As crianças que fogem do Zimbabwe

Robert Mugabe, de sólida educação católica trazida ainda dos tempos da Rodésia do Sul, em fevereiro completou 92 anos. É o presidente do Zimbabwe desde 1980 e, naturalmente, o candidato de seu partido (na prática o único) Zanu-PF para as eleições de 2018, as quais deve vencer com tranquilidade habilitando-se para um período de mais cinco anos no poder. Nesse período transformou seu país em um pária internacional. No auge, em 2009, a inflação chegou a fantásticos 231 milhões por cento e para comprar 1 dólar norte-americano havia necessidade de 175 quatrilhões de dólares zimbabuanos. Então, o Banco Central imprimiu a sua nota de maior valor: 100 trilhões de Z$. A solução foi adotar um sistema multimonetário, aceitando uma cesta de moedas que hoje circulam no país: dólar americano, dólar australiano, libra inglesa, pula de Botswana, yuan chinês, rúpia indiana, yene japonês. Mugabe segue firme. No mês passado discursou, sem qualquer sinal de cansaço, durante uma hora sob o sol em pleno meio-dia em Harare, a capital. Ao seu lado o vice Emerson Mnangagwa, mais conhecido como Ngwenia (o Crocodilo) e a esposa Grace Mugabe, cotada para substituí-lo caso algum dia venha a falecer.

Robert Mugabe, 94 anos, presidente do Zimbabwe
Robert Mugabe, 94 anos, presidente do Zimbabwe
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Crianças zimbabuanas fogem dos crocodilos do rio Limpopo e entram ilegalmente na África do Sul

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Sufocados pela ditadura e pela falta de empregos, cerca de 2 milhões de zimbabuanos (12,5% da população do país) já vive na vizinha e rica África do Sul. A fronteira entre as duas nações estende-se por 225km ao longo do caudaloso rio Limpopo. O ponto oficial de travessia é a ponte de Beitbrige entre as autoestradas A6 no Zimbabwe e N1 na África do Sul, ligando as cidades de Rutenga e Messina.  Ali é possível cruzar em ônibus e vans fretados e dirigidos por um motorista, conhecido como OMalayitsha, que consegue transitar nos dois lados, cobra 1.200 rands por pessoa (R$ 273,00) e suborna a guarda corrupta com a metade desse valor. Embora um passaporte seja exigido, pelo menos 10 mil pessoas e 4 mil carros circulam por ali em um dia de movimento normal.

Há, no entanto, outros 50 pontos onde a travessia ilegal é possível, em geral em pequenos botes e lanchas que precisam vencer o Limpopo, infestado de crocodilos sempre à espera de frágeis vítimas como são as milhares de crianças que, sem outra alternativa para fugir da miséria absoluta, da fome, violência e das doenças impostas pelo regime de Mugabe, arriscam a vida submetendo-se à intermediação dos Magumagumas (equivalentes aos coiotes que atuam na fronteira México & EUA) sem maiores garantias de êxito. São meninos e meninas que viajam sós ou sem a companhia de parentes, boa parte deles na faixa de 14 anos de idade, órfãos cujos pais foram vitimados pela epidemia de Aids. A esperança é ter acesso às fazendas de criação de gado e às minas de pedras preciosas das províncias do norte sul-africano.

Submetido a um êxodo dessas dimensões a economia do Zimbabwe compromete tanto o seu presente quanto o futuro. Não obstante, há uma luz no fim do túnel. A economia, cuja produção de algodão, tabaco, ouro e carvão foi intensamente prejudicada com a expulsão dos brancos na primeira década dos anos 2000, agora volta a crescer graças ao forte apoio chinês, aos altos índices de alfabetização (superior a 90% dos adultos, uma eterna prioridade do professor Mugabe) e às reservas de minerais. Um exemplo é o campo de diamantes de Manange, tido como o mais rico do mundo. Mas, pelo menos 50% do que é ali produzido perde-se pela intensa corrupção dos homens do governo e seus associados. (VGP)

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