Curdos não são os culpados

Oriente Mèdio e as pátrias curdas no Irã, Turquia, Iraque e Síria

Um texto, escrito por Hamid Dabashi e publicado na edição desta 2a. feira 27/11/2017 pela Al Jazeera sob o título “On the Kurdish question”, é fundamente esclarecedor da situação atual do povo curdo nos quatro países do Oriente Médio ultimamente envolvidos em intermináveis guerras – Irã, Iraque, Síria e Turquia. MUNDO SÉCULO XXI fz a tradução parcial do texto que em sua íntegra pode ser acessado em “www.aljazeera.com/indepth/opinion/kurdish-question-171030073038610.html”.

A intensificação do separatismo curdo no Iraque é um sintoma e não a causa para a gradativa desintegração dos mundos árabe e islâmico, diz Dakashi que é professor de Estudos Iranianos e Literatura no Centro Hagop Kevorkian (Arqueólogo inspirador do Centro em New York que leva seu nome e que se dedica à divulgação das tradições do Oriente Médio e à proteção de pessoas em risco de várias formas de opressão como racismo, xenofobia, islamofobia e de políticas governamentais punitivas da região) na Universidade de Colúmbia

On the Kurdish Question (Sobre a questão curda)

Quem pode culpar os curdos iraquianos por terem desejado estabelecer um estado separado e autônomo? Certamente, nenhum iraquiano que ainda se preocupa em lembrar a história assassina do genocídio de Anfal de Saddam Hussein e o massacre de Halabja da população curda, baseados em uma longa história de negação da sua identidade e por tentar arabizá-los.
Quem pode culpar os curdos no Irã se eles também desejarem unir forças com os seus irmãos curdos através da fronteira e com eles formar um novo país? Certamente, nenhum iraniano que recorda a matança dos curdos no início da revolução islâmica e, de fato, sua repressão sistemática antes disso – tudo enraizado, de fato, em uma história racista de “supremacia persa” que denigra a própria língua e a orgulhosa cultura orgulhosa do povo curdo.
Quem pode culpar os curdos na Turquia se eles também desejarem se unir aos curdos iraquianos e iranianos para formar um Estado-nação próprio? Certamente, não Recept Tayyip Erdogan e os defensores de sua linha de nacionalismo turco e de uma história inteira da perseguição da população curda, novamente tentando negar sua identidade ao chamá-los de “turcos da montanha”?
Quem pode culpar os curdos sírios se eles também desejarem se juntar a outros curdos e fugir da Síria? Certamente, nenhum sírio que ainda sofre nas garras do regime sangrento de Bashar al-Assad e conhece a longa e sofrida história de negação aos curdos de suas liberdades e direitos civis.
Quem pode culpar qualquer curdo em qualquer lugar do mundo árabe e muçulmano por exigir um estado próprio? Certamente, nenhuma administração americana que historicamente usou e abusou dos curdos para seus próprios objetivos imperiais e estratégicos, mais recentemente para derrotar o Estado islâmico do Iraque e o Levante (EI), e depois os abandonou à própria sorte quando se tratou de seus desejo de independência.

Perigos e promessas do nacionalismo curdo

A causa do separatismo curdo em qualquer país onde eles atualmente vivem é perfeitamente compreensível, mas não é, infelizmente, motivo de celebração em uma região já atormentada com o nacionalismo étnico de várias safras. A partição e o desmantelamento de quatro estados soberanos – Iraque, Síria, Turquia e Irã – para esculpir um Curdistão autônomo (para o deleite das colônias israelenses estabelecidas) é tão desastroso para a totalidade da região quanto para os curdos que permanecem dentro desses estados e é extremamente determinante em relação à uma eventual ressurreição de nações múltiplas, pluralistas, tolerantes e cosmopolitas.
Nenhum iraniano, turco ou árabe pode ou deve tentar culpar os curdos em relação à independência dos mesmos. Somente os próprios curdos podem pensar criticamente e tomar suas decisões. Eles precisam se perguntar se o nacionalismo étnico racial de seu próprio tipo é de fato uma resposta para o chauvinismo étnico racial calamitoso do qual eles estão, com toda justiça, fugindo.

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