H1N1: cem anos da gripe espanhola

 

H1N1: cem anos da gripe espanhola

 

Uma rara combinação entre a extrema malignidade de um vírus, o estado embrionário da ciência médica e os horrores de uma guerra global produziu a gripe espanhola nos primórdios do século XX, a mãe de todas as pandemias. O mesmo vírus que costuma, ainda hoje, causar ondas de gripe pelos quatro cantos do mundo, o H1N1, sofreu uma mutação que lhe deu forças para matar entre 50 e 100 milhões de pessoas entre 1918 e 1920. Confiando apenas nos recém inventados comprimidos de aspirina, que passaram a ser consumidos em massa como se fossem a salvação da humanidade, exatamente a camada mais jovem e mais cheia de energias começou a cair, exibindo a palidez assustadora de seus rostos. A medicina evoluiu de maneira fantástica desde então, mas agora – cem anos depois – ainda se pergunta quando ocorrerá a próxima pandemia.

  • Origens

A hipótese mais conhecida para situar o início da pandemia retroage a 4 de março de 1918 em Fort Riley no Kansas, onde pelo menos 500 soldados foram hospitalizados com severos sintomas de gripe, embora no correr do mês a crise tenha arrefecido dando a sensação de que o problema era episódico e estava superado, com o que muitos deles foram enviados à Europa a fim de lutarem na I Guerra. O Prêmio Nobel australiano Mac Burnet concorda com esta teoria, afirmando que “a doença surgiu nos EUA e espalhou-se com a chegada de tropas americanas na Europa”. Há duas outras origens possíveis, uma culpando a China a partir de Shansi e a outra identificando as bases de treinamento de tropas inglesas em Étaples, a 48 km de Dover no Canal da Mancha e em Aldershot no condado de Hampshire, conhecidas como Praça de Touros (Bull Ring), por onde passaram pelo menos um milhão de soldados das mais diversas procedências enfurnados em precárias tendas e barracas que forneciam uma oportunidade ideal para a transmissão de vírus e para o amadurecimento da pandemia em seu período de latência. Como um prenúncio da tormenta, a chamada gripe catarral vitimou milhares de pessoas na Rússia (Russian cattarrh) entre 1889 e 1893.

  • A mãe de todas as pandemias

A razão para que a pandemia fosse denominada de “espanhola” é que, ao contrário do costume de outros países que impediam a divulgação de notícias por razões de guerra, na Espanha havia uma relativa liberdade de imprensa que acabou por criar um ambiente de gradativo e rápido pavor na população.

A gripe espanhola ou, mais propriamente, a Influenza, foi uma doença viral aguda de tipo A causada pelos subtipos H1N11, que podem produzir também a gripe comum. Permanecem, com suas variações, circulando e já ocasionaram, entre outras, as pandemias de 1957 a 1963 (Gripe Asiática – pelo virus H2N2) e 1968 a 1970 (Gripe de Hong Kong – H3N2). Todas, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças norte-americano – CDC – que finalmente conseguiu reconstruir em laboratório o H1N12, contém segmentos genéticos do vírus “fundador” de 1918, por isso considerado como “mãe” de todas as pandemias. Um esquema representativo da estrutura do vírus está reproduzido na revista Unilus (vol. 11, 2014)3.

  • De volta a 1918

As observações de um clínico em 1918, transcritas a seguir, após observar centenas de casos e de tentar salvar a quantos ainda era possível, fornecem uma noção aproximada da ação médica em plena crise. A cor azulada da pele do rosto foi denominada de Heliotrope Cyanosis – cianose heliotrópica –, uma referência às plantas que buscam o sol para sobreviverem. São do doutor em medicina e especialista em doenças pulmonares Herbert French.

