Fim de ano num mundo estranho

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good and bad news mundo afora neste conturbado final de 2017. Comecemos pelas boas notícias. Em Bagdá o primeiro ministro iraquiano Haiden al-Badi declarou que está finda a guerra com o Estado Islâmico (EI), como resultado da expulsão do movimento terrorista de seu derradeiro reduto na cidade de Rakka. É o fim de três anos de uma guerra que parecia interminável e teria custado ao empobrecido e destruído país pelo menos 100 bilhões de dólares. O EI – ou, como é bom lembrar, Estado Islâmico do Iraque e do Levante – chegou a ocupar algumas das principais cidades iraquianas: Mosul, Ramadi, Fallujah. No entanto, al-Badi falhou ao não reconhecer o papel fundamental dos curdos na luta, especialmente no cerco e retomada da província petrolífera de Kirkuk.

Para surpresa geral, nas faldas do Himalaia o Nepal vive uma farra democrática. Seguindo-se à abolição da monarquia hindu (que durara 239 anos), em 2004, dois anos depois estourou outra guerra civil. Agora, nas primeiras eleições parlamentares desde 1999, dez dos quinze milhões de votantes habilitados foram às urnas para escolherem os ocupantes de 275 cadeiras na Câmara dos Representantes e 59 na Assembleia Nacional, ambos com poderes iguais para escolherem um Primeiro Ministro que realmente dirigirá o país e um Presidente da República. Foram criadas sete províncias, por ora conhecidas pelos números de 1 a 7. Um terço dos cargos nos três níveis de governo foi reservado para as mulheres, além de cotas para os dalits (sem-casta) e para os janajatis (indígenas). A vitória, por ampla maioria, coube a uma aliança entre os dois Partidos Comunistas: o PC do Nepal marxista-leninista e o PC do Nepal maoísta que correspondem à velha divisão entre soviéticos e chineses. Em 3º, distante, o Partido do Congresso Nepalês, liberal.

Agora, as más notícias. Donald Trump, com sua costumeira delicadeza mastodôntica, resolveu, nas palavras de Saeb Erekat, o negociador-chefe palestino do finado processo de paz, “jogar um míssil no Oriente Médio, formando uma onda de violência com imprevisíveis consequências”. A ONU, que considera Jerusalém oriental como área ocupada por Israel, está mais uma vez confusa, sem saber o que fazer. A resolução israelita de 1980 declarando toda Jerusalém como sua capital não foi aceita pelo direito internacional e até hoje nenhum país tem lá sua embaixada. Todos permanecem em Tel Aviv. Em abril deste ano a Rússia tornou-se uma exceção, ao reconhecer Jerusalém Ocidental como capital de Israel, mas dizendo que a parte oriental deve ser a futura capital de um estado palestino. Ai vivem 420 mil palestinos sem reconhecimento de cidadania que, juntos aos moradores da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, formam um povo de 5,8 milhões de pessoas insatisfeitas com o estado israelense (7,1 milhões de habitantes). Trump diz que, ainda, tentará fazer o possível para obter a paz na região. Autoridades e observadores externos na melhor das hipóteses consideram que os EUA devem ter uma estratégia para o Oriente Médio, mas ninguém descobriu qual é.

Mais adiante um pouco, a Arábia Saudita comporta-se cada vez mais como um estado militarizado interventor e absolutista, sem freios. Hoje bombardeia o Iêmen, bloqueia o Catar, luta no Líbano e odeia os xiitas iranianos. Os americanos no máximo pedem-lhes que se acalmem.

Para não dizer que a América Latina está calma (exceto pela Venezuela), o juiz federal Claudio Bonadio pediu a prisão da “ex-presidenta” Cristina Kirchner e decretou-lhe um embargo de 590  milhões de pesos por traição à pátria e encobrimento gravoso da participação iraniana no atentado à Associação Mutual Israelita Argentina, a AMIA que deixou 85 mortos e 300 feridos em junho de 1994. O caso foi investigado a fundo pelo procurador Alberto Nisman que às vésperas de apresentar seu relatório foi assassinado em casa em Buenos Aires. Cristina é acusada de ter feito um acordo com o governo iraniano que permitiu que os cinco envolvidos desse país fossem julgados em Teerã (e não pela justiça internacional que os procurava), o que obviamente nunca ocorreu. Cristina acaba de ser eleita senadora. A justiça pediu ao Senado que lhe revogue a imunidade para poder detê-la. Há um precedente: no caso de Julio de Vido, ex-ministro do Planejamento e acusado por corrupção ligada a obras públicas nos governos de Nestor e Cristina Kirchner, o Senado concordou e ele de imediato foi preso.

Enfim, 2017 se encerra com muitas tristezas e poucas desculpas, mas quem sabe em 2018 tudo melhora? (VGP)

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