Ruanda: um presidente por 40 anos

Paul Kagame acaba de ser reeleito presidente de Ruanda com 98,63% dos votos em uma eleição na qual votaram 6,7 milhões de ruandeses. O país tem 12 milhões de habitantes com um território pouco maior do que Sergipe (o menor dos estados brasileiros) e se considera uma democracia por ter 11 partidos políticos e 12 emissoras de TVs que, na prática, apoiam o governo e só divulgam suas notícias. Um dos dois adversários na eleição da semana passada, Frank Habineza do Partido Verde, num evidente exagero declarou que se fosse uma eleição livre e confiável ele teria 70% dos votos (na realidade só 0,47% optaram por ele). Dois anos atrás um referendo nacional mudou a Constituição que estabelecia não mais de dois mandatos, permitindo um 3º de sete anos, mais um 4º e um 5º de cinco anos cada, ou seja, criando a possibilidade de que o atual governo se estenda até 2034. Como Paul Kagame é quem de fato manda desde 1994 (embora eleito presidente só em 2000) quando, liderando a Frente Patriótica Ruandesa (FPR) ocupou militarmente o país, no total está autorizado a manter-se no cargo por 40 anos ininterruptos. Nada indica que, então aos 77 anos de idade, desistirá por conta própria ou decidirá seguir o exemplo de Robert Mugabe que aos 93 anos ainda comanda o Zimbabwe.

País insular situado na África Central, banhado pelas águas do lago Kivu e a poucos quilômetros do imenso lago Victoria, Ruanda – a terra dos grandes gorilas – tem fronteiras com Tanzânia, Uganda, Burundi e República Democrática do Congo (RDC). No período colonial, primeiramente em 1884 o país tornou-se protetorado da Alemanha que ao priorizar extensas plantações de café e chá apoiou o regime monárquico existente, consolidando as divisões internas baseadas em três grupos étnicos bem distintos e facilmente identificáveis: Tutsis 14% da população (um dos povos de maior estatura na Terra, junto com os Dinkas do Sudão do Sul, são magros com nariz aquilino, pescoço longo, pele mais clara e cabelos mais lisos, em geral a classe dirigente), Hutus 85% (estatura mediana, atarracados, nariz largo e grande, pescoço curto, pele escura, voz grave, trabalhadores braçais) e Twas 1% (pigmeus, vivem nas florestas). Após a 1ª. Guerra a Liga das Nações concedeu à Bélgica mandato sobre Ruanda e Urundi (hoje Burundi) que passaram a produzir níquel e urânio para alimentar as nascentes bombas atômicas.

Paul Kagame e sua filha no centro, com Barack e Michelle Obama, ( dd4cdfa72b783734a494f2329f35126c-paul-kagame-first-ladies.jpg)

Rei tutsi Kigere V de Ruanda, quando no exílio nos EUA

Violentas tensões interétnicas explodiram logo depois da independência de Ruanda e sua separação do Burundi em 1962. Os Hutus tomaram o governo e depuseram o a Kigere V, o último Kwami (rei) de Ruanda que assistia a reunião da ONU no vizinho Congo e acabou se asilando nos Estados Unidos, em Oakton, Virginia, onde morreu em paz em 2016 aos 80 anos. Em 1990 um ataque dos Tutsis da FPR desde Uganda desatou a guerra civil tentando derrubar o governo Hutu do presidente Juvènal Habyarimana que a essa altura contava com o apoio do governo francês de François Mitterrand.  Afinal, em 6 de abril de 1994, um foguete lançado de terra já próximo à capital Kigali estraçalhou o avião em que viajavam os presidentes hutus de Ruanda e do Burundi.  O assassinato nunca teve seus autores conhecidos, mas no dia seguinte a Rádio Libres des Milles Collines do governo hutu lançou um chamado atribuindo o ataque à FPR e incitando o povo a eliminar “as baratas tutsis”. Nos 100 dias seguintes aconteceu o genocídio ruandês que matou, segundo cálculos atuais, 1.074.017 ruandeses: tutsis em sua grande maioria e hutus moderados. Muitos tutsis tiveram suas pernas decepadas com machetes à altura da canela para diminuir-lhes a altura e a empáfia. As forças belgas haviam se retirado e o pessoal da Unamir, missão de paz da ONU, fora reduzido drasticamente. Só então a ONU autorizou a entrada de um contingente francês e por fim em 3 de julho de 1994 a FPR comandada por Paul Kagame invadiu e ocupou todo o país. Temerosos de serem justiçados, milicianos e quase dois milhões de hutus fugiram para se refugiarem na RDC, então Zaire. Com as ofensivas ao novo governo prosseguindo, menos de dois anos depois os dois vizinhos entraram em guerra, exigindo nova intervenção da ONU.

Hoje o PIB per capita de Ruanda é o 175º do mundo num total de 194 nações, mas desde 2003 cresce a uma média de 8% ao ano e projeta tornar-se um líder regional em tecnologias de comunicação. Ainda 39% da população tenta sobreviver abaixo da linha de pobreza, mas dez anos atrás eram 57%. Tem paz e estabilidade, mas não democracia dizem os críticos de Paul Kagame, acusando seu governo de perseguir adversários e controlar a mídia, governando de maneira autocrática e interminável. Pela atual Constituição e no discurso do presidente agora não há mais hutus nem tutsis ou twas, somente ruandeses. Será possível revogar etnias?

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