Na Bolívia, Evo e Linera querem quarto mandato

Na Bolívia, Evo e Linera querem quarto mandato

Vitor Gomes Pinto

Nascido há 59 anos numa comunidade aymará de Oruro, no Altiplano boliviano, Evo Morales que é o presidente da Bolívia desde dezembro de 2005, prepara-se para concorrer ao seu quarto mandato, o que lhe daria mais cinco anos no poder. Ao que tudo indica, ao final do novo período no comando, em 2025, não ficará satisfeito, pois considera que ninguém mais a não ser ele próprio deve dirigir seu país. Não obstante, o povo boliviano parece cansado de Evo e de seu eterno vice, o matemático Álvaro García Linera, tendo demonstrado isso no referendo de 21 de fevereiro de 2016 (conhecido como 21F) quando por 51% dos votos decidiu que ele não mais poderia se candidatar. O Tribunal Superior de Justiça declarou o referendo como vinculante para as eleições seguintes que se realizarão no último domingo de outubro de 2019. Ocorre que agora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que, como toda a justiça boliviana, é fiel ao Executivo, resolveu simplesmente desconhecer o 21F, ou seja, o Referendo nacional, mas não por qualquer razão jurídica ou por falhas na votação, e sim por um suposto direito humanitário e por uma nova interpretação do então ocorrido.

Acontece que então, quase às vésperas da votação, estourou um escândalo: uma empresa de engenharia chinesa, a CAMC, teria desfrutado de contratos favorecidos com o governo no valor total de US$ 564 milhões (para perfuração de poços petrolíferos, construção da fábrica Sales de Potosí, entre outros). Ademais, as negociações foram concretizadas pela gerente da empresa, a jovem Gabriela Zapata, amante de Evo, com quem teria tido um filho. O caso se transformou em uma longa e típica novela latino-americana, com resultados óbvios: a prova da infidelidade, o filho, nunca apareceu, pois teria morrido aos 2 anos de idade e Gabriela recentemente foi condenada a 10 anos de prisão. Os chineses não foram responsabilizados, acusações sobre Evo foram retiradas e afinal a “Justiça”, invertendo tudo, declarou que o 21F não tem valor, pois se baseou em acusações não comprovadas a Evo, mesmo que ele tenha confessado ter tido um demorado caso com a bela funcionária da CAMC e os delitos financeiros tenham sido reais. Ao habilitar a nova candidatura de Evo, a “Justiça” boliviana argumentou que ele “tem o direito de ser eleito e o povo tem o direito de elegê-lo, com base na Convenção Americana sobre Direitos Humanos”. Ninguém entendeu o que tal Convenção tem a ver com as aventuras amorosas do aymará nem com o desvio de recursos públicos.

Carlos Mesa e Evo Morales, candidatos ao governo da Bolívia (imagem La Prensa, La Paz, 12/2018)

 

Em consequência, todas as nove chapas inscritas foram validadas, inclusive a do MAS, Movimento al Socialismo, de Morales e García Linera. As atuais pesquisas de opinião, no entanto, dão 34% das intenções de voto a Carlos Mesa, ex-presidente e candidato da Comunidade Cidadã, contra 29% para Evo; 10% para o empresário Samuel Doria Medina que já desistiu de concorrer; 7% para dois outros ex-presidentes: Jaime Paz Zamora e Victor Hugo Cárdenas. Diante da pergunta “Se Evo Morales perder as próximas eleições presidenciais, acredita que entregará a presidência?”, 45% dos consultados respondeu que “Não”; 42% que “Sim” e 3% não opinaram.

Na prática, o povo sabe que o MAS não deixará o poder pacificamente. Ainda lembram as declarações do tempo em que o governo liberal de Sánchez de Losada foi derrubado “não vamos permitir que partidos como o MIR ou o MNR, que estão acostumados a saquear os recursos do estado boliviano, regressem ao poder”. Então, massas de indígenas, cocaleiros, operários e militantes do MAS inviabilizaram o país com bloqueios das estradas que das montanhas dão acesso a La Paz e, por fim, das praças e ruas da capital, até que o povo vendo que o país estava paralizado resolveu votar em Evo, que ganhou as eleições de 2005 com 54% dos votos (depois, em 2009, com 64% e em 2014 com 61%). Durante um ano e sete meses, logo que Sánchez de Losada escafedeu-se para Miami, assumiu seu Vice, o jornalista Carlos Mesa Gisberg que tentou governar inclusive aprovando uma inovadora lei de democracia direta que transformou as chamadas “Agrupações Cidadãs” e os “Povos Indígenas” em entidades de intermediação entre o poder público e a sociedade.  Como se lê em “Guerra en los Andes” (Vitor Pinto, Ed. Aya Yala, 2a. ed., Quito, 2008), “a via crucis de Mesa chegou a seu término ante a absoluta impossibilidade de superar a pressão radical do MAS e de seu líder Evo Morales que expressavam seu total desacordo em apoiar a uma administração que viam apenas como mais uma barreira a ser derrubada em sua marcha até a tomada do poder”.

Hoje, aos 65 anos, Mesa reune energias para desafiar ao “índio”, declarando esta semana que:”estamos diante de um governo autoritário que controla todos os poderes. Não se pode tolerar o  desconhecimento do 21F e o desrespeito à Constituição”. Vindos de Los Yungas, da cidade vizinha de El Alto (cidade dormitório nos cerros em volta da capital, a segunda mais populosa do país) e de vários pontos da serra e das planícies de Santa Cruz de la Sierra, marchas populares começam a cercar La Paz e em frente ao TRF os grupos que protestam contra a decisão de habilitar a chapa Evo-Linera começam a fazer greves de fome. Denúncias foram apresentadas contra as juízas do TSE Maria Eugenia Chagas, Ildefonso Manami, Lidia Iriarte e Lacy Cruz que votaram autorizando a chapa do MAS a concorrer. Dois juízes – o vice-presidente Antonio Costas e Dunia Sandoval – opuseram-se à maioria no Tribunal, por considerarem que “o resultado do referendo de 2016 segue vigente e é vinculante ao processo eleitoral atual.”

A militância do MAS despreza o movimento da Oposição que, de fato, não tem conseguido estruturar-se e agora luta internamente uma vez mais para apresentar uma candidatura consolidada. Evo discursa dizendo que o PIB boliviano cresceu a uma média superior a 4,5% ao ano desde 2005 e acusa seus adversários de serem a direita liberal, mas a juventude que é a maioria dos votantes em 2018 nada sabe sobre os males que o liberalismo possa ter causado à Bolívia, um país que, ao aproximar-se dos 200 anos (em 2025) de sua criação por Simón Bolívar, ainda está entre os mais pobres das Américas.

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