MDB malaio, consenso armênio e política libanesa (Atualizado)

MDB da Malásia

Quem diria? O maior escândalo de corrupção no mundo não é brasileiro: é o “1MDB”, que não é o nosso e sim o Malaysia Development Berhad, o Fundo de Investimentos malaio que em diversas megafraudes sumiu com algo em torno de 4,5 bilhões de dólares, os quais foram parar nas contas de Magib Rasak, o atual Primeiro Ministro (PM) e candidato favorito nas eleições gerais dessa 4ª. Feira, 9/5/2018. O seu partido – Barisan Nasional –, de forte tendência direitista, está no poder desde a independência do país em 1957 e ainda agora, graças ao eleitorado mais pobre da zona rural continua sendo a principal força política. Ele nega e diz que o dinheiro nada mais é do que uma doação da família real saudita que já teria sido devolvido, embora inexista comprovação em tal sentido. O caso é surreal e foi contado em minúcias pelo britânico The Guardian (The inside story of the world’s biggest financial scandal – Por dentro da história do maior escândalo financeiro mundial – www.theguardian.com/world/2016/jul/28/1mdb). Na oposição está o Pakatan Harapan (Aliança da Esperança), cujo candidato é o ex- PM Mahathir Mohamad que aos 92 anos quer voltar ao poder com um discurso anti-corrupção.

A Malásia, na economia um tigre asiático, é governada por uma monarquia parlamentarista que desde o final de 2016 elegeu como rei ao sultão Muhammad V de Kelantan de 47 anos para um mandato de apenas 5 anos, ao fim dos quais será substituído por um dos outros oito sultões, hoje governadores em seus estados, num regime de alternância que dá oportunidades a todos da família real.

Revolução de veludo na Armênia

Enquanto isso, no Cáucaso, a Armênia – um pequeno país insular, uma das 15 ex-repúblicas soviéticas, que obteve a independência em 1991 – surpreendentemente conseguiu fazer sua “revolução de veludo” e, a exemplo da Tcheco Eslováquia (hoje República Checa) de Vaclav Ravel, sem dar um tiro, forçou a renúncia do PM Serzh Sargysyan, substituindo-o pelo líder da oposição Nikol Pashinyan. À frente do Partido Republicano, Sargysyan assumiu o poder em 2008 quando protestos contra o desastroso 1º regime pós-comunista resultaram em violenta ação policial que deixou dez mortos. Ele comprovou sua fidelidade ao amigo Vladimir Putin quando a vizinha Ucrânia aderiu à União Européia e ele filiou a Armênia à União Econômica Eurasiana junto à Rússia, Belarus e Cazaquistão, com receio de que seu sofrido país perdesse as vantagens do gás subsidiado vindo de Moscou. Agora, onze dias de marchas populares denunciando corrupção governamental e pedindo mais educação e melhores salários foram suficientes para que o Parlamento retirasse o apoio aos republicanos.

A Armênia tem uma longa trajetória de submissões e sofrimento. Já pertenceu ao Império Persa, esteve sob domínio otomano por quase quatro séculos e viu-se incorporada à União Soviética após a 1ª. Guerra junto com Geórgia e Azerbaijão. Sua fronteira com a Turquia continua bloqueada, pois o governo de Erdogan não reconhece o genocídio que em 1915 assassinou 1,5 milhão de armênios. Pelo menos outros 10 mil perderam a vida durante o Grande Expurgo no governo de Stalin, mas com a morte do ditador e a perestroika de Gorbachev enfim chegou a independência. Apesar de tudo, 98% da população de 3 milhões de habitantes é de armênios étnicos. Persiste a disputa fronteiriça com o Azerbaijão pelo montanhoso enclave de Nagorno-Karabakh. O porta-voz de Putin, Dimitry Peskov, declarou que a Armênia é extremamente importante para Moscou, mas até o momento persiste o discurso de que a autonomia de Yerevan (capital armênia) tem valor e deve ser respeitada.

Nikol Pashinyan, novo Primeiro Ministro da Armênia

Xiitas e cristãos no Líbano

Mais complexa é a situação do Líbano, no Oriente Médio, onde a primeira eleição parlamentar em nove anos realizada neste 9 de maio na verdade significou o fortalecimento do Hezbollah e seus aliados. Recentemente (em 2014 e 2017) os libaneses estiveram praticamente sem governo, convivendo com inúteis prorrogações de mandatos. A inevitabilidade das coalizões para poder governar está operando até mesmo milagres antes inconcebíveis como a aliança entre cristãos maronitas e xiitas que se formou desde 2006 e é uma conseqüência das freqüentes mudanças no teatro das guerras regionais. Ultimamente o país tem estado dividido entre duas tendências principais: o Bloco Março 14, anti-sírio, pró-Ocidente e pró-Arábia Saudita; e o Bloco Março 8, pró-sírio e ligado ao Hezbollah.

Metade dos eleitores se abstiveram. Numa Casa com 128 cadeiras, é fundamental obter pelo menos 1/3, o que permite bloquear as votações mais relevantes para as quais o quorum exigido é de 2/3. Para o dia a dia, em projetos que necessitam maioria simples, o duo xiita formado por Hezbollah e Amal (Movimento da Resistência Libanesa) mais o Movimento Patriótico Livre do presidente Michel Aoun é suficiente. Israel já se pronunciou, dizendo que o “Líbano é Hezbollah”. Na divisão de poder vigente, o presidente precisa ser um cristão-maronita, o PM um muçulmano sunita e o líder do Parlamento um muçulmano xiita. O maior perdedor eleitoral foi o Primeiro Ministro Hariri, cujo partido Movimento do Futuro alcançou apenas 21 postos, menos que as 40 do duo xiita.

Atualização (em 2/05/2018)

Mahathir Mohamad assegurou a maioria das cadeiras no parlamento malaio e, após alguma relutância, foi nomeado como novo PM (e mais velho em todo o mundo) pelo rei Muhammad V. De imediato assinou um ato proibindo o ex-PM Najib Rasak, bem como toda sua família, de deixar o país.

Putin foi um dos primeiros líderes estrangeiros a cumprimentar Nikol Pashinyan por sua vitória na Armênia. Os dois líderes encontram-se pela primeira vez em Sochi nessa 2a. feira, 14/5/2018, na cúpula da União Econômica da Eurásia, na qual agora Nikol diz que pretende manter a filiação de seu país.

No Líbano a apuração dos resultados eleitorais confirmaram a vitória relativa da aliança entre Hezbollah e Aman, com 28 postos, mas com maioria mínima suficiente graças ao apoio dos Cristãos e de outras agremiações. O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, celebrou seu triunfo. Já o PM Saad Hariri que viu seu grupo partidário, o Movimento do Futuro, perder 1/3 das cadeiras que ocupava, mas mesmo assim deverá ser encarregado de formar um novo governo.

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