Barragem de Mosul: uma bomba-relógio

Mosul, na Mesopotâmia, que já foi Nínive no século 25 A.C., depois de resistir aos assírios e aos impérios achemita, persa e otomano, caiu nas mãos do Estado Islâmico (EI) em junho de 2014. Em outubro último começou a ofensiva das forças aliadas compostas por batalhões do exército iraquiano, combatentes curdos peshmergas, tribos islâmicas sunitas e milicianos xiítas, assistidos por aviões de combate e consultores militares dos EUA e de países da coalizão anti-EI. Não obstante, a retomada da cidade deve demorar meses, segundo o comandante do ataque.

Progresso dos curdos peshmergas sobre Mosul (BBC, 12/2016)

 

Mosul dam

Barragem de Mosul no rio Tigre, Iraque (Imagem de Ahmed Maher – BBC News, Dahuk – 01/2016)

 

Mosul, com população estimada em 1,8 milhão de habitantes, está estrategicamente localizada, a 353 km ao norte da capital iraquiana Bagdá e no centro de um triângulo cujos lados são as fronteiras do Irã, da Turquia e da Síria. Está a apenas 94 km de Arbil, a sede do Curdistão Iraquiano. A barragem fica 60 km ao norte do centro da cidade e é a 4a. maior do Oriente Médio com um volume d’água (o Lago Sahuk) de 11,1 bilhões de m3. Foi construída por Saddam Hussein em 1981 para dar emprego ao seu povo, numa época em que outra barragem, feita por Síria e Turquia no rio Eufrates, desertificava vastos territórios iraquianos. Conhecida como a “Barragem Saddam”, foi um erro desde o início, pois o solo utilizado como fundação – de gipsita, anidrido e calcário, era solúvel e de imediato começou a sofrer um processo de erosão. Avisado por consultores suíços, o ditador começou uma nova barragem, de Badush, para substituir a de Mosul caso essa ruísse, mas a interrompeu em meio da 1a. Guerra do Golfo, com apenas 40% da obra completa. Após a queda de Saddam, um parecer do US Corps em 2006 dizia que “Mosul é a mais perigosa barragem do mundo”, com sérios riscos de erosão interna. Os recursos alocados daí em diante sofreram desvios pela corrupção e reduzido controle num período extremamente conturbado na região.

Recentemente, com financiamento pelo Banco Mundial  a empresa italiana Trevi foi contratada para cimentar as bases e corrigir as crescentes fissuras num trabalho de emergência previsto para durar 18 meses. Contudo, em agosto de 2014, seguindo-se à tomada de Mosul, as forças do Estado Islâmico ocuparam a barragem interrompendo o serviço da Trevi. Duas semanas depois milícias peshmerga com apoio iraquiano e norte-americano expulsaram mais de 500 guerrilheiros do EI da barragem (mas eles ficaram com a fábrica de cimento e seguiram dominando a cidade) para constatar que a maior parte das instalações e do equipamento haviam sido destruídos ou roubados.

Com a situação ficando cada vez mais crítica, um renomado estudioso do problema, o professor al-Ansari da Universidade sueca de Lulea afirmou que, edificada sobre fundações instáveis, a barragem é uma bomba-relógio, de colapso inevitável. “É só uma questão de tempo”. Estudo da Comissão Europeia realizado em abril último prevê que se 26% da represa ruir, originará uma onda de 25 metros de altura que chegará a Mosul em uma hora e meia e, ainda com 8 metros, arrasará Bagdá e tudo o que houver pelo caminho em menos de 4 dias. Os efeitos para o Iraque serão similares aos de uma bomba nuclear

Já a empresa italiana,, acusada de estar colocando um Band-Aid numa ferida imensa, comenta que o processo de cimentação não é apenas um paliativo pois, ao contrário, dará solidez à barragem por um tempo suficiente para providenciar soluções mais definitivas. Para o ministro de recursos hídricos do Iraque, Mohson al-Shammari, os rumores de eminente colapso da barragem visam tão somente desestabilizar seu governo. “O perigo que ronda Mosul não é maior do que o de qualquer outra represa. Nosso risco é de 1 em 1.000”. Alguns políticos iraquianos falam em uma conspiração ocidental contra o país. Mesmo assim, o governo enfim decidiu recomendar à população que se afaste pelo menos 6 km das margens do Tigre. O fato é que a única solução permanente, a construção de uma segunda barragem, inclusive pela retomada das obras de Badush, custariam não menos de 2 bilhões de dólares, um dinheiro que – em plena guerra contra o EI – o Iraque não dispõe. A alternativa é de, com urgência, estabelecer um plano de socorro para milhões de pessoas a serem afetadas afetadas ao longo do Tigre. Uma boa notícia foi dada pelo Sheik Jaatar Mustafa, chefe das milícias peshmerga em luta, afirmando que depois de expulsarem o EI de Mosul os curdos não permanecerão na cidade, retornando para as suas bases, no Curdistão, que querem ver independente.

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