Mais Médicos com menos cubanos

Em sua edição de 1º de abril a revista Veja publicou uma reportagem intitulada “Mais Médicos: o tempo da sensatez” na qual, ao invés da crítica que fazia desde o lançamento do programa pela presidente Dilma em agosto de 2013, justificou sua nova posição com o argumento de que “ele funciona”. Pelo mesmo raciocínio e, também, pela impossibilidade de convencer os médicos brasileiros a prestarem serviços nos cafundós de 4.058 municípios e em 34 distritos indígenas, o governo de Michel Temer estendeu a validade do programa por mais 3 anos e aumentou em 9% a remuneração mensal de cada profissional que desde janeiro é de R$ 11.520,00. Pelo método de rateio adotado em contrato, desse salário R$ 576,00 (5%) cabem à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) como taxa de administração; R$ 8.284,00 (72%) vão direto para o governo cubano como uma espécie de mais-valia e os restantes R$ 2.649,00 (23%) são pagos ao médico que presta os serviços. Há um subsídio adicional de R$ 2.750,00 para quem atua nas áreas indígenas. Médicos brasileiros e de outras nacionalidades que exercem as mesmas funções recebem o salário integral, numa situação de desigualdade que pode ocasionar problemas.

Hoje, segundo o Ministério da Saúde, 10.400 médicos cubanos estão no Brasil (eram 11.400 a um ano). Até março de 2017, nos 45 meses de duração do programa, para financiá-lo o governo federal brasileiro despendeu um total aproximado de 5 bilhões de reais, cerca de 1,6 bilhão de dólares pelo câmbio atual. A população atendida defende o Mais Médicos porque afinal tem quem lhe preste assistência de qualidade praticamente em tempo integral. Os prefeitos e os governadores igualmente o defendem, pela economia que lhes traz. De acordo com o Ministro da Saúde Ricardo Barros, gradativamente profissionais brasileiros deverão substituir os estrangeiros no Mais Médicos.

Cuba, que tradicionalmente envia seus profissionais para países pobres e ideologicamente compatíveis com seu sistema político, de alguns anos para cá passou também a considerá-los (principalmente nos casos do Brasil, Equador e Venezuela) como uma fonte fundamental de divisas.

As convivências, no entanto, não são pacíficas. Oposto ao governo Temer, ao qual qualifica como golpista, Cuba acaba de comunicar que a vinda de 710 novos médicos, cuja chegada estava prevista para este mês de abril, está suspensa. O motivo: após 3 anos aqui, alguns dos esculápios pretendem ficar como é o caso de 88 que entraram na justiça para não retornar a Cuba e manter seus empregos. O temor de Havana é que a ideia “contamine” a outros colegas no Brasil e em países vizinhos.

A crise venezuelana não poupa ninguém e ameaça a continuidade da “Misión Bairro Adentro” criado por Fidel Castro como um apoio a Hugo Chávez. Jornais colombianos revelam que centenas de médicos cubanos fogem da Venezuela, alguns disfarçados de mendigos para cruzar a fronteira, e chegam a Bogotá em busca de um visto para os Estados Unidos, mas o programa Parole que os concedia foi desativado por Obama logo após o reatamento de relações com o regime de Raúl Castro, deixando-os num limbo jurídico sem poderem voltar atrás. Há poucos dias um pequeno grupo conseguiu viajar para a Flórida graças ao apoio do Centro Rosa Luxemburgo da Organização Solidaridad Sin Fronteras (sede em Leganés, Espanha) ou de entidades religiosas de ajuda a migrantes. No Equador, na Bolívia e na Nicarágua os médicos cubanos seguem trabalhando com baixos níveis de deserção.

Médicos cubanos no Distrito Federal atendendo pacientes e indo a visita domiciliar (imagem UNB – exposição – Brasília, 3/2017)

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