A França de Macron e a maldição de Houellebecq

O segundo turno das eleições legislativas francesas em 18 de junho de 2017 teve o mais baixo comparecimento de eleitores desde a fundação da 5ª. República 59 anos atrás: apenas 42% concordaram em sair de casa para votar num domingo ensolarado com 30 graus à sombra nesse começo de verão europeu. Talvez a comemoração do Dia dos Pais tenha contribuído para reduzir ainda mais o humor cívico dos gauleses ou, então, a perspectiva de eleger deputados de um Partido criado em abril do ano passado – o En Marche de Emmanuel Macron, o jovem (39 anos) e inexperiente novo presidente – pareceu demais para a maioria.

O triunfo dos “marchadores” foi arrasador. Elegeram 308 parlamentares, enquanto a direita com os tradicionais republicanos ficou com 113 deputados e a velha esquerda do Partido Socialista com ridículos 29 representantes, embora ainda superando a ultradireitista Frente Nacional de Marine Le Pen que elegeu 8 deputados.

A Assembleia Nacional para o próximo quinquênio ficou assim constituída:

Governo, de centro: 350 cadeiras (Em Marcha + Movimento Democrático) = 60,6%

Direita: 144 cadeiras (Republicanos, União Dem. Indep-UDI, Fr. Nacional) – 25,0%

Esquerda: 68 cadeiras (Socialistas, Comunistas, Insubmissos, outros) = 11,8%

Diversos: 15 cadeiras =  2,6 %

Como se tornou possível uma guinada tão radical e de tão curto prazo? E será esse um exemplo que logo será seguido por outras nações nas quais reina a mesma descrença na política tradicional?

Em um livro ficcional (“Submissão”, publicado no Brasil pelo selo Alfaguara) que está sendo muito consumido no seu país, o conhecido pensador francês Michel Houellebecq faz elucubrações potencialmente assustadoras para a política gaulesa. Pegando carona no sentimento global de rejeição aos esquemas tradicionais de fazer política, o autor descreve uma progressiva radicalização que leva à eleição, já em 2022, de um presidente muçulmano, derrotando no segundo turno à favorita Marine Le Pen que seria a única sobrevivente no descalabro que atingiria os partidos Socialista e Republicano.

O novo regime, comandado por uma suposta “Fraternidade Muçulmana” gradativa e rapidamente impõe suas normas e costumes. O problema do desemprego é logo resolvido com a demissão de todas as mulheres, que seguem recebendo salários desde que fiquem em casa, pois a família é a célula fundamental da sociedade. Num sistema de patriarcado e de poligamia cada homem, segundo Alá, tem direito a até quatro esposas. A frequência à escola é obrigatória e sem custos até os 12 anos. Dai em diante, estudos secundários e superiores ficam a cargo do setor privado, mas os institutos de ensino muçulmano são abertos a todos e gratuitos, pois o apoio financeiro dos sauditas é ilimitado. Os professores recebem aposentadoria compulsória, mas podem seguir ensinando se convertidos à fé muçulmana.

Numa recepção de alto nível no Instituto do Mundo Árabe, o professor François (o herói do livro), após 4 taças de excelente vinho acha que alguma coisa está errada e logo descobre o que é: só havia homens, nenhuma mulher fora convidada. A riqueza passa a ser dividida de forma desigual, com a massa vivendo numa pobreza decente e uma ínfima minoria de indivíduos faustosamente bilionários que garantem a sobrevivência do luxo e das artes. A submissão compulsória das mulheres acaba não sendo um problema, acontecendo de forma quase “natural”, como se não participar da sociedade fosse uma vantagem. Ao final François se converte na Grande Mesquita de Paris, pronunciando as palavras “Ash-hadu anna la ilála alláh, wa ash-hadu muhammadan rasul Alláh”, ou seja, “Testemunho que não há divindade senão Alá (Deus), e que Maomé é o enviado de Alá”. Feito, tornara-se um muçulmano.

A obra de Houellebeck é imperdível e funciona como um alerta nos confusos tempos em que vivemos, quando qualquer caminho pode tornar-se possível, mesmo que ninguém saiba para onde nos conduzirá.

Mulheres: sauditas ou francesas?

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