Bongo 1 x Ping 0

Derrotar Ali Bongo numa eleição gabonesa é tarefa impossível, mesmo para o “filho do chinês” como é conhecido, desde o nascimento (no ano de 1942 em Ombouê, então na França Equatorial), Jean Ping. O Gabão, do tamanho do Rio Grande do Sul e 1,5 milhão de habitantes, situado na África Central – limites com Congo, Camarões, Guiné Equatorial, às margens do Atlântico –está entre os países mais prósperos da região do Sub-Sahara graças às suas extensas reservas de petróleo. Desde a independência em 1960, teve somente três presidentes. O primeiro, Léon M’ba, foi substituído em 1967 pelo vice, Omar Bongo, que reinou por quatro décadas sem maiores contestações, até falecer por causas naturais em 2009. O regime, então, já assumira uma superficial camada democrática, tinha mais de um partido e fez suas primeiras eleições, embora apenas para eleger o filho do falecido, Ali Ben Bongo Ondimba, para um mandato de sete anos, renováveis ao menos por outro tanto.

Para que não se diga que o Brasil ignora os dramas africanos (a terra-mãe), Lula visitou Omar Bongo em 2004. Na volta, em conversa com o presidente Abel Pacheco da Costa Rica, jactou-se: “Eu fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição”. O Brasil, então, já possuía embaixada em Libreville e a Vale disputava uma concessão para explorar as minas de Belinga (logo depois entregue a uma empresa chinesa), onde se encontram as maiores reservas inexploradas de minério de ferro do mundo.

No último domingo de agosto deste 2016 afinal chegou o momento de nova eleição e, naturalmente, Ali Bongo Ondimba candidatou-se a permanecer na presidência, posto que ocupa como sendo uma missão familiar. À frente de uma aliança opositora concorreu o rico empresário Jean Ping (73 anos) que até há bem pouco tempo fazia parte do governo gabonês. Filho do mercador chinês Cheng Zhiping que emigrou para o Gabão nos anos 1930, ai se casou e fez fortuna como negociante de sedas e mercadorias que importava de Hangzhou, sua terra natal. Nos últimos dias a imprensa local deu grande destaque a Jean Ping por ser um descendente de chinês que estava para se tornar presidente de outro país. Coisa rara, até trocadilhos surgiram com a figura do  1º Ministro Xi Jinping, pois a pronúncia dos dois nomes é a mesma.

Para um total de 627 mil eleitores, Bongo venceu com 49,8% contra 48,23% para Ping, uma diferença de apenas 5.594 votos. O governo reconheceu quatro mortes durante a violenta campanha, mas a oposição fala em centenas de vítimas e responsabiliza as Forças Armadas, além de pedir uma recontagem geral sob controle da União Africana.

Os partidários de Jean Ping não se conformam com os resultados da província de Haut-Ogoouê, com 250 mil habitantes, onde a família Bongo exerce férreo domínio. Para uma eleição acirrada, o comparecimento nacional limitou-se a 59,5% dos votantes inscritos, mas em Haut-Ogoouê, as urnas revelaram a presença de 95,5% dos eleitores que sufragaram unanimemente a chapa liderada por Bongo Ondimba.

Uma das principais promessas de campanha de Bongo é sediar em 2017 a Copa de Futebol das Nações Africanas. Numa demonstração de prestígio e força conseguiu trazer o astro do Barcelona, o argentino Leonel Messi para colocar a primeira pedra do estádio de Port Gentil, a 2ª. cidade do país, com capacidade prevista para 40 mil torcedores. Todos os envolvidos negam, mas fontes muito bem informadas revelam que Messi recebeu 3,5 milhões de euros por uma visita de um dia e meio, uma semana antes do pleito gabonês, e para posar sorridente ao lado do presidente-candidato. (VGP)

Ali Bongo Ondimba e Leonel Messi em Port-Gentil no Gabão - 18/8/2016
Ali Bongo Ondimba e Leonel Messi em Port-Gentil no Gabão – 18/8/2016

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