O aborto provocado e as guerrilhas colombianas

Detido em Madri em 14 de dezembro do ano passado, Héctor Albeiris Arboleda acaba de ser extraditado em tempo recorde para a Colômbia onde responderá por acusações de ter submetido mais de 300 mulheres a abortos forçados sem possuir qualquer capacitação formal para tanto. Conhecido como “El Enfermero”, Arboleda teve como “pacientes” – principalmente no período 1998 a 2004 em Antioquia, Chocó e no eixo cafeteiro de Risaralda e Caldas – a guerrilheiras colombianas das Farc, do ELN (Exército de Liberação Nacional) e do ERG (Exército Revolucionário Guevarista, uma dissidência do ELN que se desmobilizou em 2008).

Pelos relatos já feitos por muitas das suas vítimas, apenas as companheiras dos chefes podiam, caso quisessem, ter filhos após engravidar em meio à guerrilha nas selvas da Colômbia. Para todas as demais a interrupção forçada da gravidez era uma política estabelecida e, na prática, aceita tanto pelas mulheres quanto pelos homens combatentes. Iván Márquez, falando pelas Farc em Havana, disse que Arboleda não fazia parte do movimento. Francy María Ortega, codinome Erika Montenegro, única mulher pertencente ao Estado Maior das Farc, declarou ao site “Verdad abierta.com” que os abortos nas Farc não eram forçados e sim desejados.

Héctor Arboleda, El Enfermero, ao chegar em Bogotá extraditado pela Espanha

Não há dúvida, entretanto, que “El Enfermero” era figura conhecida e quase sempre presente antes e após os atentados e enfrentamentos com tropas do governo, prestando atendimento a feridos e capacitando grupos de combatentes em primeiros socorros e “planejamento familiar”. Uma guerrilheira declarou ao jornal El Expectador de Bogotá que, sem mais poder esconder uma barriga já de sete meses, pediu ao chefe do comando em que militava para ter a criança, mas ele a encaminhou a Arboleda que a essas alturas mantinha uma “Clínica” num bairro de Risaralda, onde ocorreu o aborto e o feto, como todos os demais, foi descartado. A indução da interrupção da gravidez era normalmente feita com o uso de cytotec, marca popular do misoprostol, com 4 comprimidos iniciais seguidos de 2 comprimidos a cada 4 horas até que o resultado esperado se concretizasse.

Homossexual assumido, Héctor fugiu para a Espanha onde casou com um espanhol, motivo alegado na tentativa de evitar sua deportação. Com 41 anos de idade, declarou, ainda, ser portador de grave doença, mas nada disso impediu sua entrega à “Fiscalia” da justiça colombiana que tomou suas digitais, fez o exame médico inicial e o encaminhou ao cárcere onde era esperado desde o pedido de prisão feito em abril do ano passado.   

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