5. Seis séculos sob o Império Otomano (5º texto da Série “Bálcãs: um Debate Atual”)

Para compreender os Bálcãs atuais é essencial fazer um recuo de 665 anos na história, até 1.352 quando o Império Otomano (IO) ocupa a Bulgária e pouco depois faz o mesmo na Sérvia na Batalha de Maritsa, iniciando uma fase de domínio absoluto que perdurou ao longo de quase seis séculos. Maria Todorova, autora de Imagine the Balkans, diz que  há um legado otomano que é perceptível ainda hoje em cada detalhe da vida balcânica, nos gestos, na cultura, nos costumes, na cozinha e não há como fugir de algumas de suas marcas mais negativas: o patriarcado, a corrupção, a economia subterrânea, a prática da barganha.

A chegada arrasadora dos otomanos aos Bálcãs ainda é lembrada como algo real pelos sérvios. Em 1389 lutam junto com os croatas na Batalha de Kosovo. O sultão turco Murad e o rei sérvio Lazar morrem no conflito, dando origem a histórias, canções populares e lendas épicas que transformaram o Kosovo no coração da raça sérvia (dai a negativa radical, ainda em 2017, de Belgrado em reconhecer a independência de seu ex-território). Conquistando primeiro os Balcãs, só em 1453 os invasores dominaram Constantinopla (então uma cidade grega). O domínio turco sobre os povos eslavos do sul perdura, conforme a área, de quatro a cinco séculos. Em seu apogeu no Século XVI durante o reinado de Suleiman I, os turcos são barrados apenas às portas de Viena apesar de sitiá-la por duas vezes (em 1529 e 1683). O IO, então, estendia-se do Golfo Pérsico ao rio Danúbio com uma população de pelo menos 30 milhões de pessoas, numa época em que não mais de 4 milhões viviam na Inglaterra. Sob intensa pressão formou-se o Império dos Habsburgos no início dos anos 1500 e a partir dai os Bálcãs convivem como vassalos ou dos otomanos ou dos austríacos e alemães. Assim, Belgrado na Sérvia esteve sempre sob o domínio turco, mas Zagreb na Croácia jamais caiu. Essencialmente constituído por hordas de guerreiros, o IO cresceu invadindo novas terras, escravizando os povos conquistados, apoderando-se das terras e cobrando impostos para fortalecer sua economia. Mais tarde, já no século XVII, as conquistas cederam espaço para as derrotas forçando a retirada gradativa e retirando a própria razão de sobrevivência do Império. Na afirmativa de Fromkin, os turcos dominaram as artes da guerra, mas não as do governo.

Batalha do Kosovo, 1389 (from: Britain Encyclopaedia)

Os osmandis (otomanos), embora tenham convertido algumas igrejas em mesquitas não impediram a prática religiosa  mesmo aos cristãos, contribuindo para fortalecer identidades nacionais com base nas crenças (e não necessariamente nos territórios). Sendo uma teocracia muçulmana, todo o poder cabia ao sultão que era considerado o califa (ou seja, o sucessor espiritual de Maomé) pelo ramo numericamente mais importante dentro do Islã, os sunitas que se impunham aos xiítas e a pelo menos outras setenta denominações ou seitas. No entanto, cerca de um quarto dos súditos era composto por uma mescla não uniforme de gregos ortodoxos, católicos romanos e armênios, gregorianos, judeus, protestantes, maronitas, samaritanos, ortodoxos sírios, monofisitas, nestorianos, etc., todos divididos pela religião. Ainda que o poder absoluto coubesse ao sultão, o verdadeiro poder era das unidades políticas locais: a tribo, a seita ou mesmo da cidade.

Constantinopla (antes Nova Roma e Bizâncio, hoje Istambul) foi a capital do Império Romano no Oriente durante onze séculos e depois do IO por mais de cinco séculos. Tinha 1 milhão de residentes em 1914. À medida em que o IO começa a enfraquecer, cresce e se torna mais rígida a opressão sobre os povos dominados, exigindo a presença direta do dominador. Assim, turcos se instalaram na condição de classe dominante – administradores, proprietários, artesãos, soldados, ministros religiosos – principalmente em todo o leste balcânico, na Bulgária, Trácia, Macedônia, Sérvia, onde muitos vivem até hoje. Os “infiéis” cristãos podiam até gozar de relativa autonomia, mas de nenhum direito efetivo. As terras e as riquezas pertenciam ao estado turco e, logicamente, aos seus cidadãos que exerciam a autoridade absoluta (na justiça, o testemunho de um cristão contra um muçulmano não era admitido).

