualquer reeleição, garantindo que cada presidente eleito permaneça no comando durante cinco anos e então vá embora. É o que sucederá com Tabaré Vasquez que sucedeu a Pepe Mojica. Ambos pertencem à Frente Ampla  e seu candidato, o atual prefeito de Montevideu, Daniel Martinez, deve triiunfar sem maiores dificuldades, superando a Luiz Lacalle Pou do Partido Blanco. Também no domingo, 27/10, serão escolhidos os senadores e deputados, mas não os governadores dos Departamentos nem os prefeitos. Em 30 de junho acontecem as Primárias para indicação dos candidatos de cada agremiação política, mas não são esperadas surpresas.

Mais complexa é, naturalmente, a situação da Argentina que vai às urnas na mesma data que os uruguaios. Ainda não há candidaturas formalizadas, mas as Primarias de agosto em princípio farão de Mauricio Macri da coligação “Cambiemos” e Cristina Fernandez Kirchner pelo Justicialismo/peronismo os adversários para um combate de vida ou morte pelos votos de 33,2 milhões de argentinos, apesar de que ambos tenham uma rejeição próxima a 60%, ele pela crise econômica, ela pela corrupção. Quando tomou posse em dezembro de 2015, Macri flanava com um câmbio no qual 100 pesos compravam U$ 10.15, mas neste primeiro mês de 2019 com o mesmo dinheiro só é possível levar US$ 2.50. A inflação do ano passado chegou a 47%. Para não ir à bancarrota, houve que pedir um socorro inicial de US$ 50 bilhões ao FMI e, em seguida, de mais US$ 7,1 bilhões. Efeitos positivos de curto prazo podem salvar Macri, remetendo-o para o 2º turno quando as pesquisas dizem que venceria por 1% de diferença para uma Cristina que, sendo ré em cinco processos de desvio de fundos públicos, não pode ser presa pela imunidade que lhe garante a cadeira de Senadora da República. O Senado pode autorizar sua detenção pela Justiça, mas até o momento – ao contrário do que se passou com Lula da Silva – isso não aconteceu. Na mais recente pesquisa, para o 1º turno Cristina teria 36,7% dos sufrágios, contra 34,5% de Macri. É difícil, mas as candidaturas alternativas consideram a hipótese de que um dos dois favoritos caia no caminho, viabilizando-lhes a presença na “segunda vuelta”. Os mais cotados são o ex-ministro (2002 a 2005) da Economia Roberto Lavagna; Sergio Massa que foi terceiro nas últimas eleições e a atual governadora de Buenos Aires Maria Eugenia Vidal. Correndo por fora, vez ou outra se anima o presidente do River Plate, Rodolfo D’Onofrio, cujo prestígio viu-se esfarelado pelo vexame da derrota nos penaltis no mundial para um desconhecido time dos Emirados Árabes Unidos, o Al-Ain, em Abu Dhabi.

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