Literatura: Nobel com novos problemas

O caso Dylan

Aos inventores, cabe a recompensa ou o desprezo por suas invenções, sejam elas positivas ou negativas. Em 2016 a Academia Sueca surpreendeu o mundo ao conceder o Prêmio Nobel de Literatura ao musicista norte-americano Bob Dylan, tido como uma legenda do rock e símbolo da geração dos anos sessenta. Considerar que as composições de Dylan são “literatura” constituiu um evidente exagero da Academia pois, ao mesmo tempo em que premiava um indiscutível grande cantor e compositor, implicitamente considerava que não havia sequer um escritor no mundo todo que por sua obra literária merecesse o reconhecimento conferido pelo Nobel.

Dylan sequer compareceu à cerimonia em que deveria receber a homenagem, dizendo já estar com compromissos agendados para a data, mas depois para não permitir que caducasse a recompensa de 8 milhões de coroas suecas (R$ 3,25 milhões) normalmente dada ao ganhador do ano, Dylan gravou e encaminhou um discurso a Estocolmo. Em seguida Sara Danius, Secretária Permanente da Academia que muito se empenhara pela escolha e já pensava que Dylan não cumpriria com o requisito, declarou que o discurso (à venda no site de Dylan por US$ 10.99 ou em edição de capa dura de 32 páginas com apenas 100 exemplares por 2.500 dólares cada) era extraordinário e eloquente. Nele, o novo Nobel faz referências a algumas de suas inspirações literárias, citando p.ex. a Odisseia de Homero e Moby Dick (1891) de Herman Melville.

Fê-lo, ao que tudo indica, para satisfazer aos insistentes pedidos da Academia, mas parece que não deu certo. Em artigo para o magazine eletrônico Slate (Washington com edições também em francês) com conteúdo dito de centro-esquerda para os padrões norte-americanos, a escritora Andrea Pitzer – autora de “One Long Night: A global history of concentration camps” (edição em espanhol de 2018, acessível em www.agapea.com/libros/una-longa-noche) e “The secret history of Vladimir Nabokov” – diz que no discurso aceito pela complacente Academia sueca Dylan plagiou e citou inexistentes frases de Moby Dick. Pitzer por fim descobriu de onde Dylan de fato se inspirara, copiando fielmente os conteúdos do conhecido site Spark Notes  criado pela Universidade de Harvard (comprado em 2001 pela Barnes&Noble) como apoio de internet para alunos e estudiosos em campos do conhecimento como literatura, poesia, ciências biológicas, física, etc. Algumas das citações sequer existem na obra de Melville. Foi, enfim, apenas um trabalho de “corta&cola”, como o de qualquer estudante em seus trabalhos escolares.

Antes, numa entrevista à revista Rolling Stones, Dylan admitira que costumava obter inspiração de outros autores, transformando suas ideias em letras de canções. No entanto, se isso é, como ele afirmou, prática corriqueira no mundo artístico, certamente não é admissível em literatura e menos ainda numa apresentação formal (especialmente a uma Academia e num evento em que estava em jogo premiação de elevado valor) na qual a originalidade e a produção pessoal são requisitos básicos. Desta feita nem o cantor nem os responsáveis por seu site se pronunciaram.

Questionamentos

O Nobel de Literatura tem sido questionado já há muito tempo por suas curiosas e nem sempre explicáveis escolhas. Já nasceu sob o signo da dúvida, face ao erro de interpretação das palavras de Alfred Nobel que no período de 1901 a 1912 excluiu grandes escritores como James Joyce, Leon Tolstoi, Marcel Proust, Mark Twain, entre outros, porque suas obras não davam uma visão otimista da realidade, possibilitando a premiação de autores inexpressivos. A preferência da Academia, desde a escolha de Sully Prudhomme em 1901, tem sido por escritores franceses. O Brasil nunca teve chance, apesar de nomes como Machado de Assis, Jorge Amado, terem sido eventualmente cogitados. Ultimamente o mundo literário não deixou de se surpreender por opções a pessoas pouco conhecidas fora de seus circuitos regionais, como as da bielorrussa Svetlana Alexievich, do chinês Mo Yan, do peruano Mario Vargas Llosa.

Quando as coisas estavam nesse pé, eis que estoura o escândalo atual por acusações de abuso sexual a 18 mulheres entre 1997 e 2007 por parte do fotógrafo francês Jean-Claude Arnault, esposo de Katarina Frostenson, jurada da Academia Sueca. Duas foram as consequências imediatas: a renúncia de vários dos 18 jurados e um pronunciamento oficial informando que a concessão do Nobel de Literatura de 2018 foi adiada pela “redução de confiança do público”.  Em princípio no ano que vem serão dados dois prêmios, incluindo o de 2018, mas a onda de descrédito por parte do mundo literário dificilmente poderá ser contida. A última vez em que o prêmio foi transferido para o ano seguinte foi em 1949 (William Faulkner o recebeu em 1950). Somente em anos de guerra – 1918, 1919, 1940 a 1943 – não houve Nobel de Literatura

Bob Dylan, Prêmio Nobel de Literatura de 2016
Casal Jean-Claude Arnault e Catarina Frostenson envolvidos em escândalo ligado ao Prêmio Nobel de Literatura (Imagem: The Guardian)

Repercussão

O duro editorial do jornal britânico The Guardian de 4/5/2018 (The Nobel prize for literature: a descredit authority) bem revela a interpretação dos fatos por parte mundo da literatura. Em seus tópicos principais afirma:

“Os enérgicos avanços sexuais de que o fotógrafo e empresário francês Jean-Claude Arnault é acusado dificilmente podem ser desconhecidos por seus amigos na academia. Não era ele próprio um dos 18 membros da academia, embora sua esposa, a poeta Katarina Frostenson, fosse; mas ele se considerava como sendo o 19º membro. O casal, que dirigia o clube, recebe dinheiro há muitos anos da academia, que agora está reduzida a dez jurados depois de uma série de demissões e expulsões, quando alguns membros exigiram que Frostenson se retirasse, ao mesmo tempo em que seus defensores pediam a cabeça da secretária permanente, Sara Danius. Os que se retiraram permanecem membros, como zumbis, mas a própria instituição também é hoje algo como uma morta-viva. O escândalo tem sido sobre autoridade desperdiçada e sobre o uso indevido do poder. Os prêmios Nobel valem porque as pessoas pensam que são válidos. Há prêmios que oferecem mais dinheiro pela excelência em outros campos, como o prêmio Templeton pelo progresso na religião, mas eles não têm nada como o reconhecimento de prestígio e nome do prêmio de literatura. Este é um fenômeno de demanda, não de oferta. O mundo quer autoridades culturais nas quais possa acreditar. A noção de que alguém qualificado para fazer isso está pesando os méritos de um romancista chinês contra um vanguardista austríaco, um poeta sueco contra um astro do rock americano, e determinando qual deles é o melhor, ou o escritor mais idealista do mundo, é simplesmente ridícula. Quando o prêmio foi fundado, parecia possível que toda a literatura mundial pudesse ser julgada a partir de Estocolmo por estudiosos que poderiam ler fluentemente nas quatro ou cinco línguas europeias que consideravam civilizadas, mas a autoridade cultural e política da Europa Ocidental entrou em colapso desde então.”

 

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