O século das cidades

Certamente, se XIX foi o século dos impérios e XX o dos estados nacionais,  agora é a vez das cidades, do pleno domínio dos núcleos urbanos onde 2/3 da população do mundo estará vivendo em 2.050. O Brasil deixou de ser um país rural em 1965. Então, eram 42,20 milhões na zona urbana contra 42,18 milhões na zona rural; uma tendência que se acelerou até chegarmos a este 2.016 com 85% da população residindo nas cidades.

Em Brasília, onde vivo, já são 3 milhões de habitantes todos urbanos e, dizem, cada qual com seus orgulhos e mil problemas (há, p.ex., 1,6 milhão de carros e só o Detran, que precisa muito de dinheiro, aplica a cada ano igual número de multas). Como será morar numa cidade chinesa, como as agora projetadas, com uma população cerca de cinquenta vezes maior? Haverá tempo para conversar com os vizinhos e para visitar amigos que moram no outro lado da cidade?

Uma megacidade, para a ONU, tem pelo menos dez milhões de habitantes. Eram dez em 1950 e agora são 28 – dezesseis na Ásia, quatro na América Latina, três na África e Europa, duas na América do Norte. Serão pelo menos 40 em 2.030 reunindo no total 725 milhões de pessoas com a chegada ao “clube” de Bogotá, Lima, Luanda, Johanesburgo, Bangkok, Ho Chi Minh, Lahore (Paquistão), Chengdu e, na Índia, Chennai, Bangalore, Ahmedabad e Hyderabad. Seis gigantescas metrópoles hoje lideram o ranking: Tóquio, Delhi, Shanghai, São Paulo, Mumbai e Cidade do México, mas haverá alterações no médio prazo, devido aos índices de fertilidade e à dinâmica migratória de cada região, com o que Pequim e Daca (Bangladesh) assumirão as posições das duas grandes latino-americanas.

Rompendo com os padrões atuais e desafiando os defensores dos núcleos de tamanho mediano, o governo chinês está planejando três gigacidades. Uma no Vale do Yangtzé em torno de Shanghai para 170 milhões de pessoas, outra no Vale do Rio das Pérolas que vai de Guangzhou a Shenzen em frente a Hong Kong e desde logo Jing-Jin-Ji destinada, numa área de 216 mil km2, a 130 milhões de chineses no eixo formado na Baía de Bohai por Pequim (Jing de Beijing), Tianjin (Jin) e oito outras localidades “menores” de Hebel (Ji como é chamada a província). Sean Chiao, executivo da Aecom, uma empresa de engenharia global, advoga a ideia: “por definição, megacidades tendem por si sós à eficiência. Quanto maiores, maior será a concentração de pessoas, recursos, informação, capital e bens. Isto significa que o suprimento de energia, serviços básicos, informação, bem como as amenidades vitais para habitantes de cidades, cuidados à saúde e transporte, podem ser mais eficientes e custo-efetivos.” Para G. Harrison, professor em Oxford, vastas aglomerações urbanas são difíceis de manejar com múltiplas administrações municipais sem uma clara autoridade geral, mas “a China tem um governo forte que pode fazer o que precisa ser feito”. O segredo estaria num bom planejamento e nos recursos disponíveis e não na costumeira expansão espontânea e anárquica. As grandes cidades criadas mais por acidente do que por um desenho racional,  já existentes, atuarão como Hubs (pontos de referência) de apoio a seu entorno. Jing-Jin-Ji não será uma super megacidade e sim um ecossistema de várias cidades com núcleos centrais e consideráveis espaços entre elas, com um sistema de vias expressas de alta velocidade que permitirá acessar de qualquer ponto em uma hora o centro principal.

Os que se opõem a um projeto que parece ser inevitável têm fortes argumentos, a começar pelo impacto nos índices de fertilidade (extremamente baixos em Pequim e Shanghai) e nos preços dos imóveis que já estão custando até o dobro do que em áreas nobres de Londres, Sydney ou New York. Congestionamentos gigantes e intensa poluição geram estresse e problemas respiratórios, multiplicam as favelas e obrigam os pobres a morar em longínquas periferias enquanto os ricos cada vez mais migram para a Austrália e a Nova Zelândia.

No caso brasileiro, no sudeste surge passivamente uma imensa mancha urbana contínua aglomerando de maneira gradativa e até aqui inexorável os complexos metropolitanos expandidos de São Paulo e Rio de Janeiro. Com pouco mais de 82 mil km2, 232 municípios cada vez mais conturbados e 42 milhões de pessoas, abrange, p.ex., Campinas, Santos, Petrópolis, Duque de Caxias e até a mineira Juiz de Fora, num desafio cada vez mais urgente para as teorias e as práticas de planejamento espacial e demográfico do país. (VGP)

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