Etiópia muda etnia no poder

Surpreendentemente a Etiópia resolve pela primeira vez em sua história colocar um oromo na presidência, na tentativa de acalmar as manifestações de rua promovidas por membros das etnias Amhara e Oromo contra o governo que nos últimos três anos resultaram em centenas de mortos e milhares de detidos.

O país, com 96 milhões de habitantes e 1,1 milhão de km2 de área (10º no continente, onde os maiores em território são Argélia, RD do Congo, Sudão, Líbia e Chade), está situado na África oriental em uma das mais pobres e conflituosas regiões do mundo. Enfrenta permanentes dificuldades para manter a concórdia entre seus 80 grupos étnicos. Os oromos são majoritários com 34,5% da população, seguindo-se os amharas com 27%, somalis com 12,5% e tigrays que, embora sejam somente 6% dos etíopes, mantém em suas mãos, por vezes a ferro e fogo, o governo nacional desde 1991, quando derrubaram uma ditadura marxista de 17 anos – conhecida como Derg – que em seu final impusera um regime de “terror vermelho”. Antes, durante a 2ª. Guerra Mundial, a Etiópia viu-se dominada pelos fascistas italianos, afinal expulsos para dar lugar ao longo reinado de Hailé Selassie (governou de 1941 a 1974).

Com uma economia que, mesmo atualmente crescendo a 8,4% ao ano permanece, com um PIB per capita (PPP) de US$ 1.916, em 40º lugar entre 58 nações do continente africano, a Etiópia é aliada dos Estados Unidos devido à forte presença terrorista (Al Qaeda) nas vizinhanças. Não obstante, tem conseguido manter a paz desde a guerra com os eritreus em 1999 e 2000.

Agora, a coalizão governante – Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE) -, composta pelos 4 partidos que representam as 4 etnias maiores – acaba de eleger com 60% do total de 180 votos, a Abiy Ahmed Ali, 42 anos (imagem à direita), como o novo 1º Ministro em substituição ao reformista Haile Hailemariam Desalegn que renunciou em fevereiro último por se considerar incapaz de devolver a paz interna.

Embora seja um oromo de nascimento, conte com o apoio de seu partido e tenha experiência por ter sido vice-governador do estado de Oromia e recentemente ministro de Ciência e Tecnologia no gabinete do demissionário Hailemariam, Abiy tem uma difícil missão pela frente. Portador do título de Doutor em Paz e Segurança pela Universidade de Addis Abeba, ele passa a fazer parte de um governo que não mudou sua essência e tem uma forte base no funcionalismo público de tigrays os quais, entre muitas outras funções essenciais de Estado controlam o aparelho militar. “Não creio que o povo oromo se acalmará só porque um dos seus irá ocupar o Palácio a partir de agora. Tudo depende de que tipo de reformas ele vai implementar”, disse Tsedale Lemma, Editora-Chefe do jornal Addis Standard. Já Merera Gudine, líder da oposição oromo&ahmara, pede como primeiras medidas da nova administração a imediata libertação dos ainda muitos presos políticos (ele mesmo foi libertado só há poucos dias) e a revogação do Estado de Emergência que permite aos militares e policiais todo tipo de arbitrariedades contra os manifestantes.

Tedros Adhanom Gebreyesus, Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde a partir de 1º/7/2017

Um tigray na OMS

Em 2017, um etíope e destacado tigray, o Dr. Tedros Adhanom Gebreyesus (de inegável semelhança física e facial com Abiy Ahmed, com se vê pela imagem à esquerda, numa demonstração de que na realidade há mínimas diferenças entre as etnias etíopes tigray e oromo) foi eleito Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (da qual é antigo funcionário) com o apoio da União dos Países Africanos. Na época, ele derrotou a um inglês bem mais capacitado que se viu prejudicado pela onda do Brexit e a uma paquistanesa pouco expressiva. Com isso, reforçou o costume de as organizações internacionais elegeram alguém de seu próprio quadro para os cargos que se abrem, num mecanismo de eficiente autoproteção da burocracia institucional.

Como ministro das relações exteriores do governo etíope, ele compactuou com os massacres e perseguições aos povos oromo e ahmara; e depois, já na posição de ministro da Saúde (licenciado pela OMS), fez de tudo para esconder uma terrível epidemia de cólera para não prejudicar a economia do país. Quando de sua eleição em Genebra um grupo de oromos e ahmaras reuniu-se em ruidoso protesto na praça fronteira, protestando contra a escolha de um tigray enquanto na Etiópia o estado de exceção e o encarceramento sistemático de opositores prosseguia.

Já ocupando seu posto na OMS, a única manifestação de cunho político relacionada à África da qual se tem conhecimento foi seu apoio ao velho ditador Robert Mugabe que em seguida foi deposto do governo do Zimbabwe. Na área profissional, segue tentando levar adiante o programa conhecido como “Universal Health Coverage” (Cobertura Universal de Saúde), apesar dos inconsistentes resultados internacionais obtidos desde a administração precedente da chinesa Margaret Chan, criadora da UHC que na prática procurou substituir a proposta de atenção primária pública instituída nas reuniões da OMS em 1978 na cidade soviética (hoje no Cazaquistão) de Alma Ata. (VGP)

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