Trump quer fugir da Síria

Donald Trump neste quase final de seus primeiros dois anos de mandato está querendo inovar, acrescentando ao “America First” o epíteto “Kurds Last” (Curdos por último) e. de contrapeso, colocando em posição secundária e sem dúvida muito difícil todos os aliados que os próprios EUA haviam convencido a tomar parte numa coalizão global destinada a expulsar o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EI).  Lembrando-se de uma das promessas feitas quando candidato à presidência, o troglodita americano anuncia a retirada de 2.000 soldados hoje aquartelados em Manbij, vizinha à cidade de Afrin no nordeste sírio que recentemente foi tomada pelas forças enviadas por Erdogan em sua caça sem tréguas aos combatentes curdos que rapidamente estão saindo da condição de amigos privilegiados (recebendo armas, munições, carros, informações) dos EUA para serem abandonados nas garras do vingativo ditador turco.

Na tremenda luta contra os terroristas do EI, foguetes, bombas e contínuos ataques aéreos não obtiveram resultados práticos, exceto os de matarem ou forçarem ao exílio milhões de civis na região. A única força que se mostrou efetiva na guerra real, no terreno, foi a das milícias curdas que passo a passo, batalha após batalha, encarregaram-se de fazer o que ninguém mais era capaz: recuperar todos os redutos ocupados pelo EI, incluindo  Deir Az Zor, sua sede principal às margens do Eufrates.

Nem os assessores de Trump entenderam a súbita mudança de posição do chefe, sussurrando que suas verdadeiras intenções constituem um “jogo de adivinhação”. Dois deles deixaram o governo: o todo-poderoso Secretário da Defesa, James Mattis, o Cachorro Louco, um competente mas radical general de direita, declarando que “o senhor tem direito de nomear um Secetário que comungue com suas ideias”; e Brett McGurk, o enviado especial de Trump para apoiar a coalizão que guerreia com o EI. Com eles, já são 44 – de acordo com o The Guardian – os componentes do primeiro time de Trump que o abandonaram, em geral por incompatibilidade de gênio ou de princípios. É um recorde, a comprovar a total ausência de unidade no grupo que compõe os escalões mais elevados do governo norte-americano.

Trump muda de opinião a cada momento, o que leva o mundo inteiro a desconfiar ou a não crer em afirmativas como as de agora sobre o papel dos EUA na região: “chegou o tempo de os outros lutarem. Os Estados Unidos não desejam ser o Policeman (o Xerife, o policial) do Oriente Médio, nada ganhando, mas perdendo vidas preciosas e gastando trilhões de dólares protegendo outros que, na maioria dos casos, não apreciam o que estamos fazendo. Vamos ficar lá para sempre?” De imediato, Putin, Erdogan e Assad concordaram e os aiátolas do Irã comentaram: “não deviam ter vindo para cá”. Ou seja, quanto antes se forem, melhor.  Entre os aliados a reação foi a pior possível. “Ainda há muito por fazer. Mesmo sem mais contar com territórios o EI permanece sendo um desafio”, disse o representante do Reino Unido, com a concordância plena dos oficiais da ONU. Mais concretamente, Florence Parly, a ministra da Defesa da França, país que mantém 1.200 homens na Síria e no Iraque, ao declarar que os franceses ficarão por lá, por enquanto, comentou: “é preciso acabar o serviço.”

Os Curdos estão acostumados a serem traídos e Trump é apenas um traidor a mais. Na verdade, eles lutam por sí próprios e não pelos outros, lutam pelo seu Curdistão, pela terra natal que hoje está distribuída pela Síria, Turquia, Irã e Iraque. Atualmente, na Síria, controlam (vide mapa) uma área desde o Eufrates incluindo 400 km de fronteira com a Turquia até o Iraque. No momento, com a saída dos Estados Unidos, ameaçam liberar os 3.200 prisioneiros, todos militantes do EI, que estão em seu poder, pois não teriam mais condições de mantê-los. Outra possibilidade é que os Curdos se aliem a Bashar al Assad, a quem de fato nunca  hostilizaram.

Áreas de controle curdo e das forças governamentais na Síria ao final de 2018 (Fonte: Al Jazeera)

Enquanto isso, a Turquia já está deslocando tropas para tentar uma ofensiva arrasadora contra os curdos. Ao que se sabe houve um acordo espúrio entre Trump e Erdogan: na medida em que as tropas e os equipamentos norte-americanos vão sendo retirados de Manbij, o exército otomano avança, com uma previsão de que até o final de janeiro de 2019 esses “serviços” estejam concluídos. Em outro entendimento, a Rússia apoiará o avanço dos soldados otomanos, mas tão pronto esteja estabelecida uma zona “buffer” (tampão) dentro do território sírio para proteção do lado turco, Putin entregará as áreas tomadas dos curdos ao seu amigo al Assad, com a concordância total do Irã e do Hezbollah, que por sua vez têm como perspectiva obter um quinhão na hipótese de que o nordeste sírio venha a ser redividido entre as diversas forças de ocupação. Crescentemente preocupado com a evolução dos fatos, Israel promete retaliar. O 1º Ministro Benjamim Netaniahu afirma que aumentará a presença de Israel na área para impedir o alinhamento do Irã com o governo sírio. O resumo da ópera é que Trump escolheu uma péssima hora para suas brincadeiras, pois além de estragar o Natal de amigos e inimigos, ressuscitará o EI e boicotará o fragilíssimo equilibrio de forças vigente no Oriente Médio.

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