Trotsky

Trotsky e Stalin

Os telespectadores do Perviy Kanal – Canal 1 -, o de maior audiência em toda Rússia (é a Globo de lá, mas com 51% das ações na mão do governo federal), tiveram uma enorme surpresa quando a imagem ao mesmo tempo emocionante e assustadora de Lev Trotsky apareceu na tela anunciando a série que em oito capítulos retratará, pela primeira vez desde o final da guerra civil que entre 1917 e 1922 deixou não menos de 4,5 milhões de mortos quase aniquilando o sonho bolchevique, a história deste homem extraordinário, demônio para uns, herói para outros. O elevado número de vítimas teve muitas causas, afora a crueldade dos combatentes. Na Rússia do começo do século XX grassava o tifo, a cólera, a fome, a pilhagem e, como sempre, o frio.
A Agência EFE, numa síntese, diz que ele nunca foi reabilitado pelas autoridades, nem mesmo na Perestroika, e cita o atual presidente do PC (Partido Comunista da Federação Russa), Gennady Ziuganov, para quem “com Trotsky teria sido ainda pior”. As reações foram imediatas. O Comitê da IV Internacional (criada por Trotsky em 1938) de sua sede em Paris classifica a série da TV russa como “um espetáculo lamentável de falsificação histórica e de antissemitismo”, o que parece injusto, pois o trabalho do roteirista Oleg Malovichko, embora romanceado, é tido como rigoroso com os fatos históricos. Há os que criticam porque Trotsky é mostrado negativamente, mas de outra maneira a novela nunca obteria o nihil obstat do czar Vladimir Putin.
Sem dúvida, o papel de Trotsky há um século como o pai (ou um dos pais) da revolução de outubro e do Exército Vermelho, surge como indiscutível. Nascido em novembro de 1879 em Ianovka, Ucrânia, foi ele que, sem piedade, derrotou a velha ordem e o Exército Branco para, então, ceder o comando a Lênin para que este assumisse o Kremlin. Na TV, uma fala do personagem que interpreta o herói é reveladora: “Lênin tem razão. Na Rússia o poder nas mãos de um judeu não duraria nem um mês”. De fato, o antissemitismo foi um fardo que nunca deixou de persegui-lo.
Jean-Jacques Marie em sua “História da guerra civil russa” (Ed. Contexto, 2017) reproduz comentário de Trotsky sobre a decisão de matar em 16/7/1917 os Romanov em Ekaterimburgo: “a execução da família imperial era necessária, não somente para assustar, assombrar, privar o inimigo da esperança, mas também para sacudir os russos, mostrar-lhes que não havia volta possível, que a saída era a vitória total ou o fracasso total”.
As instáveis relações entre os componentes do triunvirato dirigente – Lênin, Stalin e Trotsky – explodiram em dezembro de 1922, quando Lênin (falecido treze meses mais tarde) ditou seu testamento, escolhendo Trotsky para substituí-lo, pois considerava que “Stalin é muito bruto e este é um defeito intolerável para um Secretário-Geral” (Martin Gilbert em “A história do Século XX” – Ed. Planeta, 2016). Lênin desejava que seu testamento chegasse ao conhecimento de todos, mas Stalin que desde o começo do ano já era o Secretário-Geral do Partido, assumiu o poder e, além de fazer de tudo para liquidar com o trotskismo, manobrou para que o documento permanecesse secreto por 33 anos, até depois da sua morte.
Trotsky viu-se sucessivamente excluído do Comissariado para a Guerra (em seu lugar assumiu Yakov Yakolev que deu um ano para a coletivização camponesa se completar), do Politburo e até do PC, sendo exilado em Alma-Ata e em seguida expulso da Rússia em 1929. Foi para a Turquia, para a Noruega e por fim refugiou-se com a família na casa do pintor trotskista Diogo Rivera na Cidade do México. Ai se envolveu num caloroso caso de amor por um ano com Frida Kahlo, a mulher de Rivera. “A relação com Lev foi uma das melhores coisas que me aconteceram”, declarou ela.
Perseguido sistematicamente por Stalin, seus seguranças conseguiram evitar um primeiro atentado, mas não o segundo, ao final da tarde de 20 de agosto de 1940, na casa de Trotsky em Coyacán, um distrito central da Cidade do México. O assassino: o agente soviético Ramón Mercader, na verdade um espanhol que usando o nome falso de Frank Jackson tornara-se figura habitual na casa de sua vítima. A arma do crime foi incomum. Aproveitando-se de um raro momento a sós com o revolucionário russo, Mercader tirou da pasta uma piolet de escalada (machadinha para apoiar subidas em montanhas nevadas) e cravou-a na cabeça de Trotsky que ainda agarrou-se com ele. Antes de entrar em coma (faleceu no dia seguinte), em suas palavras finais disse. “não sobreviverei a este ataque. Stalin finalmente completou a tarefa que tentara antes sem sucesso”. Tão logo a notícia chegou a Moscou, o chefe do serviço secreto de Stalin ordenou mais uma devassa nos campos de concentração do regime, eliminando milhares de trotskistas remanescentes. A derradeira residência de Trotsky na Av. Rio Churubusco, 410 da capital mexicana foi transformada num museu; longe, longe de Moscou. (VGP)

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