“O paciente era rapidamente afetado, ou quase de repente, com uma sensação de prostração tal que se via totalmente incapaz de continuar com o que poderia estar fazendo; por pura lassidão ele seria obrigado a deitar-se onde estava ou a arrastar-se com dificuldade para a cama, de modo que as barracas que no dia anterior estavam cheias de azáfama e vida fossem agora convertidas em uma grande enfermaria. Os hospitais ficaram, dentro de um dia ou dois, tão sobrecarregados que novas internações eram impossíveis e o restante dos doentes tinha que ser cuidado e tratado onde eles estavam. As temperaturas dos homens eram de 40º C, a língua estava revestida; o rosto corou; a garganta se queixava de estar dolorida, de modo que era difícil engolir ou falar. A fácies, a princípio era corada e vermelha, com uma peculiar curvatura das pálpebras dando uma aparência cansada. Mas, em quase metade dos casos afetados pelas complicações pulmonares a tonalidade vermelha mudou rapidamente para uma de cianose progressiva. Foi quando essa temida cianose heliotrópica apareceu que se soube que o prognóstico tinha mudado tão completamente que o paciente quase certamente morreria. Ao percorrer uma grande enfermaria podia-se reconhecer, sem examinar os pacientes, aqueles que iriam morrer, só ao olhar para o semblante em razão de sua cor. Não era pelo gráfico de temperatura nem pelos sinais físicos no peito, nem por sentir o pulso que se podia dizer quais os casos graves tão bem quanto se poderia pela sua cor. O tom cianótico poderia ser definido em um paciente que estava reclamando pouco, que estava tomando bem seu alimento líquido, estava tendo um interesse inteligente em seu ambiente, respondendo a perguntas prontamente e claramente, e de forma alguma – exceto por sua cor – indicando que no dia seguinte ele quase certamente estaria morto. Foi entre os casos desse tipo que ocorreu a grande mortalidade da epidemia.”

In: The clinical features of the influenza epidemic of 1918-19. http://influenza.sph.unimelb.edu.au/data/S0001/chapters/P1_chap_3.pdf)

Sem contar com apoio científico que lhe permitisse diagnosticar e tratar os doentes, a medicina cedia o passo a soluções mágicas que surgiam a cada momento. Na cidade espanhola de Zamora, o bispo Antonio Alvaro y Ballano facilitou o contágio ao considerar que se tratava de um castigo divino face aos desmandos dos homens que haviam se desviado do Seu caminho, exigindo que os fieis se reunissem na igreja para intermináveis ciclos de orações. A mortalidade em Zamora chegou a ser até o triplo da verificada, p.ex., em Shansi, em Nova Iorque ou no Rio de Janeiro.

A aspirina (AAS), invenção alemã de fins do século XIX, no começo combatia bem a maioria dos casos, mas na 2ª. onda a gripe comum se transformou em algo sinistro. Em fevereiro de 1917 a Bayer perdera o direito exclusivo à patente americana da droga, abrindo as portas para comerciantes insuflados pela ignorância ou somente interessados no lucro. Quantidades enormes de aspirina sem advertências sobre toxidez e formas de uso, inundaram o mercado. O Cirurgião-Geral e a Marinha dos EUA recomendaram aspirina como tratamento sintomático e o Exército adquiriu grandes partidas da droga. O Journal of the American Medical Association sugeriu doses de 1.000 miligramas a cada 3 horas. Posteriores autópsias de vítimas da Espanhola levantaram a hipótese de que overdoses de AAS podem ter sido responsáveis pelo surgimento de lesões hepáticas e pelo aumento da mortalidade.

  • Dimensão global e o Brasil

As trincheiras da guerra onde os combatentes viviam na companhia das ratazanas e dos cadáveres insepultos dos companheiros, transformaram-se em férteis poços de contágio agravados pela escassez se alimentos, pelas intempéries e pela falta de higiene. Na primeira onda, em dois meses a gripe que já grassara no meio oeste americano, avançou pela frente ocidental de batalha atingindo a França, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Polônia, sul da Rússia e, logo, Índia, China, Japão. A segunda onda, ainda mais virulenta, produziu efeitos nos dois lados do Atlântico e passou a ser uma pandemia global, só poupando a Austrália, Antártica, algumas ilhas do Atlântico e a foz do Amazonas. Ainda sobreveio uma terceira onda, mas por fim em algum momento de março de 1920 a Espanhola, assim como chegou, foi embora. Nos primeiros seis meses matou algo como 25 milhões de pessoas e parecia que nessa marcha breve acabaria com toda a humanidade.

