Africa do Sul: a renúncia de Zuma

Jacob Zuma demite-se em 14/02/2018, aos 75 anos. “G” lembra Gupta (ver texto)

[Atualização: FINALMENTE, NESTA 4A. FEIRA DE CINZAS, 14/2/2018, JACOB ZUMA ENTREGOU O CARGO E NÃO É MAIS PRESIDENTE DA ÁFRICA DO SUL.

Em pronunciamento televisionado, Zuma, desde Pretória, disse que “Tomei a decisão de renunciar com efeitos imediatos (“I have to come to decision to resign with immediate effect). Meu partido é que me colocou como o representante do povo e é meu partido que me avalia”.

O líder do Congresso Nacional Africano, Cyril Ramaphosa, deverá tornar-se o próximo presidente do país, dando seguimento à viciosa tradição de que a África do Sul é dominada por um regime de partido único. A oposição, uma vez mais, não terá chances. Em princípio, troca-se seis por meia dúzia.]

 

Desde que Mandela substituiu o poder branco e o regime do apartheid, a África do Sul tornou-se a pátria de um partido só: o Congresso Nacional Africano. Eleições gerais continuaram sendo realizadas, mas sempre com o vencedor já decidido no conchavo prévio do partido. Quem obtém o comando do CNA automaticamente se vê conduzido à presidência da nação. Nelson Mandela assumiu em maio de 1994, mas optou por não aceitar um segundo mandato de cinco anos e transferiu a presidência para um sucessor natural, Tabo Mbeki, em junho de 1999.

Acusado por corrupção e sob intensa campanha contra si de um dos mais destacados líderes do CNA, o zulu Jacob Zuma, Mbeki  renunciou ao cargo em setembro de 2008. Após um curto período sob uma presidência interina, em maio do ano seguinte Zuma foi eleito e posteriormente reeleito para um segundo período em 2014.

Hábil em subornar e dominar a estrutura partidária, Zuma  tornou-se uma vergonha para o povo sul-africano, acumulando um conjunto de lamentáveis acusações que até agora foram sistematicamente encobertas pelas lideranças partidárias. Bilionário, com residências espalhadas por paraísos fiscais. acusado pelo uso de recursos públicos para reformar a mansão de sua propriedade e réu confesso em caso de estupro da filha de um líder do partido (ao visitá-lo em sua casa – Zuma disse que não foi contagiado porque tomou uma ducha após o coito) que era assumidamente HIV positiva. Praticante de poligamia como todo Zulu endinheirado, Zuma casou cinco vezes. Uma esposa se suicidou, outra se divorciou, mas o resultado é que ele tem vinte filhos de múltiplas mulheres.

Agora as coisas estão mudando. O CNA acaba de eleger um novo presidente, Cyril Ramaphosa que quer para si – e o quanto antes – o posto de Número Um do país, embora tenha reafirmado que não pretende humilhar Zuma.  Os sul-africanos apenas aguardam o anúncio da renúncia, sabendo que se ela não ocorrer de imediato a Assembleia Nacional poderá finalmente aprovar o impeachment por grosseira corrupção e lavagem de dinheiro. Os escândalos se multiplicaram a partir de 2009, mas diversos votos de Não Confiança no Parlamento foram derrubados pelo grupo zulu que até há pouco permaneceu leal a Zuma, que enfrenta centenas de acusações e processos. O mais  notório deles se refere ao favorecimento de Zuma à família de imigrantes indianos Gupta (vide imagem) favorecidos em contratos governamentais e com influência inclusive na nomeação e demissão de ministros.

Mas o Congresso Nacional Africano não toma jeito e inicialmente uma vez mais optou por dizer que “o presidente Zuma deve deixar o cargo”, mas não estabeleceu qualquer prazo para tanto, nem decidiu apresentar moção de desconfiança no Parlamento. O Secretário-Geral do partido, Ace Magashule, com um sorriso amarelo nos lábios, afirmou que “caso o camarada Zuma se recuse a seguir a decisão do seu partido, tomada após exaustivas discussões (??), teremos de lidar com este assunto”, o que na prática significaria que Zuma poderá ficar no posto se quiser, repetindo seu comportamento em todas as ocasiões anteriores. Ele fica, enquanto o país chora e afunda, mais ou menos como no caso do Brasil. (Veja no início deste texto, a atualização informando que Zuma não resistiu à pressão e renunciou) (VGP)

 

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