Trump perde e Obamacare resiste

Com menos de cem dias na presidência, Donald Trump não para de dizer e fazer asneiras. Não é surpresa que, por um lado, as resistências aumentem e, por outro lado, que a perda de confiança dos que o apoiaram diminua. No grito não é sempre que se ganha, como o comprova a absurda derrota sofrida esta semana no Capitol Hill, a famosa sede do Congresso norte-americano, onde apesar da folgada maioria dos republicanos na House of Representatives (a Câmara dos Deputados) o Executivo viu-se forçado a retirar de pauta o projeto da Lei de Cuidados de Saúde – a Trumpcare. A derrota dos governistas tornou-se inevitável quando nada menos que 33 deputados, todos republicanos, negaram-se a apoiar a proposta, o que é surpreendente considerando que haviam passado os últimos sete anos (quando eram minoria) tentando derrubar o Obamacare que, em essência, sobretaxava os mais ricos para expandir a cobertura para os mais pobres.

Curiosamente, dos 33 a maior parte é de ultradireita: 15 parlamentares pertencentes à linha dura do partido achando que a proposta em votação era muito suave. Outros 10 são moderados que já vêm criticando o governo e 8 alegaram diferentes razões. De nada valeu a blitz desfechada pelo vice-presidente Mark Pence e pelo Secretário da Saúde (equivale a ministro) Tom Price que passaram as vésperas da votação pressionando seus colegas republicanos. Até parece o Congresso brasileiro. Por fim, o presidente da Câmara, Paul Ryan, outro grande derrotado, declarou que o assunto não tem como voltar ao plenário num futuro previsível.

A reforma proposta por Trump para o setor saúde resultaria num desastre. Um texto recentemente publicado pelo The New York Times – The fake freedom of American health care (A enganosa liberdade de escolha do sistema americano de saúde) – sugere que o país adote um regime de cuidados universais promovidos pelo Estado como ocorre na Finlândia e não pela iniciativa privada. O plano de saúde proposto pelos republicanos aumentaria em 24 milhões o número de pessoas sem seguro de saúde na próxima década. Isto é que motivou a resistência dos deputados, que preferiram respeitar seus eleitores (terão de renovar seus mandatos nas eleições já no ano que vem) e não a Donald Trump com suas loucuras.

A exemplo do que acontece no Brasil, os clientes dos Planos de Saúde são escravos de esquemas confusos com mensalidades de preços exorbitantes, redes exclusivas e limitadas de prestadores de serviços médicos, exames e testes complementares em boa parte desnecessários, num sistema no qual as decisões quase sempre são tomadas pelas seguradoras, pelos médicos, pelos empregadores, pelas companhias farmacêuticas e nunca pelo consumidor que, afinal, é quem paga a conta.

O dinheiro que seria economizado na saúde somar-se-ia a outras restrições em gastos internos e ajuda internacional para custear um impressionante aumento de 54 bilhões de dólares ou 9% a mais no orçamento militar, pois Trump acha que as Forças Armadas americanas estão em decadência por falta de recursos, embora o país seja o que mais gasta em armamentos no mundo todo. Os 54 bi adicionais agora propostos superam todo o orçamento militar do Reino Unido ou quase duas vezes acima dos dispêndios do Brasil nessa área. Na última década é o maior aumento já proposto para os gastos militares do país. Resta saber em que guerra e contra quem todo este dinheiro será aplicado. (VGP)

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