CHECOS ELEGEM UM NOVO TRUMP

Os sonhos da revolução de veludo que no final de 1989 em Praga levou o poeta, escritor e dramaturgo Vaclav Havel ao poder em substituição aos quarenta anos de regime soviético, esvaneceram-se no tempo e o povo checo, esquecido de tudo, achou por bem eleger um magnata, misto de Berlusconi e Donald Trump, entregando o país à Aliança dos Cidadãos Descontentes, ANO (sigla que significa Sim) de Andrej Babis. O Partido, desde que foi criado em 2011, aproveitou-se do profundo sentimento de decepção do povo com os políticos tradicionais, à época (como hoje) envolvidos em uma série de casos de corrupção. Babis, o segundo homem mais rico da nação, tornou-se Ministro da Economia para ser demitido em maio deste ano por acusações de fraudes e evasão fiscal (que não diminuíram seu prestígio popular). Dono de um conglomerado que inclui a principal empresa agrícola e de produtos químicos do país, a Agrofertil, recentemente adquiriu dois grandes jornais, três emissoras de TV e duas estações de rádio, orgulhando-se de ser um homem que se fez na vida por si mesmo. Nada menos que 31 agremiações políticas concorreram nas eleições legislativas deste mês e o ANO venceu com folga mesmo tendo obtido somente 29% dos votos, o que lhe permitiu eleger 78 deputados de um total de 200. Do 2º (os Democratas Cívicos com 11,5 dos votos) ao 9º colocado uma salada de oito partidos de todas as tendências acumulou 64% dos votos, obrigando o vencedor a negociações para formar um governo de coalizão.

Novo 1º Ministro checo, de mangas arregaçadas, querendo imitar Donald Trump

Analistas dizem que no espectro político nacional não há mais esquerda e direita. O pleito de agora discutiu apenas dois temas: o medo e Babis. O medo, incutido pelos políticos, é dos imigrantes, do terrorismo (ambos inexistentes no país) e do islamismo. A União Europeia (UE) está sancionando a República Checa por esta negar-se a aceitar refugiados ajudando a diminuir a pressão sobre Grécia e Itália. Com uma cota de 1.600 exilados, Praga recebeu até hoje 12. A Europa Central é uma pedra no sapato da UE, pela crescente influência neo-fascista. Este ano França, Holanda e Áustria os derrotaram, mas a ultradireita é governo na Hungria de Viktor Orbán e na Polônia de Andres Duda e Beata Szdylo que, na prática, acabam de receber o reforço de Andrej Babis cujos discursos incendiários foram de ódio aos emigrantes, à adoção do Euro, à União Europeia, à corrupção de seus adversários e ao islamismo, além de opor-se ao Kosovo como país independente (mas apoia a rebelião da Catalunha) e defender a anexação da Crimeia pela Rússia.

A estrutura profunda do poder na República Checa de fato não mudou. Babis e seu grupo que pertenceram ao Partido Comunista na década dos anos 80, reciclaram-se para o centro e ficaram ricos. Com o fim da Tcheco Eslováquia, criaram-se em 1993 dois países: a Rep.Checa com 79 mil km2 (menos que o dobro do estado do Rio de Janeiro) e 10,5 milhões de habitantes e a Eslováquia, bem menor (49 mil km2 e 5,5 milhões de habitantes). Já a pequenina Eslovênia ganhou sua independência dois anos antes. Hoje a região é tranquila e cidades como Praga, Bratislava e Ljubijana são famosos e belos pontos turísticos para os europeus. Seus povos querem seguir assim, enquanto os refugiados do leste preferem a Alemanha e a Áustria como seu destino final. (VGP)

 

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