Série “As prisões do Brasil” – IV. Tráfico de drogas é a raiz do problema

Em maio de 2016 estava em Fortaleza e a notícia que tomava as manchetes era o assassinato, pelos detentos das penitenciárias de Itaitinga, de 14 outros presos, cinco dos quais decapitados, fazendo-nos recordar os horrores de Pedrinhas no Maranhão. Agora, janeiro de 2017, tudo se repete: 60 massacrados em Manaus, 33 em Boa Vista, 26 em Nísia Floresta. Nesta, fica nítido o quanto o sistema prisional brasileiro está fora do controle. O Juiz de Execuções Penais de Natal, Henrique Vilar dos Santos, disse que “a situação era previsível. Há pavilhões com celas sem grades. Então, dentro os presos já comandavam e o Estado só controlava os muros”. Iniciada a rebelião, grupos de bandidos do lado de fora lançaram sacolas com armas para dentro. Ao chegarem na Penitenciária de Alcaçuz, as “Forças da Ordem” do Rio Grande do Norte se depararam com as cabeças de três presos que haviam sido jogadas por cima do muro para demonstrar que ninguém estava brincando em serviço. As autoridades, atônitas, declaram que se trata de disputas pelo domínio do tráfico entre bandos ligados ao PCC e ao Comando Vermelho. 

Polícia do Rio Grande do Norte faz a contagem dos presos após conseguir entrar na Penitenciária de Alcaçuz em Nísia Floresta (imagem: Tribuna do Norte, 01/2017).

Em meu livro “Guerra en los Andes” (2ª. Ed., Quito, 2008) descrevi a evolução do tráfico nas Américas. Até 2008 o Peru e a Bolívia cultivavam a coca e a Colômbia produzia cocaína. Então, os carteis acharam por bem concentrar tudo nas montanhas colombianas, onde já atuavam as guerrilhas das Farc e do ELN. Para enfrentar cerca de 30 mil guerrilheiros, graças ao apoio norte-americano a Colômbia equipou suas Forças Armadas com o fantástico contingente de 400 mil homens. Pressionados ao extremo, os carteis da droga tiveram de reestruturar-se, dessa feita em duas direções: primeiro, para a América Central e o México, colados aos EUA e transformados subitamente em líderes mundiais de violência; depois para o Brasil que, segundo Luis Rojas da Secretaria Anti-Drogas paraguaia, “é a rota no mundo para a cocaína, uma via de saída para a Europa, via África”. Vantagens adicionais brasileiras revelaram-se suas porosas fronteiras, a disponibilidade de insumos e de laboratórios para produção a partir da pasta-base, e uma população numerosa com índices crescentes de consumo.

As rotas pela selva amazônica são as mesmas utilizadas para o contrabando de ouro no século XVIII, de borracha em fins do século XIX e depois no comércio da madeira. Assim se consolidaram sete corredores de trânsito e exportação de drogas que, intocáveis, cruzam o território brasileiro provenientes dos países vizinhos produtores.

Os lucros são imbatíveis. Segundo a UNODC (agência da ONU para a droga e o crime), um grama de cocaína, comprada a 15 dólares em Cobija na Bolívia (em frente a Brasiléia no Acre), vale pelo menos US$ 94 na Europa e US$ 170 na Rússia. São 20 milhões de consumidores fiéis espalhados pelo mundo.

Como chegamos ao caos atual, perguntam-se muitos? Entre as razões, contribuíram bastante alguns estrategistas de araque que resolveram distribuir os líderes das facções criminosas do Rio e São Paulo pelos estados brasileiros, onde rapidamente estruturaram as gangues locais. Como concluiu com indiscutível razão o professor Roberto Romano, professor de ética e política da Unicamp, “as prisões brasileiras são, hoje, embaixadas do narcotráfico internacional”. (VGP)

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