Mulheres de conforto só para japoneses

Depois de dois séculos e meio de autoimposto isolamento, a dinastia Meiji no final do século XIX fortaleceu-se e deu início à fase de expansão do imperialismo japonês que só terminaria com as bombas atômicas caindo sobre Nagasaki decretando o fim da 2ª. Guerra Mundial em 1945. A raça japonesa era a divinamente favorecida e seu povo eleito para dominar a Ásia. Após a guerra contra a China em 1894/95 e contra a Rússia dez anos mais tarde, o exército nipônico – que chegou a ter um efetivo de seis milhões de homens – avançou impondo seu domínio até os confins da Indonésia ou às Ilhas Salomão. Em 1910 anexou a Coreia.

Preocupado em manter viva a moral dos seus soldados, o comando japonês decidiu montar, a partir de 1932, uma vasta rede de bordeis de apoio ao esforço de guerra, equipando-a com “mulheres de conforto” em sua maior parte trazidas de forma compulsória principalmente da Coreia (por facilidades de idioma e costumes) de onde cerca de 200 mil meninas foram raptadas ou convencidas com promessas enganosas de trabalho. Hoje somente 46 delas sobrevivem, a mais nova com 88 anos, em uma Pensão adaptada como casa para idosos na zona rural de Gwangiu (a cidade coreana dos direitos humanos), na periferia de Seul.

Kim Bok-dong tinha 14 anos quando a polícia japonesa e um soldado coreano apareceram e exigiram que ela fosse trabalhar numa fábrica de uniformes. Sua mãe reclamou: “Ela é tão pequena, o que pode fazer na fábrica?” “Pode aprender”. Pensando que era por poucos dias ela foi e ficou 7 anos em bordeis na China e nas Filipinas. Fugiu algumas vezes e como resultado perdeu vários  dentes e em parte a audição; teve o rosto deformado e ficou estéril. Niyem foi levada a Java Ocidental na Indonésia depois de raptada aos 10 anos. Vivia numa tenda com duas outras. Os soldados japoneses vinham – 30 a 40 por dia – e as estupravam. “Em dois meses meu corpo estava completamente destruído”.

Dependendo do tamanho da tropa, o bordel de conforto podia ocupar um edifício com mais de um andar (vide foto).  Tratado como insumo militar, era uma instalação permanente ou móvel, agregada a uma Divisão de tropas em movimento. A administração cabia ao comando militar japonês, mas em alguns casos (os permanentes) podia ser terceirizado a particulares, As mulheres mais feias por vezes eram devolvidas para casa, mas as bonitas podiam ser oferecidas como amantes de ocasião a aristocratas e oficiais superiores nas cidades. Sífilis, abortos, cirurgias forçadas, violência gratuita compunham a rotina de meninas e mulheres transformadas em escravas sexuais e em válvulas de escape para o exército nipônico de ocupação.

As denúncias começaram em 1981 e doze anos mais tarde o Japão reconheceu a existência de bordeis de guerra. Desde 1992 as sobreviventes se reuniam toda 4ª. Feira em frente à embaixada japonesa para protestar e finalmente em dezembro de 2015 o 1º Ministro Shinzo Abe apresentou as desculpas formais de seu governo e assinou um acordo “final e irreversível” com a presidente coreana (Park Geun-kye, hoje afastada num processo de impeachment), concordando em doar uma verba de 1 bilhão de yenes (cerca de R$ 26 milhões) para constituir um Fundo de apoio a essas mulheres “que sofreram incomensuráveis e dolorosas experiências, com feridas psicológicas e físicas incuráveis”. O acordo também previa a retirada da estátua de uma mulher de conforto colocada em frente à embaixada em Seul. É uma escultura de bronze de 1 metro e ½ de altura: uma jovem descalça, sentada num banco. No entanto, há 37 delas pelo país (e uma na Austrália), consideradas como símbolos do sofrimento coreano durante a guerra.

Escultura de bronze de Mulher Conforto coreana em frente da embaixada japonesa em Seul.

Um livro da professora Park Yu-ha da Universidade de Sejong – Mulheres de conforto do Império – acaba de ser permitido em nome da liberdade de expressão depois de proibido por revelar que houve mulheres que assumiram a prostituição voluntariamente e colaboradores coreanos que facilitaram o recrutamento das crianças e jovens. A Coreia do Sul declarou-se uma nação em maio de 1948. Dois anos mais tarde foi invadida pela Coreia do Norte numa guerra que perdurou por 3 anos resultando em 3 milhões de mortos e, ao final, devolveu cada qual às mesmas posições ocupadas antes do conflito. Um acordo de paz entre Japão e Coreia do Sul, assinado em junho de 1965, afinal substituiu o tratado que, cinco décadas e meia antes, oficializara a ocupação nipônica do território coreano e que resultou na escravização sexual de suas mulheres, uma mancha que nunca será esquecida, mas ao menos agora começa a ser apagada.(VGP)

Soldados japoneses aguardam em fila para entrar numa “estação de conforto” na China (fotógrafo desconhecido. In: www.alpha-canada.org/education/asian-holocaust/military-sexual-slavery/)
Uma Estação militar para Mulheres de Conforto em Nanjing, China. (Getty Images)

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