El Salvador e Nicarágua: países sem rumo

As manchetes dos jornais nicaraguenses não deixam dúvidas quanto à gravidade da situação atual: “Esquadrões da Morte de Ortega atacam Masaya – Paramilitares orteguistas entram a chumbo e sangue no bairro popular de Manimbó – OEA condena a repressão do Estado contra manifestações pacíficas iniciadas em 18/4 e que já deixaram pelo menos 351 mortos”. Quando, em 18 de julho de 1980 os sandinistas derrubaram a ditadura de Anastacio Somoza (1917 a 1979), uma semana depois desci no aeroporto da capital Manágua e de lá fui a León e Masaya, as principais cidades do país, semi-destruídas pelos bombardeios e pela metralha das “tanquetas” somozistas. À noite ainda se ouviam as rajadas de metralhadora, mas para o povo o ambiente era de festa e de esperança. Como o dinheiro sumira, valiam velhas notas do Córdoba, a moeda nacional, carimbadas às pressas como “Córdobas Revolucionários”.   Quem imaginaria que menos de quatro décadas depois um governo que ainda se diz sandinista esteja usando os mesmos métodos que antes derrotara? A condenação pela OEA, aprovando moção apresentada pela representação argentina, deu-se com 21 votos favoráveis e apenas três contrários.

As barricadas dos estudantes na Universidade Nacional Autônoma e as marchas pelas ruas pedem sem cessar a saída de Daniel Ortega e de sua mulher, Rosario Murillo a quem ele tornou Vice-Presidente, fechando o circuito de um nepotismo levado ao extremo. José Pepe Mujica discursando no senado uruguaio aconselhou Ortega a ir embora: “sinto que algo que foi um sonho se desviou, caiu numa autocracia. Aqueles que ontem foram revolucionários perderam o sentido de que na vida há momentos nos quais há que dizer Me Voy“. As tentativas de refazer a Mesa de Diálogo fracassaram quando Ortega na 5a. feira 19 de julho acusou de golpistas aos bispos da Conferência Episcopal da Nicarágua.

Por fim, aconteceu o assassinato da estudante de medicina pernambucana Raynéia Gabrielle Lima, 31 anos. Quase ½ noite, ia para casa em seu carro quando paramilitares que faziam a segurança da casa de Francisco López Centeno, junto à Universidade Americana de Manágua (UAM, onde ela estuda) no Residencial Lomas de Monserrat, dispararam fuzilando-a. É um núcleo urbano de alto nível com apenas duas ruas em “U” e superprotegido. Segundo o vigia Ángel Mauricio Correa, “o lugar é muito tranqüilo e bastante seguro, com vigilância privada 24 horas e a polícia brinda um patrulhamento exaustivo na zona porque ali reside o senhor Francisco López que é um militante sandinista e por isso os delinqüentes aqui não fazem das suas.”

Sánchez Cerén, presidente da vizinha El Salvador, presente às comemorações pelo 38º aniversário da revolução sandinista, discursou diante do casal Daniel e Rosário Murillo, há quase 11 anos no poder, dizendo que são “exemplos para a América Latina”. Contudo, a situação em seu país não é melhor que a nicaraguense, com a similaridade de que ambos pagam um duro preço pela vizinhança com os Estados Unidos.

El Salvador está virtualmente ocupado pelas filiais dos cartéis da droga e por criminosos organizados, fruto de duas décadas de guerras entre gangues e por quinze anos da política oficial de segurança conhecida como “mão de ferro”. Dominando seus territórios, a Mara Salvatrucha, a MS-13, a Barrio 18 são apenas algumas das mais poderosas e temidas gangues que atuam sem controle, responsáveis (junto com a miséria do país) por 220 mil deslocados em 2016 e 300 mil em 2017, um fenômeno conhecido pela ONU como a “tragédia oculta”. Sem abrigo ou apoio interno, a única opção é a migração forçada, a busca por atravessar a fronteira com os EUA, a menos de 2.700 km de distância, pelo Golfo ou por terra via México. Este ano as coisas pioraram muito, em função da política de tolerância zero de Donald Trump fielmente seguida pelo Ministro da Justiça Jeff Sessions que ordenou aos juízes de imigração que negassem quaisquer solicitações de asilo motivadas por violência doméstica ou pedidos por vítimas de gangues. “Não são migrantes e sim expulsos de sua terra”, explicou o coordenador do Instituto de Recursos Humanos norte-americano, Arnau Baulenas.

Com 8,3 milhões de habitantes num território de apenas 21 mil km2 (como Nilópolis, o menor município do Rio de Janeiro), El Salvador tem um PIB de US$ 52,7 bilhões com não menos de 50% da população em estado de pobreza. Não obstante, tem sido um ativo centro de corrupção, vitimado por desvios bilionários de verbas.  Na década dos anos 1980, a guerra de guerrilha desenvolvida pela Frente Farabundo Marti para la Liberación Nacional (FMLN) contra a ditadura deixou 75 mil mortos, algo como 2% da população. Em 2009, após vinte anos sob governos de direita, a FMLN – transformada em partido político –  afinal venceu uma eleição com Mauricio Funes, graças ao decisivo apoio de sua esposa Vanda Pignato, brasileira (nacionalizada como salvadorenha) e militante do Partido dos Trabalhadores (PT). Habilidosa, ela conseguiu o necessário apoio do presidente brasileiro Lula da Silva para a contratação do publicitário João Santana que logo viabilizou o aporte de US$ 1,5 milhão pela Odebrecht para a campanha, naturalmente tendo como contrapartida contratos de obras governamentais. Ao final de cinco anos de governo Funes e Vanda Pignato, já divorciados, estão sendo investigados por vários delitos, entre os quais enriquecimento ilícito e apropriação de US$ 727 milhões no caso que ficou conhecido popularmente como “Saque Público”. Funes cruzou a fronteira e pediu asilo à Nicarágua, prontamente concedido pela família Ortega.

Apesar dos escândalos, a FMLN conseguiu eleger o vice Sánchez Cerén para a presidência (mandato 2014-2019). A fim de assegurar imunidade oficial, ele manteve Vanda Pignato no cargo de Secretária de Assistência Social com status de Ministra. Mesmo assim, ela acaba de ter sua prisão decretada pela Justiça sob o argumento de risco de fuga iminente. A polícia foi buscá-la no hospital onde estava internada para tratamento de um câncer. Mauricio Funes, seu filho Dirceu Roberto (que não tinha renda própria, mas era dono de agências de compra e venda de carros de luxo) e mais trinta pessoas entre parentes e ex-membros do governo passado são considerados foragidos, a maioria com mandatos de busca pela Interpol.

 

Agora não pode atender. Está decidindo que lugar massacrará amanhã: Rosário Murillo ao telefone enquanto Daniel Ortega olha o mapa da Nicarágua (Charge do periódico “Confidencial” – San Salvador, 7/2018)
Vanda Pignato e Lula da Silva na época em que negociavam o apoio da Odebrecht à campanha de Mauricio Funes (imagem pela Internet)

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