Trabalhadores devem ser chineses ou brasileiros?

As análises feitas pelo periódico “Global Times” a respeito da culura dos trabalhadores brasileiros, comparando-os aos chineses e explicando porque lá a industrialização se consolidou e aqui nunca o fez, ganhou destaque na mídia nacional. Provavelmente porque há muito de verdade nas palavras de Ding Dang que residiu no Brasil e, assim, conseguiu captar elementos essenciais da maneira como nossos compatriotas encaram a dedicação ao trabalho, a educação dos filhos e as gerações seguintes.

É verdade que nas relações comerciais entre os dois países os chineses tiram grande vantagem ao explorar as fraquezas dos brasileiros, enquanto o contrário não ocorre por exemplo em relação ao caráter submisso dos trabalhadores e do povo chinês que costuma enfrentar seus afazeres numa labuta de sol a sol (quanto estive lá ainda não havia o direito a férias nem regulares nem irregulares) aparentemente sem poderem reclamar e aceitando por inteiro a sujeição às decisões do partido único que governa desde 1949.

Cabe observar que o jornalista não “atacou o Brasil” e sim fez uma análise com base em sua experiência e em resposta a reportagem do The New York Times.

Uma questão que remanesce: será necessário que todos sejam como os chineses para que o PIB cresça a 14 ou 15% ao ano?

O texto abaixo foi publicado pelo jornal O Estado de São Paulo de hoje.

Trabalhadoras chinesas do setor manufatureiro estão entre as mais bem remuneradas do país
Trabalhadores em greve (imagem do Financial Times), direito que inexiste na China, onde a produção não pode parar

 

Brasileiros não estão dispostos a ser trabalhadores como os chineses, diz jornal da China

Segundo o editor do jornal oficial do Partido Comunista Chinês, ‘a cultura no Brasil faz o país inapto à manufatura’

Jamil Chade, correspodente, O Estado de S.Paulo – 06 Dezembro 2018

GENEBRA- A cultura brasileira faz o País ser “inapto para a manufatura” e a população brasileira não está disposta a ser trabalhadora como a chinesa. Os comentários foram publicados na noite da quarta-feira, 5, e são assinados pelo editorialista Ding Gang, no Global Times, um dos produtos internacionais do People’s Daily, o jornal oficial do Partido Comunista Chinês. Gang é um dos editores do People’s Daily.

 A origem de seu ataque é o New York Times e o fato de o diário americano ter comparado a China ao Brasil no que se refere aos desafios que ambos enfrentam para se desenvolver e evitar seus respectivos declínios. Para o chinês, a comparação “expõe a ignorância chocante do autor sobre a cultura do povo na China” O jornal americano mostrava como a ascendência do Brasil a partir de 2009 não se concretizou e apontava como a China tampouco terá um futuro brilhante diante das similaridades ao Brasil. No texto do NYT, o artigo diz que os deuses, antes de destruir um país, o qualificam como “país do futuro”.

Para o editor do jornal chinês, que diz ter passado três anos no Brasil e ter “entendido bem” os motivos da perda de força da economia nacional, “não se pode comparar Brasil com a China”. “Talvez os brasileiros e o autor acreditem no mesmo deus. Mas esse não é o mesmo que os chineses acreditam”, diz Gang, que também é um acadêmico.

“De fato, o Brasil nunca teve uma indústria manufatureira forte e sofisticada. Mas a questão básica é por qual motivo a China atingiu sua industrialização, enquanto o Brasil a abandonou e foi para a direção oposta? Isso não é apenas uma questão de economia ou instituição, mas de cultura”, argumenta o chinês.

Apontando que trabalhou em várias partes do mundo por 20 anos, o autor indica que a cultura é o “fator mais importante” para atingir a industrialização. “Isso inclui como as pessoas encaram seu trabalho, família, educação das crianças e acumulação de riqueza”, disse.

“Pode soar racista diferenciar o desenvolvimento baseado em cultura”, escreveu. “Mas, depois de ter morado no Brasil, você descobre a resposta. Os brasileiros não estão dispostos a ser tão diligentes e trabalhadores como os chineses. Nem valorizam a poupança para as próximas gerações, como fazem os chineses”, indicou. “Ainda assim, eles exigem os mesmos benefícios e bem-estar dos países desenvolvidos”, disse.

“A diferença fundamental entre o Brasil e a China está no fato de que a cultura no Brasil faz o país inapto à manufatura”, escreveu. “A falta de manufatura não pode levar à industrialização e, finalmente, torna o desenvolvimento sustentável algo impossível”, alertou. “Como resultado, a economia brasileira apenas depende das exportações de matérias-primas e commodities. Em outras palavras, os recursos abundantes limitaram o desenvolvimento da manufatura no Brasil”, insistiu.

Para ele, o desenvolvimento sustentável da economia brasileira “dependerá em parte das instituições, mas acima de tudo de tradições culturais locais”. Em sua avaliação, o NYTpeca ao comparar os dois bases sem um “conhecimento completo de suas tradições e culturas”.

Gang admite que a China tem “problemas e desafios”. Mas aponta que, desde a abertura de seu país, “é a cultura chinesa que foi mantida contra as flutuações econômicas”. “Com o tempo, o desempenho da economia chinesa formou uma curva ascendente, e não em queda, por conta de a China sempre encontrar soluções diante de flutuações”, escreveu.

Para ele, o processo de abrir o potencial do povo chinês “é irreversível” e a única questão é como atingir esse potencial de forma plena. “Se uma pessoa quer aprender sobre o futuro chinês, precisa saber como o povo chinês aprende, trabalha e vive”, completou.

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