Suicídio de um croata em Haia

O croata Slobodan Praljak aos 72 anos colocou, espetacularmente, fim à vida ingerindo veneno após ouvir sua sentença de condenação a 20 anos nos momentos finais da sessão do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) em Haia nessa 4a. feira, 29 de novembro. Fê-lo, após declarar que não é um criminoso de guerra e que rejeita a sentença. Encarando-o, o presidente e o vice do Tribunal, o maltês Carmel Agius e o chinês Liu Daqun, assistiram estupefatos ao suicídio sem qualquer reação possível.

Instituído pelo Conselho de Segurança da ONU em maio de 1993 , o TPII juga crimes de guerra e contra a humanidade ocorridos na Bósnia Herzegovina nos anos 1990. No comando Conselho Croata de Defesa da Bósnia, de fato Praljak era um general de 2a. linha se comparado às figuras de Radovan Karadjic (sentenciado a 40 anos) e o ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic que morreu de causas naturais na prisão.  As acusações contra ele e contra outros cinco que estão sendo julgados no mesmo caso (Jadranko Prlic, Bruno Stojic, Milovoj Petkovic, Valentin Coric e Berislav Pusic) se referem a atrocidades cometidas na Croácia e na Bósnia Herzegovina onde, segundo o Tribunal houve uma orgia infernal de perseguições étnicas, com milhares de civis mortos e feridos, torturados e sexualmente abusados em campos de detenção, quando não forçados a fugir . Dos 161 militantes que estão sendo julgados em Haia, 90 (desses, 9 morreram nas prisões holandesas) já foram sentenciados e cumprem pena.

O general croata Slobodan Praljic ingerindo veneno na sala de julgamento em Haia – 29/11/2017

O Porta-voz do tribunal, Vincent Veenman, informou que não é possível, ainda, dizer como o veneno entrou num edifício e numa sala de julgamento de altíssima segurança. Embora, em tese, qualquer um dos presentes pudesse ter passado o frasco plástico com cianureto de potássio para Praljak, somente os advogados tinham autorização para portar pastas de documentos. É um final patético para o TPII que em seguida encerrará as atividades em definitivo, com a marca do terceiro suicídio de presos sob sua direta responsabilidade. Os outros dois foram Slavko Dokmanovic em 1998, um sérvio-croata que assassinou mais de 200 civis em Vokovar e se enforcou na cela, e Milan Basic, 1º presidente da autoproclamada República da Sérvia-Krajina, encontrado morto num provável suicídio também na própria cela.

O futuro tanto do TPII quanto dos demais TPI, é cada vez mais improvável por várias razões. Uma é o encerramento de seus mandatos já ordenado pelo Conselho de Segurança; outra é a oposição dos países africanos que acusam o Tribunal de parcialismo contra os mais pobres, pois dos nove casos que julgam, oito se referem a países da África (RD do Congo, Uganda, Rep. Centro Africana, Sudão, Quênia, Líbia, Mali e Costa do Marfim): e por último o temor de interferências “indevidas” em relação às nações mais poderosas. O alerta veio com o mero recebimento preliminar de relatórios acusando a Rússia de ocupação do território ucraniano da Crimeia, e dos Estados Unidos por crimes de guerra no Afeganistão, incluindo torturas nas prisões secretas operadas pela CIA não só no período mais crítico de 2033/2004. A novidade trazida pelo caso da ex-Iugoslávia, cuja realidade de então já foi comparada à de campos de concentração nazistas da 2a. Guerras como Auschwitz, foi a responsabilização penal individual.

Em outubro último a primeira deserção formal aconteceu: Burundi, uma pequena ex-colonia alemã e depois belga, desligou-se do TPI para não ser julgado pelos massacres da etnia tutsi pelos hutus no país e na vizinha Ruanda vinte e três anos atrás.  Por um lado uma justiça independente internacional é cada vez mais relevante, mas por outro lado o extremo radicalismo de homens como Slobodan Praljak acentua barreiras difíceis de derrubar. Agora mesmo, o atual 1º ministro croata, Andrej Plenkovic, catalogou de “injustiça moral contra seis croatas da Bósnia e contra seu povo” o resultado do julgamento, para ele a causa mestra do suicídio na sala de audiências de Haia

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