Eleições 2018 – Brasil e Distrito Federal

Ainda imerso em profunda crise o Brasil realizou no domingo 7 de outubro de 2018 uma das mais problemáticas eleições de sua história republicana. De certa maneira, não se poderia esperar algo distinto considerando o estado de descrença e de desânimo a que foi conduzida a população. O curioso é que, sem saídas razoáveis, os eleitores terminaram por optar pelos candidatos mais extremados, justo aqueles que maiores perigos representam seja para a democracia, seja para economia ou para o país em si.

Para um total de 147,3 milhões de eleitores habilitados, somente 107 milhões foram às urnas e tiveram seus votos considerados como válidos. 29,9 milhões se abstiveram, 3,2 milhões votaram branco e 7,2 milhões anularam seus votos, o que resulta em 40 milhões de votantes potenciais que de alguma maneira se negaram a participar do processo eleitoral, em geral por considerarem que nenhum proveito teria sua participação. Isso equivale a mais de 27% do universo, um contingente que – se votasse – só seria derrotado pelos dois finalistas.

É que no Brasil votar é considerado obrigatório, exigindo-se justificativa formal de quem não se apresenta às urnas. A armadilha está em que só são tidos como “válidos” os votos em algum dos candidatos que concorre por qualquer partido político. Sob tal argumento as abstenções, os brancos e os nulos são vistos como inúteis, ou – segundo o ponto de vista das autoridades eleitorais – um desperdício e, em última análise, um ato não cívico. Em consequência, o povo acostumou-se a “votar em qualquer um”, só para receber o comprovante da Justiça Eleitoral. Basta votar em alguém para de imediato esquecer de seu nome. Como os partidos não têm uma plataforma ou um programa ou princípios que os identifiquem e os diferenciem uns dos outros, também as razões para ter votado logo são olvidadas. Os políticos formam a categoria mais desacreditada do país e, mesmo assim, continuam comandando os aparelhos executivo, legislativo e judiciário tanto no âmbito federal quanto no estados e municépios.

Os dois mais rejeitados chegam ao 2º turno

Em meio a uma forte onda conservadora, o domínio do Partido dos Trabalhadores – com seu líder maior, o ex-presidente Lula da Silva, cumprindo pena de prisão devido a pena condenatória de 12 anos –  esvaiu-se aos poucos. Ainda assim seu candidato, o advogado e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, conseguiu qualificar-se para o 2º turno, secundando ao capitão Jair Bolsonaro, um estreante em carreiras presidenciais, desconhecido parlamentar do chamado baixo clero da Câmara dos Deputados que defende posições de direita ou de ultra-direita e que tem um general como vice. Os demais postulantes, mesmo assumindo posturas politicamente intermediárias e em alguns casos defendendo propostas bem mais claras e positivas de governo, viram-se consumidos pelo que afinal se transformou num tsunami eleitoral com nítida prevalência dos dois candidatos com posturas mais fortes para a direita e para a esquerda.

Enquanto as lembranças de 1964 (ano do golpe militar que instalou uma ditadura mantida até 1985) se tornaram menos nítidas principalmente para os mais jovens, a memória recente da decadência do sistema econômico recheado por casos sistêmicos de corrupção permaneceu à flor da pele dos brasileiros, provocando um crescente movimento anti-PT e anti-Lula. Contraditoriamente, os dois candidatos mais rejeitados – Haddad com 40% (no sul e no sudeste a rejeição ao petista chegou respectivamente a 47% e 52% dos eleitores) e Bolsonaro com 45% – é que obtiveram apoio suficiente para persistir na carreira presidencial, enfrentando-se numa segunda volta em 28 de outubro.

Jair Bolsonaro alcançou, assim, uma vantagem de 17,9 milhões de votos, evidentemente muito difícil de ser revertida no 2º turno por Fernando Haddad. Entre as razões aventadas pelos analistas para tamanha diferença está o fato de que o candidato do PSL (Partido Social Liberal) encarnou a figura popular de alguém nitidamente anti-establishment e, pelo menos em aparência, disposto a enfrentar a deteriorada situação nacional na área da segurança. A hipótese de que o horário eleitoral e o maior tempo disponível na TV seriam decisivos não se confirmou graças à crescente relevância da comunicação via redes sociais, o que levou principalmente o eleitorado jovem a não dar importância nem ao programa de governo ou a questões de conteúdo nem aos arroubos mais radicais do capitão e de seu vice.

Muitos recordaram os movimentos de rua de 2013 e de 2015/2016, cuja característica maior foi a ausência de lideranças (partidárias ou de representações classistas e políticas) e uma pauta de reivindicações baseada na negação dos valores das classes que tradicionalmente sempre comandaram o Brasil. Logo, a consolidação da Operação Lava-Jato, construída em torno do verdadeiro saque consumado aos cofres públicos – principalmente os da Petrobrás, a maior empresa estatal brasileira –, contribuiu decisivamente para a desmoralização da resistente e imóvel classe política. Em especial o Partido dos Trabalhadores não soube dar a resposta que os manifestantes queriam ou esperavam e isso lhe custou a imensa rejeição expressada nas urnas em 2018. Por outro lado, mesmo sem posicionar-se diretamente em relação ao tema e muito menos oferecer soluções nítidas aos problemas levantados nas ruas, o capitão Bolsonaro acabou por absorver melhor o sentimento generalizado de protesto.

