No Peru, PPK consegue salvar-se e paga soltando Fujimori

O economista peruano Pedro Pablo Kuczynski, 78 anos, salvou-se por pouco do impeachment numa sessão de 145 horas quase às vésperas do Natal em Lima. PPK, como é mais conhecido, dezessete meses atrás derrotou em um acirrado 2º turno a Keiko Fujimori (filha de Alberto Fujimori, na cadeia por corrupção e crimes de lesa-humanidade) por pouco mais de 42 mil votos, ou 0,25% num universo de 17 milhões de eleitores. No Parlamento, o Peruanos por el Cambio, partido de PPK, tem apenas 18 cadeiras, contra 71 do Fuerza Popular de Keiko.

O processo no Legislativo foi radicalmente acelerado e em apenas oito dias o Presidente teve de enfrentar um plenário que lhe era quase inteiramente desfavorável. Numa desesperada e arriscada tentativa para garantir a própria sobrevivência, um dia antes da votação PPK compareceu ao Parlamento e disse que se fosse cassado seus vices renunciariam, com o que a presidência cairia nas mãos do presidente da Câmara que pela legislação nacional teria de convocar de imediato uma nova eleição geral tanto para o Executivo quanto para o Legislativo. Frente à possibilidade de novamente se submeter às urnas, o bloco de esquerda mudou de posição (agressivamente queria o impeachment) e se ausentou do plenário. Até o irmão de Keiko, o jovem Kenji Fujimori,à última hora se negou a apoiar a desestabilização do país com o vazio que se seguiria à queda do presidente.

A acusação era de “incapacidade moral” para governar porque a empresa Westfield Capital que era de PPK na época em que ele era ministro no governo de Alejandro Toledo entre 2001 e 2006, teria recebido propina da Odebrecht.

Havia necessidade de 87 votos para a destituição de PPK e o resultado final apontou 79 votos pelo Sim, 19 pelo Não e 21 Abstenções, salvando o mandato de 1º mandatário peruano.

O baixo prestígio do Presidente perante as pesquisas de opinião não constituem qualquer novidade no Peru, onde basta o indivíduo ser eleito, governar alguns meses e pronto: todos começam a encontrar-lhe defeitos e se solidarizam com a oposição de qualquer espécie para criticar a infeliz criatura que, certa ou não, tenta governar. Com PPK não é diferente. Agora que ele não foi destituído, os parlamentares se põem a ameaçá-lo com a possibilidade de que “novas acusações possam surgir”, o que daria razão para novos pedidos de impeachment. E pedem que ele “mude sua maneira de governar”. O Peru não tem muito jeito. Historicamente se diz que o grande culpado (indireto) do caos eleitoral subsequente foi o famoso escritor Mario Vargas Llosa que conseguiu entregar uma eleição ganha (graças a suas propostas neoliberais, bem exploradas negativamente pelo adversário) para um japonês novato na política – Alberto Fujimori – que se tornou um trágico ditador por uma década. Ninguém perderia aquela eleição, em 1990, mas Llosa perdeu. Daí em diante, o Peru não mais se livrou do fujimorismo, apesar da condenação de Alberto, o chefe do clã. A família Fujimori continua assombrando o país e agora tem a maioria das cadeiras no Parlamento único do país, sob a liderança de Keiko que nos dois pleitos passados perdeu por escassas diferenças. Nesse ínterim três presidências desastrosas e em geral pouco competentes se sucederam, com Alejandro Toledo, Alan García e Ollanta Humala. “Ninguém merece os políticos que temos”, costumam dizer os eleitores que, apesar disso, continuam votando errado, principalmente por falta de melhores opções.

Entretanto, no dia de Natal os peruanos descobriram o preço pago por PPK para escapar. Para surpresa geral ele indultou Alberto Fujimori, alegando razões humanitárias. Fujimori agradeceu e fez um breve mea culpa. Nas últimas eleições, Keiko viu-se obrigada a jurar que nunca libertaria o pai, mas agora alcançou o objetivo maior da família ao negociar o apoio decisivo no Congresso salvando o desesperado Kuczynski. Em seguida a oposição correu para protestar nas ruas e 4 dos 18 deputados ainda governistas desertaram, mas nada garante que logo não retornem. Analistas independentes consideram que é assim que os políticos prosseguem em sua marcha para o inferno e é assim que a América Latina segue justificando sua fama de paraíso de ditadores e populistas da pior espécie.

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