Enfim, a queda de Mugabe*

“Nós aqui fizemos a guerra contra o império e o derrotamos. Foram anos duros, mas em 1980 tivemos eleições e elegemos Robert Mugabe como primeiro presidente e mudamos até o nome do país para Zimbabwe – A Grande Terra das Pedras. Nas ruas de Harare e Bulawayo os militantes do movimento revolucionário Zanu-PF marchavam sem descanso aos gritos de ‘Hondo! Hondo! Hondo!’: Guerra na língua shona” (trecho do livro ‘ZIM, uma aventura no sul da África’, de Vitor Gomes Pinto).

O problema é que Mugabe gostou do poder e transformou o Zimbabwe na mais duradoura ditadura africana – 37 anos até três dias atrás quando o principal líder militar, general Constantino Chiwenga, afinal deu o golpe e comunicou-lhe Mugabe que não era mais o presidente. A decisão foi tomada considerando a proximidade das novas eleições, quando o ditador que aparenta estar firme com suas bem vividas 93 primaveras, pretendia novamente candidatar-se. Além disso, em qualquer eventualidade assumiria sua esposa, Grace Mugabe, cada vez mais bela aos 52 anos de idade.

Como os Mugabe, enquanto o país se tornava um dos mais pobres do mundo, adquiriram diversas propriedades fora do país, rumores começaram a circular de que ela estaria na Namíbia ou na África do Sul e não no palácio de Blue Roof. A notícia, contudo, foi desmentida até mesmo por suas inimigas na alta sociedade local. “Ela não é mulher que abandone o marido em momento tão crítico”, dizem, lembrando que o casamento celebrado com grande pompa no longínquo 1.993 perdura intacto até hoje.

A razão imediata para que o Exército se decidisse a agir foi a demissão drástica e desmoralizante do vice e primeiro amigo do presidente, o também líder do Zanu PF (agora partido União Nacional Africana do Zimbabwe) Emmerson Mnangagwa, somente poucos anos mais “jovem” que Mugabe. Os dois foram companheiros de luta pela independência desde o começo dos anos 1970  e Mnangagwa – que sempre foi intimamente ligado aos militares – ocupou com regularidade os mais destacados cargos governamentais.

Para acrescentar um toque de aparente normalidade à quartelada, Mnangagwa, que em princípio deve assumir a presidência temporariamente, diz ter como aliado o eterno líder oposicionista Morgan Tsvangirai. Enquanto isso, o general Chiwenga informa que Mugabe está afastado, em sua casa, e participando das tratativas para a formação do governo de transição.

Aguarda-se agora o posicionamento da Comunidade de Desenvolvimento Sul-Africano, cujo Secretário Geral, o presidente da África do Sul Jacob Zuma, convocou uma reunião para a sede da organização em Botswana na 5a. feira 23 deste novembro, anunciando que se espera que a Junta militar emposse um presidente tampão e providencie para logo novas eleições.

A situação geral permanece calma, com apenas uns poucos tanques e tropas circulando. O povo de nada participa. Caso negociadores internacionais forcem alguma solução que resulte num regime teoricamente democrático, este seria uma enorme e surpreendente novidade para os zimbabuanos.

*: Leia neste Site o texto “Zim e o diretor da OMS” – http://mundoseculoxxi.com.br/2017/10/28/zimbabwe-e-o-diretor-da-oms/

Robert e Grace Mugabe em Harare, Zimbabwe – novembro de 2017.

 

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