Livrarias para quem?

Livraria El Ateneo na avenida Santa Fé em Buenos Aires

Como os brasileiros, nos últimos tempos, aprenderam, o país hoje é uma soma crescente de crises setoriais, específicas, que reforçam constantemente a crise geral. Um bom exemplo do caos geral em que a nação se debate é o setor das livrarias e, por extensão, o da literatura. Nenhuma novidade, já que o analfabetismo funcional (inclui os que mesmo sabendo ler não compreendem o que leram) abrange 27% da população de 15 a 64 anos de idade. As pesquisas mais recentes realizadas pelo IBGE constataram que nosso povo lê apenas dois livros completos por ano em média (na pesquisa relativa a 2015 o índice “saltou” para 2,43) e, mesmo assim, com alta preferência pela Bíblia. 44% das pessoas não leem livro algum e 30% jamais compraram um livro. Frente à pergunta: “o que gosta de fazer no tempo livre?”, a leitura ficou em 10º lugar, com “ver TV” em 1º.

Ainda assim, as aparências vinham sendo mantidas. Alguns grupos econômicos mantém redes de livrarias com vistosas lojas nas grandes cidades mas, desde o ano passado avolumaram-se os rumores relativos a crescentes dificuldades dos três grandes. A francesa FNAC chegou a decidir ir embora do país e só não o fez porque seu controle passou às mãos da Livraria Cultura que manteve a marca e, após resistir algum tempo, optou por fechar cinco das doze lojas que adquirira, incluindo a primeira e a mais icônica de todas, a de Pinheiros em São Paulo. A Saraiva continua em sua política de expansão, mas as notícias de uma fusão (na verdade incorporação) com a Cultura são cada vez mais frequentes. As duas redes têm atrasado o pagamento de fornecedores e muitos se queixam de calote. As pequenas e médias editoras sofrem como nunca. Pior é a situação dos autores brasileiros, sem chances sequer de terem seus originais aceitos ou pelo menos lidos por editoras que se limitam a adquirir best sellers internacionais para traduzi-los e colocá-los nas estandes. Com as vendas em decréscimo, ninguém quer arriscar e prefere apostar no que deu certo no exterior. Na verdade nem a FNAC nem a Saraiva podem ser consideradas como livrarias. São lojas de venda de artigos eletrônicos, entre outros, que também oferecem livros.

As notícias preocupantes se avolumam. A Cultura fechou sua linda loja no Paço da Alfândega do Recife Antigo; a Saraiva está reduzindo o espaço dos livros e substituindo-os pelas áreas de cafeteria. jogos e eletrônicos, além de ter vendido sua editora; a principal distribuidora de livros digitais no Brasil, a alemã Bookwire, cortou a entrega de ebooks à Cultura e à Saraiva porque não recebe pagamento há meses; já as editoras de livros físicos não estão enfrentando as poderosas redes por receio de retaliação e de não receberem os atrasados. Falando para a agência Globo, Luiz Emediato, empresário do setor editorial (sem receber há vários meses da Saraiva), relata que está tão somente reimprimindo livros que são mais vendidos no mercado.

A comparação sempre inevitável nos leva à abissal diferença cultural com os vizinhos argentinos e uruguaios. Buenos Aires, que fica logo ali,  é a cidade com mais livrarias do mundo e mesmo as madames que vão à cidade apenas para fazer compras e melhorar o guarda-roupa se surpreendem ao chegar no número 1.860 da avenida Santa Fé, na Recoleta. Ali, o que era desde 1919 o teatro Grand Splendid transformou-se na livraria El Ateneo, considerada pelo The Guardian uma das duas mais belas livrarias do planeta (a outra é a Boekhandel Selexyz em Maastricht na Holanda) e que comercializa mais de 700 mil livros anualmente. Numa peatonal (rua para pedestres) do centro velho de Montevidéu, “La Lupa” é uma pequena livraria que se orgulha por ser um lugar onde os visitantes costumam sentir-se à vontade. Para os falantes de português, inesquecível é a “Ler Devagar” no bairro de Alcântara em Lisboa de cujas poltronas é difícil desistir como sugere o próprio nome da famosa Casa. Uma conclusão óbvia é que a crise livreira não é global. Também não se limita ao Brasil, mas aqui tem sido mais dura.

No Brasil, os comerciantes tentam identificar culpados: alugueis e impostos cada vez mais altos; a recessão geral; a ausência de apoio do setor público (as igrejas, p.ex., estão isentas de IPTU); avanço do comércio eletrônico e crescimento do uso de dispositivos digitais para leitura, sendo neste terreno a Amazon o concorrente mais forte. Contudo,  a aposta nos e-books até aqui não deu certo. Sobre este tema, leia o texto “Livro digitais: outro fracasso no mercado editorial” publicado neste site*. Um dos poucos prazeres que ainda restam é o de apanhar um livro numa estande para folheá-lo com alguma calma ou pelo menos ter tempo para ler o resumo da última capa e, então, decidir se vai ou não fazer a compra levando-o para casa, algo impossível de substituir pelo comércio eletrônico. O que dizer, então, de trocar o livro físico com suas páginas aos poucos amareladas pela tela de um computador?

É evidente que o problema central no país é a ausência de leitores, algo difícil de reverter mesmo no médio prazo. Para os comerciantes, insistir em vender livros como se vendem camisas é o caminho mais rápido para o fim. Os otimistas lembram: toda crise que se preza costuma gerar oportunidades. Assim, alguns tentam as propostas alternativas, como as pequenas lojas que oferecem livros e um pout-pourri de outros artigos buscando satisfazer públicos muito específicos, como é o caso dos que lidam com obras de cunho religioso, concentram esforços na clientela de autoajuda e principalmente os que ainda insistem no minguante setor de livros didáticos. As pequenas livrarias de outrora procuram nichos para continuarem na rua, mas é preciso superar a relação de desconfiança com as também pequenas editoras que ao entregarem suas obras para possível venda têm quase certeza de que não receberão sequer a informação correta a respeito dos estoques vendidos e não vendidos. Nesse mercado menor é que mais falta faz um profissional que praticamente sumiu da praça: o especialista em promover e vender livros. A hipótese de afastar-se das grandes praças em busca de clientes, muito comum em outras áreas profissionais, não é animadora pois sair por ai com livros em baixo do braço realmente é uma proposta cada vez mais absurda num país onde menos de 30% dos municípios possuem livrarias. Em estados como Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte e nos ex-territórios as livrarias, quando existem, estão nas capitais. (VGP)

*: http://mundoseculoxxi.com.br/2017/08/23/livros-digitais-outro-fracasso-no-mercado-editorial/

 

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