A campanha logo se transformou numa disputa particular com críticas e ofensas inclusive de caráter pessoal, na qual a discussão referente às soluções possíveis para os graves problemas do país tornou-se, para grande parte dos votantes, algo irrelevante, formando um clima predominantemente emocional e superficial, onde o que vale é a rejeição ao outro.

A seguir, os resultados completos do 1º turno no Brasil e no Distrito Federal:

  ELEIÇÕES DE 2018 – BRASIL E DISTRITO FEDERAL
BRASIL:

CANDIDATOS

GRUPO POLÍTICO principal TOTAL DE ELEITORES ABSTENÇÃO, BRANCOS E NULOS VOTOS VÁLIDOS % SOBRE TOTAL % SOBRE VÁLIDOS
147.306.035 40.307.759 107.650.530 73,08
J. Bolsonaro PSL 49.276.990 33.45 45,77
F. Haddad PT 31.342.005 21,28 29,11
Ciro Gomes PDT 13.344.366 9,06 12,40
G. Alckmin PSDB 5.096.349 3,46 4,73
J. Amoêdo P. NOVO 2.679.744 1,82 2,49
Cabo Daciolo PATRIOTA 1.348.323 0,91 1,25
H. Meirelles MDB 1.288.948 0,87 1,20
Marina Silva REDE 1.069.577 0,73 0,99
Álvaro Dias PODEMOS 859.601 0,58 0,80
G. Boulos PSOL 617.122 0,42 0,57
Vera PSTU 55.762 0,04 0,05
Eymael DC 41.710 0,03 0,04
J. Goulart Fº PPL 30.176 0,02 0,03
DISTRITO FEDERAL: CANDIDATOS GRUPO POLÍTICO principal TOTAL DE ELEITORES ABSTENÇÃO, BRANCOS E NULOS VOTOS VÁLIDOS % SOBRE TOTAL % SOBRE VÁLIDOS
2.084.357 573.460 1.510.897 72,49
Ibaneis Rocha MDB 634.008 30,42 41,97
R. Rollemberg PSB 210.510 10,10 13,94
R. Rosso PSD 169.795 8.15 11,24
Gal. P. Chagas PRP 110.973 5,32 7,35
Eliana Pedrosa PROS 105.579 5,06 6,99
Alberto Fraga DEM 88.840 4,26 5,88
Fátima Sous PSOL 65.648 3,15 4,35
A. Guerra P. NOVO 63.261 3,03 4,19
J. Miragaya PT 60.592 2,91 4,01
Guillen PSTU 1.272 0,06 0,08

 

Haddad, à esquerda, e Bolsonaro, à direita, disputam o 2º turno em 28/10/2018

A capital da República sempre teve suas particularidades, mas desta feita – comentam os analistas – exagerou um pouco. Os grandes favoritos nas pesquisas (ah, as pesquisas: fracassaram de novo, de cima a baixo) não resistiram às ondas dos novos tempos, combinando-as com as características locais, e candidatas/os que pareciam invencíveis afundaram sem perdão, casos de Eliana Pedrosa, Rogerio Rosso e Alberto Fraga. O general Chagas, que nada almejava nas urnas, obteve surpreendentes 111 mmil votos graças ao fato de que representa a bandeira Bolsonaro. Já Miragaya consagrou-se como o mais sofrível desempenho eleitoral do PT na história moderna. Quem lidera é Ibaneis, até há pouco um ilustre desconhecido da população e de quem se diz que usos e abusou da própria fortuna (conseguirá recuperá-la?) para mudar o rumo do pleito. Não se sabia que o Brasília – com seu alto padrão de renda, foco da elite nacional – seria tão permeável a este tipo de influência. Já o governador atual, Rodrigo Rollemberg, de mandato caracterizado por pífio desempenho e com enorme rejeição popular, terminou por encontrar um caminho que o leva ao 2º turno, mesmo que em situação tão inferiorizada que parece dificílimo recuperar-se nas urnas.

Outras surpresas foram a escolha para o Senado de uma desportista novata, dona Leila, que se autodenomina “do voley“ e cuja plataforma programática se limita a apoiar as mulheres e a difusão do esporte, ao mesmo tempo em que era derrotado o icônico ex-governador Cristovam Buarque, este acompanhando as vítimas do terremoto que vitimou figuras aparentemente exponenciais da política brasileira como Eduardo Suplicy e dona Dilma Rousseff. No DF, conhecidas figuras como Wasny de Roure e Magella (do PT, partido massacrado pelos eleitores), Maria Abadia e membros da família Roriz também ficaram de fora. Um confuso regime seletivo fez com que candidatos de significativa votação como o Dr. Gutemberg, presidente do Sindicato dos Médicos (5º mais votado) fossem preteridos por critérios relacionados ao quociente eleitoral do partido escolhido.

Em paralelo, houve uma renovação de 2/3 da Câmara Distrital, na qual se consagrou a maior diversidade partidária do país: são 18 siglas para 24 deputados, entre os quais estão os que representam setores muito específicos da sociedade como pastores, policiais, servidores públicos, professores, além de um defensor de causas da comunidade LGBT e outro que compõe o grupo dos caminhoneiros. Para a Câmara Federal o DF optou por uma maioria de deputadas. As mulheres ocuparão cinco das oito cadeiras reservadas a Brasília, das quais a única a reiterar o mandato é Erika Kokay do Partido dos Trabalhadores. Curiosamente, um dos homens é Luís Miranda do DEM que reside há anos em Miami de onde desenvolveu a campanha. (VGP)

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