Zimbabwe e o diretor da OMS

Zimbabwe de Robert Mugabe: Nota de cem trilhões de dólares
Tedros Adhanom Gebreyesus, Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde a partir de 1º/7/2017

Quando, no já distante ano de 2002, fui ao Zimbabwe, Robert Mugabe tinha 78 anos e era o presidente há 22. Estava em pleno processo de expulsão dos brancos, entregando cargos, empregos e principalmente as terras aos negros que comandava desde a chefia de seu partido, o Zanu PF com o qual fizera a revolução e a independência do país. Então, escrevi “ZIM, uma aventura no sul da África”, livro que mantém por inteiro sua atualidade.

O tempo passou e Mugabe, hoje aos 93 anos, ainda é o 1º mandatário. Nada o atinge. Em meio ao caos econômico e social em 2005 o país imprimiu notas de 1 trilhão, quando um dólar americano valia 35 quatrilhões na moeda nacional de então, o dólar zimbabuano. Aos poucos o país se transformou num pária internacional, mas ancorado por uma oposição inviável e protegido pelos chineses.

Enquanto isso, na Organização Mundial da Saúde – OMS – este ano aconteceram eleições para o posto de Diretor Geral. Entre os cinco concorrentes finais, o britânico David Nabarro, apesar de sua indiscutível competência, pagou o preço cobrado pelo Brexit e terminou derrotado pelo etíope Tedros Gebreyesus, um candidato fortemente sustentado pela União Africana com apoio da América Latina, incluindo o Brasil. Ele venceu apesar de seu lamentável currículo em direitos humanos como ministro das Relações Exteriores. A etnia tigray, à qual pertence, é uma elite que reúne 6% da população e discrimina e reprime cruelmente a oromos e abissínios que são mais de 70% dos etíopes.

Esta semana em Montevidéu, na Conferência Global em Doenças Não Transmissíveis (como doenças cardíacas, cânceres), o novo Diretor da OMS começou a pagar a fatura eleitoral, surpreendentemente anunciando que a Organização estava nomeando o presidente Robert Mugabe como seu Goodwill Embassador (Embaixador de Boa Vontade), posição que lhe confere a missão de viabilizar, p.ex., a meta de reduzir com prevenção e tratamento 1/3 da mortalidade prematura no mundo por doenças não transmissíveis.

Diante de uma plateia que não acreditava no que estava ouvindo, ainda afirmou que agradecia ao Zimbabwe por ser um país que colocou a “Cobertura Universal em Saúde (UHC, o carro-chefe nas políticas da Organização) no centro de suas políticas para proporcionar saúde para todos”. A declaração omite fatos de conhecimento geral, como a destruição do sistema de saúde do Zimbabwe durante o governo de Mugabe que provocou massivo êxodo dos seus médicos. Comentando a notícia, o ex-Ministro das Finanças Tendai Biti, lembrou que seu país tem o recorde negativo de 1 médico para cada 100.000 habitantes, “Um dos nossos maiores hospitais não tem água corrente e os pacientes são forçados a trazer potes de água de casa. O mundo inteiro sabe o que Mugabe fez com a atenção à saúde neste grande país. Não se pode levar uma instituição (OMS) como esta a sério”, completou Biti.

Assustado com a péssima repercussão de suas palavras, o Dr. Tedros disse que ouviu as considerações contrárias feitas e irá reavaliar a decisão em nome dos valores da OMS. Sem recuar de pronto, fez uma declaração burocrática: “Emitirei um parecer tão logo seja possível”. Até aqui, a Organização sempre escolheu como embaixadores de boa vontade a personalidades de alto nível a fim de chamar a atenção para um determinado problema de saúde e facilitar o seu combate.

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