Ao Brasil chegou a bordo dos navios que vinham de Portugal e da Inglaterra, resultando em 35 mil vítimas fatais (cerca de 65% da população afetada), entre as quais o presidente Rodrigues Alves recém eleito mas que não conseguiu tomar posse para seu segundo mandato em janeiro de 1919. O ponto inicial de referência foi a chegada a Recife dos marinheiros que estavam em Dakar, mas em seguida surgiram casos em cidades nordestinas, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

  • O ginete pálido e as pandemias do futuro

Ao invés de afetar crianças e idosos, a Espanhola escolhia como suas vítimas jovens em plena idade produtiva.

Uma importante contribuição para a sua compreensão acaba de vir à luz. Trata-se do livro “El Jinete Pálido. 1918: la epidemia que cambió el mundo”4, excelente texto da jovem (47 anos) escritora britânica, hoje vivendo na França, Laura Spinney, que mereceu detalhadas resenhas no NYT e no The Guardian. Ela é jornalista especializada em conteúdos científicos e regularmente contribui para a National Geographic e Nature entre outras publicações. O livro cumpre uma tarefa realmente titânica em 21 capítulos que abordam a pandemia de um ponto de vista ao mesmo tempo histórico, científico e cultural, ademais de se constituir em uma leitura fácil e envolvente. A inspiração para o título veio, em parte, da novela Pale Horse, Pale Rider escrita em 1939 por Katherine Anne Porter na qual a figura da morte é o cavaleiro pálido. Pale rider é, ainda, lembrado como o western de 1985 protagonizado por Clint Eastwood.

Não há como prever com certeza se um vírus da “família” do H1N1 ressurgirá causando uma nova pandemia. Especialistas afirmam que não se trata de “se” e sim de “quando”. Os pesquisadores que no CDC seqüenciaram o vírus de 1918 consideram que novas pandemias mais provavelmente serão causadas por um novo subtipo de Influenza para o qual não exista imunidade prévia na população humana. Os vírus H1N1 que hoje circulam por todo o planeta causando a gripe comum são eficazmente bloqueados pela vacinação praticada regularmente pelas organizações nacionais e locais de saúde pública e medicamentos antivirais como Oseltamivir (Tamiflu) e Rimantadine (Flumadine) são efetivos contra vírus Influenza similares ao de 1918.  O texto de Spinney discute a luta dos pesquisadores por encontrar uma vacina universal para combater o H1N1, sempre frustrada pela capacidade de mutação do vírus que pode exigir a cada surto e em cada região uma nova formulação para bloquear a cadeia de contágio da enfermidade. (VGP)

 

  1. H1N1 – iniciais da proteína Hemaglutinina e das enzimas Neurominidase localizadas na superfície do vírus.
  2. Tumpey et al – Characterization of the reconstructed 1918 Spanish Influenza pandemic vírus. Science, 2005 Oct 7;310(5745): 77-80
  3. Ribeiro, T.R. e Gagliani, L.H. – Epidemiologia e diagnóstico laboratorial do vírus Influenza A, subtipo H1N1. Revista UNILUS Ensino e Pesquisa. Nº. 22 Vol. 11, 2014.
  4. Spinney, L. – El jinete pálido. 1918: La epidemia que cambió el mundo. Editorial Crítica. Barcelona, 2018. 352p. – In: http://planetadellibro.com/libros-el-jinete-palido/262489. – Em inglês: Spinney, L. – Pale rider: the Spanish Flu of 1918 and how it changed the world. Cape, September 12, 2017. In: amazon.com/Pale-Rider-Spanish-Changed-World. 1610397673

Be the first to comment

Deixe seu Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*