Aleppo e as consequências de sua destruição

Até há pouco tempo um poderoso centro comercial sírio, Aleppo já não mais resiste à guerra. Três anos atrás a cidade foi dividida e as regiões oriental e sul que constituem a maior parte do território caíram nas mãos dos rebeldes, enquanto a parte ocidental permaneceu sob controle governamental. Os 250 mil civis que não puderam sair da área oriental tentam hoje ocultar-se dos bombardeios constantes (feitos pelo Exército sírio com apoio do Hezbollah, de militantes xiitas e da Rússia), mas enfrentam condições de sobrevivência cada vez mais duras diante da falta de alimentos, de medicamentos e de assistência médica. Segundo o Observatório Sírio de Recursos Humanos 54 pessoas foram mortas nas últimas 24 horas. No total estima-se que 400 mil já perderam a vida desde o início da guerra síria em março de 2011. Um representante da ONU, Staffan de Mistura, acaba de chegar uma vez mais a Damasco para conversar com o ministro de Relações Exteriores sírio, Walid al-Muallem, mas as possibilidades de acerto de um cessar-fogo permanente seguem sendo próximas a zero.

A revista especializada londrina The Lancet, na edição deste mês publica um artigo assinado por Lactitia Atlani-Duau, ex-consultora de assuntos humanitários da ONU e François Delattre, embaixador da França perante as Nações Unidas, com um título ao mesmo tempo corajoso e assustador: È Aleppo o túmulo das Nações Unidas? (Is Aleppo the grave of United Nations? – Vol.388, nº 10059, p.2472, 19/11/2016). Por sua óbvia importância, Mundo Século XXI transcreve a seguir o texto, em tradução livre ao português.

Imagens do antes e do depois dos bombardeios de 2016 em Aleppo que era uma cidade encantadora (20-photos-describe-the-war-577a13d723d23__700-1)
Imagens do antes e do depois dos bombardeios de 2016 em Aleppo que era uma cidade encantadora (20-photos-describe-the-war-577a13d723d23__700-1)

Aleppo é para a Síria, hoje, o que Guernica foi para a Espanha durante sua guerra civil, uma cidade martirizada e precursora de mais desastres que virão. Da mesma forma as Nações Unidas estão arriscadas a se tornarem no Século XXI o mesmo que a Liga das Nações no Século XX: irrelevantes.

Não podemos fechar os olhos. Junto com o terrível custo humano, no limite não é só o futuro da Síria (que está em jogo), mas a credibilidade da ONU. De acordo com informes da ONU, o governo sírio e seus aliados estão bombardeando hospitais, residências, clínicas, escolas e suas vizinhanças. Novas armas incendiárias e munições bunker-busting (armas aptas a penetrar no alvo e só então explodir) que podem demolir edifícios inteiros. O uso de tais armamentos contra hospitais subterrâneos e abrigos para civis não deveriam ser uma surpresa em se tratando de um regime acusado de atacar seu povo com gás cloro e barrel bombs (cilindros de aço que ao explodirem liberam bombas e artefatos letais em todas as direções). Menos de 30 médicos permanecem para atender 275.000 residentes , incluindo cem mil crianças, enquanto apenas seis dos oito hospitais estavam funcionando em meados de julho. Além de disporem de pessoal insuficiente, as instalações médicas carecem de espaço e suprimentos (como anestésico, fluidos intravenosos e suprimento de sangue, além de material ortopédico, instrumental para cirurgias e para atenção de traumas) para tratarem as vítimas. Estações de tratamento de água foram danificadas e água potável e alimentos tornaram-se escassos nas área sob estado de sítio.

O uso de armamento avançado em áreas civis e a manifesta deliberação de perpetrar ataques a hospitais tem sido denunciadas como crimes de guerra perante o Conselho de Segurança e outras áreas da ONU. Mas, então, o quê? A ONU tem sido incapaz de acessar Aleppo leste desde julho, pois para fazê-lo necessitariam de autorização do governo. Quando o governo finalmente autorizou a ONU a entregar alimentos e ajuda suplementar, um ataque aéreo teve lugar em 19 de setembro último, atingindo propositadamente o comboio humanitário da ONU e da Cruz Vermelha sírio-arábica, matando civis e trabalhadores encarregados da ajuda humanitária. De fato, isso demonstra que o regime (de Assad) e seus aliados consideram as negociações de cessar-fogo como uma cortina de fumaça. O regime parece determinado a arrasar e bombardear a população até alcançar seu objetivo de erradicar toda e qualquer oposição.

A ONU atingiu seu momento da verdade. Ao nível político, com o veto da Rússia impedindo qualquer acordo substantivo de cessar-fogo, o bloqueio do Conselho de Segurança coloca a ONU no limite da irrelevância. No terreno, operações humanitárias afiguram-se como impossíveis e são vistas como uma desculpa para salvar consciências culpadas. A recente eleição de um forte novo Secretário Geral proporciona esperança para a ONU. Mas a eleição de uma pessoa não é o suficiente. Se nada é feito para prevenir a destruição de Aleppo, e para dar fim à impunidade – de todas as partes – obstruindo as alções humanitárias, estas próximas semanas demarcarão uma ressonante derrota da diplomacia e o triunfo da força bruta.

É a ONU como um todo que precisa atuar para salvar Aleppo – e o fazendo, salvar a si mesma.” 

Be the first to comment

Deixe seu Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*