Mamãe Índia quer mais filhos

Hoje com 1,3 bilhão de habitantes, a Índia em 2024 ultrapassará a China como o país mais populoso do mundo. Não bastasse isso, um novo grupo se consolida para pressionar ainda mais o caótico quadro demográfico indiano: o das grávidas com mais de 60 anos clientes das clínicas de Fertilização In Vitro – FIV ou IVF na sigla em inglês – que, depois do primeiro bebê nascido pelo método quatro décadas atrás, já são milhares país afora. Trata-se de um processo laboratorial em que o óvulo de uma doadora após receber o sêmen masculino transforma-se em um embrião que se desenvolve no útero da mulher que o adquiriu. A mãe mais idosa é Daljinder Kaur que aos 72 anos teve o pequeno Armaan – Esperança no idioma híndi. O marido tem 79 e a doadora, de identidade nunca divulgada, é uma jovem de 18 anos que dessa maneira ganha mais do que com um ano de salários. Kaur considera seu filho um milagre de Deus e seu embriologista, Dr. Anurag Bishnoi, orgulha-se de ter ajudado a gravidez de mais de cem mulheres cinquentenárias. “Se um homem pode ter filhos aos 60 ou 70 anos, porque não a mulher?”, diz ele, completando: “cada mulher tem o direito de ter uma criança não importando sua idade”. Mas os críticos dizem que, ávidos por dinheiro, os médicos estão colocando em risco tanto as idosas quanto as jovens que fornecem os óvulos e os bebês. “Fazer de uma senhora de 72 anos uma grávida é colocar sua saúde em serio perigo”, declara o Dr. Narendra Malhotra, presidente da Sociedade Indiana de Reprodução Assistida.

As causas dessa onda que só faz aumentar são várias e a maior delas é o estigma social que cerca as famílias sem filhos. Para um casal, o nascimento de uma criança é o sinal de que o casamento vai bem, reza a tradição na Índia profunda. Uma mulher sem filhos, marcada como infértil, não é respeitada pelos vizinhos. “Obedeço a vontade de Ganesh”, revela uma paciente na sala de espera da clínica, mostrando a imagem da divindade de cabeça de elefante que simboliza a liberação ante os obstáculos da vida e a devoção às mães. Em paralelo, ativos líderes religiosos hindus recomendam que cada família tenha pelo menos 4 ou 5 descendentes para fazer frente à expansão das comunidades muçulmanas. E, tirando vantagem das permissivas leis indianas, multiplicam-se também sem controle as mulheres que alugam seus úteros a preço de ouro para inescrupulosos centros ditos de planejamento familiar que praticam preços competitivos e atraem clientela do mundo inteiro.

A culpa pela infertilidade sempre recai na mulher que ocupa uma posição social inferior nas sociedades asiáticas. No caso da Índia, a preferência nacional pelo filho homem trouxe um nítido desequilíbrio demográfico, estimando-se que no grupo de 15 a 35 anos exista um excesso de 30 milhões de varões. Nas cidades nascem somente 902 mulheres para cada 1.000 homens, mas no pequeno Território de Damão e Diu a relação é de apenas 618 por 1.000. Damão, um enclave da província ocidental de Gujarat, foi colônia de Portugal desde 1.559 (quando Diego de Noronha ai se instalou) até a sua reincorporação pela Índia em 1.961. Ainda hoje, na larga praça central de Diu, às margens do mar Arábico, ergue-se imponente a catedral de São Paulo a lembrar as origens católicas do conquistador em uma população que hoje em sua totalidade professa o hinduísmo. A taxa de fertilidade baixou nas últimas cinco décadas e meia de 5,9 para 2,2 filhos por mulher, mas ainda é 1,4 vezes superior à da China.

Cada vez mais os grupos defensores de direitos humanos se voltam para a proteção à mulher pedindo, por exemplo, a regulamentação das clínicas de IVF e leis mais rígidas que proíbam o milenar costume do dote (dado pela família da noiva), a prática do aborto seletivo, a violência de gênero num país que denomina a si mesmo de Mãe Índia. (VGP)

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