Turquia sem democracia e sem liberdade

A venda do último grupo midiático que ainda fazia alguma oposição à ditadura turca em março deste ano é o golpe final à liberdade de expressão e à imprensa livre na pátria de Receep Erdogan. O Grupo Dogan, que albergava a rede CNN e o principal canal de TV nacional, o Hurriyet, agora pertence à holding Demiroten, pró-Erdogan, o líder muçulmano que em 2015 assumiu definitivamente o poder absoluto graças a um plebiscito muito precisamente comparado pelo Die Welt de Berlim ao ocorrido na Tcheco Eslováquia nos idos de 1936. Então, os sudetos (alemães residentes na Boêmia e na Morávia) votaram em massa no Partido Alemão apoiado por Hitler. “Um país onde havia mídia ativa, tribunais independentes e oposição preferiu o outro lado da fronteira onde nada mais disso existia”. Numa premonição do que já acontece na Turquia atual, uma leitora do jornal alemão escreveu: “em breve esse país será igual ao nosso em 36. Terá prisioneiros, inimigos políticos, pessoas com medo de abrir a boca.” Contudo, mais do que uma volta a 82 anos atrás, o que busca Erdogan é na verdade um retorno a antes de 1920, ou seja, ao Império Otomano derrocado logo após a 1a. Guerra, reassumindo pelo menos boa parte dos imensos poderes que até então ficavam nas mãos do sultão.

O cerco aos derradeiros resquícios de resistência aberta completou-se com o “agravamento”, pela Suprema Corte em  Ancara das penas de prisão perpetua impostas, entre outros, aos jornalistas Ahmet Altan, editor-chefe do periódico Taraf; seu irmão, acadêmico Mehmet Altan e à proeminente escritora turca Nazli Ilikat. Detidos numa prisão de segurança máxima em meio ao deserto e recebendo comida através de um buraco na parede da cela, tentam sobreviver. Foram condenados sem direito a defesa digna desse nome, por acusações vagas como a divulgação de mensagens subliminares  contendo ofensas ao presidente (o que é terminantemente proibido no país) e por supostamente estarem ligados ao clérigo Fettulah Güllen, hoje vivendo na Pennsylvania, Estados Unidos. “Como todos os escritores”, disse Ahmet Altan que tem livros publicados em vários idiomas, “eu tenho a magia. Posso atravessar as paredes com facilidade.” O “agravamento” da pena, além de adicionar 5 anos e 11 meses à prévia condenação perpetua (???), de acordo com as leis turcas significa que se prisioneiros forem beneficiados com imunidades por qualquer outro futuro governo ou qualquer outro Judiciário, essas pessoas não poderão ser por isso favorecidas. No momento, pelo menos 150 jornalilstas estão presos na Turquia, o que a coloca na liderança mundial neste quesito, segundo o Centro Europeu para a Imprensa e Liberdade de Expressão.

Já se disse de Erdogan que ele não é um grande ditador porque é apenas um pequeno ditador. Para manter-se no poder com alguma sustentação popular, ele necessita de inimigos com os quais guerreia de modo permanente: de um lado, internamente, os invisíveis partidários de Güllen; de outro lado os curdos, aos quais resolveu perseguir Oriente Médio afora. Até os norte-americanos resolverem se queixar, dizendo que a mania dos turcos (com apoio da Rússia de Putin) de atacarem os curdos na Síria e no Iraque está tirando o foco da luta principal contra a Al Qaeda e o Estado Islâmico – EI, e provocando desequilíbrio e novas instabilidades na região. O resultado é o adiamento infinito de um possível final da guerra síria que já se prolonga por sete anos. Não satisfeitas com a limpeza dos curdos de Afrin (noroeste da Síria), as forças turcas tentaram bombardear a vizinha Manjib, mas ai estão aquartelados os americanos (que batalham ao lado dos curdos contra o EI), obrigando-os a recuar.

Mehmet Altan, Ahmet Altan (ao centro) e Nazli Ilikat, jornalistas condenados em 2018 à prisão perpétua na Turquia por crimes de opinião

O poder costuma subir à cabeça de seus detentores, que seguidamente perdem a compostura. Assim, o até então desconhecido jornalzinho austríaco Voralberger Nachrichten viu-se censurado por ter editado um suplemento infantil no qual dizia que “o presidente Erdogan não tolera pessoas com opiniões diferentes da sua”. Já o conselheiro sênior de Erdogan, Yigit Bulut, para justificar o aparelho repressivo revelou que o presidente tem sido alvo de tentativas de assassinato por telecinésia, ou seja, provocado por alguém exclusivamente com o uso, à distância, da mente. Pior foi o discurso de Erdogan quando apelou aos 3 milhões de compatriotas vivendo na União Europeia: “Façam não três, mas cinco filhos. Vocês são o futuro da Europa.” Vale repetir a Tezcan Gumus, professor da Universidade de Deakin, referindo-se em especial ao plebiscito de 2015: “A Turquia tornou-se um dos poucos países a escolher democraticamente a morte da democracia”.  Ele, porém, não imaginava que já no ano seguinte seria dado um autogolpe arrasador que permitiu aos militares da ala governista um dos mais radicais expurgos de opositores já praticado na história moderna  (VGP)
Para mais informações, neste site, sobre o caso da Turquia, leia alguns dos textos já publicados por Mundo Século XXI: Seis séculos sob o Império Otomano – Erdogan tenta massacrar curdos na Síria – Turquia: intentona fortalece o ditador.

Turquia: Intentona fortalece o ditador (Inclui atualização em 8/16)

Erdogan tenta massacrar curdos na Síria

5. Seis séculos sob o Império Otomano (5º texto da Série “Bálcãs: um Debate Atual”)

Be the first to comment

Deixe seu Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*