Exércitos de janízaros

Uma prática comum era a escravização de crianças.  O sultão Murad I, nos últimos anos do século XIV, quando o IO se movia para os Bálcãs, criou o Corpo de Janízaros, uma guarda de escravos que se tornou, segundo a descrição de Alan Palmer, o primeiro exército regular da Europa de então. Com o devsirme, um imposto específico para tal fim, surgiu a fonte de recursos para sustentar e desenvolver o Corpo. A cada cinco anos as famílias cristãs deviam informar aos administradores osmandis locais a quantidade de filhos da família e um de cada cinco, geralmente com 6 ou 7 anos, era levado para se tornar muçulmano e soldado. Alguns chegaram oficiais ou a grão-vizires. Foram os janízaros que, em 1453, definiram a tomada de Bizâncio. Gradativamente, espalharam-se pelo Império ganhando poder e influência até se tornarem uma ameaça para o regime. Mas foi só em 1826 que, ao se sentirem suficientemente fortes para, numa revolta, assumirem o poder em Istambul, que finalmente convenceram o sultão Mahmud a livrar-se deles. Os quarteis onde estavam reunidos foram bombardeados implacavelmente e os que não morreram nos trinta minutos de fogo foram capturados e executados numa noite infernal em que se eliminaram os emblemas, bandeiras e derradeiros vestígios dos janízaros. Fora da capital, nas províncias, os agrupamentos locais se renderam até que um decreto oficial de 17 de junho aboliu o Corpo de Janízaros. A simples menção ao seu nome passou a equivaler a uma sentença de morte, mas o debilitamento gradativo do IO tornou-se irreversível.

O fim do Império

Depois das guerras dos Bálcãs em 1912/13, quando Bulgária, Grécia, Sérvia e Montenegro uniram forças para escorraçar os turcos da Europa – afinal após quase sete séculos – a I Guerra Mundial teve como consequência o fim dos Impérios Otomano, Austro-Húngaro, Russo e Alemão. A I Guerra resultou de um acirramento extremo das tensões nos Bálcãs, começando pelo assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do Império Austro-Húngaro, em Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina, em 28/6/1914, pelo ativista sérvio Gavrilo Princip. Um mês depois, não obstante a comprovação de que o governo sérvio nada tivera a ver com o atentado em si, a Áustria declarou-lhe guerra. O que, até então, configuarva-se como mais um conflito regional, em uma semana tornou-se uma guerra europeia confrontando de um lado is Impérios Centrais com Alemanha, Áustria, Hungria, otomanos e búlgaros e, de outro lado, os Aliados com Sérvia, Romênia, Inglaterra, França, Itália, Rússia, Bélgica e, mais tarde, Estados Unidos.

Com o esfacelamento do Império Otomano (em cerca de 40 nações) em 1918 surge a Iugoslávia da união entre Sérvia, Croácia e Eslovênia e se consolida a existência da Turquia com o Tratado de Lausanne de 1923. Por decisão da Assembleia Nacional da Turquia em novembro de 22, o último sultão otomano, Mehmed VI, exilou-se por conta própria em San Remo, na Riviera italiana, onde desfrutou em paz de sua fortuna até falecer, em 15 de maio de 1926, aos 65 anos de idade.

Bibliografia consultada:

Fronkin, David – Paz e guerra no Oriente Médio. Contraponto, Rio de Janeiro, 2008. 683p.

Gilbert, Martin – A história do Século XX. Crítica, Sao Paulo, 2016. 830p.

Palmer, Alan – Declínio e queda do Império Otomano. Globo Livros, São Paulo, 2013. 317p.

Studia Croatica – Imperios Otomano y Austriaco, Croacia y los Balcanes: herencias culturales. IN: http://www.studiacroatica.org/glavic/glavic027.htm

Todorova, Maria – Imagining the Balcans. Oxford Univ. Press, 1997.

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