O pacote neoliberal de Maduro

O presidente venezuelano jura de pés juntos: aquilo que o país inteiro está chamando de “paquetazo de Maduro”, na verdade “no es un paquete neoliberal”. Contudo, é o mais próximo a isso que já chegou o governo bolivariano desde as medidas socializantes implantadas por Hugo Chávez. Há muito aguardado, o conjunto de cinco medidas lançado com imenso atraso tem mínimas chances de interromper a queda livre em que se encontra a economia nacional. A inflação que em 2015 (segundo o Banco Central) chegou a 180,9%, taxa sem similar no resto do mundo, corrói os ganhos da população que agora é, como ocorre no Brasil, chamada a pagar o prejuízo causado pelo imenso déficit da conta petróleo – a riqueza única do país – e pelo pavoroso desastre que é a administração chefiada pelo ex-motorneiro Nicolás.

Una gasolinera de PDVSA en Caracas, ago 29 2014. Una gasolinera de PDVSA en Caracas  REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
Una gasolinera de PDVSA en Caracas, ago 29 2014. Una gasolinera de PDVSA en Caracas REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

O desespero do chavismo é tão grande que, para fazer caixa, decidiu aplicar a medida mais impopular de todas: o aumento do preço da gasolina. A capital (e as principais cidades) ainda lembra 27 e 28 de fevereiro de 1989 quando a autorização de aumentos da gasolina e das passagens de ônibus urbanos encontrou a paciência popular em fase de total esgotamento e gerou uma onda de protestos que evoluiu para saques a casas comerciais e por fim para a violenta repressão policial e militar que deixou bem mais do que os 300 mortos oficialmente contados. Como o país possui as maiores reservas de petróleo do mundo, os venezuelanos acham que têm direito a gasolina virtualmente gratuita e toda vez que surgem notícias de aumento o povo costuma correr para as ruas e tudo – pelo menos até aqui – fica como estava. O último reajuste aconteceu em 1996. Pelo decreto agora assinado pela presidência o litro da gasolina de 91 octanas (equivale à “premium” no Brasil) subirá, na bomba, de 0,07 bolívares para 1 bolívar. A de 95 octanas (nossa “podium”), que é a usada por sete de cada dez motoristas no país, salta de B$ 0,097 para 6 bolívares. Ainda assim é, de longe, a gasolina mais barata do planeta.

A segunda medida, anunciada em discurso que perdurou ao longo de 4 horas, uma vez mais desvalorizou a moeda. Para a compra de medicamentos, alimentos e para efeito dos programas sociais um dólar vale 10 bolívares (era 6,3), enquanto que para todo o restante o câmbio é de 200 por dólar. É um excelente negócio subterrâneo comprar dólares nesse valor e logo vendê-los no câmbio negro que cotiza a escassa moeda norte-americana no mínimo a 1.000 bolívares.

Nos armazéns e lojas, como 3ª.medida do pacote, os chamados “produtos regulados” (cerca de 100 produtos básicos e essenciais tabelados pelo governo) serão reajustados. A intenção é de que alcancem preços de mercado, bem acima dos hoje oferecidos para quem se sujeita às imensas filas formadas desde a madrugada nas garagens das grandes casas comerciais – para que não sejam vistas por quem circula por outras razões pela rua –, toda vez em que corre a notícia de que “está chegando” carne de frango, papel higiênico, anticoncepcional, creme dental, farinha, etc. Os efeitos devem se esvair rapidamente, com os novos preços logo se tornando insatisfatórios para os comerciantes devido à inflação.

Maduro se propõe, ainda (4ª. medida), a intervir no sistema de oferta de alimentos, reestruturando os programas estatais Mercal e PDVAL, e acabando com o “Abasto Bicentenario”, uma rede de supermercados públicos criada por Hugo Chávez e que naufragou nas mãos de uma máfia de funcionários que desviava os produtos e os vendia no mercado negro. Burocrata empedernido, já criou uma outra corporação estatal para lidar com o setor.

Por fim, uma compensação: aumento do salário-mínimo e do bônus-alimentação concedido às mesmas pessoas e aos aposentados. Somados, pagarão 24.853 bolívares que, ao câmbio oficial flutuante, rendem cerca de 124 dólares. Mas, quem precisar socorrer-se do mercado informal, que é onde na verdade tudo é vendido na Venezuela de hoje, terá de contar com míseros 25 dólares mensais. (VGP)

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