A ODISSEIA CURDA

  1. Do século VII a.C. à era medieval

A manutenção pelos curdos, ao longo dos séculos, de sua identidade como povo é um dos milagres que a natureza e a história não conseguem explicar. O amálgama que tem unido as centenas de tribos nômades que há cerca de três mil anos se espalharam pelo Oriente Médio é o território, o Curdistão, uma área que no total atualmente tem cerca de 392 mil km2 ocupando partes da Turquia, Iraque, Irã e Síria. No entanto, os curdos nunca formaram uma nação, proeza não alcançada nem por poderosos líderes como Ciro O Grande ou Saladino (lutou contra Ricardo Coração de Leão e foi capaz até de retomar Jerusalém) que deixaram como herança apenas a fama de brutos e encrenqueiros, sempre colocando sua energia a serviço de vizinhos poderosos de ocasião.

A raiz primeira vem de Jafé (irmão de Sem e filho de Noé), que teria originado os persas e as raças indo-europeias. Estende-se aos hurritas em 4.300 a.C, a assírios e babilônios, chegando aos medos, considerados pelos curdos como seus ascendentes diretos. O Império Medo durou 129 anos e terminou em 630 a.C. derrotado por Ciro, o fundador do império persa Aquemênida que mais tarde caiu nas mãos de Alexandre Magno para afinal ceder diante dos exércitos romanos.

Oriente Médio com o Curdistão conforme proposta (não concretizada) do Tratado de Sèvres, 1921
Oriente Médio com o Curdistão conforme proposta (não concretizada) do Tratado de Sèvres, 1921

Com os medos surgiram as técnicas de guerrilha e de formação de milícias, inspiradoras dos combatentes peshmerga – aqueles que caminham ao lado da morte –, símbolos das mais belicosas tradições que os curdos conservam até os dias de hoje. Influenciadas e racialmente mescladas por arianos, babilônios, persas e árabes, entre outros, as tribos curdas congregam nativos de pele escura e cabelo encarapinhado ao lado de loiros de olhos azuis. Gente simples com elevado grau de analfabetismo, eles são falantes de uma evolução do idioma aramaico, além do árabe. Por volta do século VII converteram-se ao islamismo sunita, mas diversos grupos optaram por outras religiões, principalmente pelo Iazidismo, uma crença monoteísta combinando preceitos do zoroastrismo, do cristianismo e do islamismo que faz o Culto dos Anjos pela adoração a sete entidades angélicas que protegem o mundo. A adoção do Islã, no entanto, deu-se de forma suave e as mulheres curdas podem opinar e seguir carreira militar ao lado dos homens, frequentar escolas não sendo forçadas a cobrir a cabeça e os rostos nem a usar trajes pretos como o xador iraniano. Curdos em geral são monogâmicos. Embora hoje a maioria viva em centros urbanos, a tradição é de uma raça de pastores. “Um curdo não tem amigos, tem montanhas” reza o dito popular, numa referência aos maciços situados no Alto Curdistão: a Cordilheira de Zagros (Irã e Iraque), o Monte Ararat onde teria aportado a arca de Noé ou o Monte Judi na divisa da Armênia com a Mesopotâmia.

Curdistão em janeiro de 2.016
Curdistão em janeiro de 2.016

A era de ouro para a cultura curda, ao contrário do que se passou com boa parte da humanidade, aconteceu durante a era medieval (anos 600 a 1.500). Nos séculos X, XI e XII, eles defenderam as terras Medias dos invasores cruzados, dominaram reinos e principados dentro e fora da área do Curdistão e se destacaram na arquitetura, música, filosofia, matemática e astronomia. Durante a dinastia Ayubida, comandados por Saladino os curdos exerceram um papel de liderança no mundo muçulmano, mas após as invasões de turcos e mongóis (pincipalmente com Tamerlão e seu filho que devastaram o Curdistão) e no período conhecido como “moderno” (1497 a 1918) houve um forte declínio das ideias de território e de povo curdo, o qual chegou ao século XIX como um dos mais atrasados de todo o Oriente Médio por dois motivos principais: a divisão da região entre os impérios persa e otomano; e a descoberta por Vasco da Gama do Caminho das Índias que transformou o Curdistão numa irrelevante região montanhosa separando os dois grandes reinos.

  1. Entre o Império Otomano e o Ali Químico

Transformados em mão-de-obra militar auxiliar para as forças otomanas e ganhando uma relativa autonomia, os curdos foram os principais agentes do genocídio armênio de 1915, época em que cometeram o erro de confiar nos Jovens Turcos sem conhecer seus planos de eliminação étnica. Mais de 700 mil foram deportados para a Anatólia, numa tragédia em que pelo menos a metade perdeu a vida. Ao final da 1ª. Guerra restou um Curdistão destroçado pela fome, pilhagem, doenças como o tifo e a febre das trincheiras (ou febre quintana transmitida pelo piolho humano), logo sucedida pela epidemia de gripe espanhola. A região ainda serviu de rota para as tropas russas que tudo destruíam à sua passagem. Situados entre os grandes derrotados dessa grande guerra entre os alemães da Tríplice Aliança e os aliados, as perdas entre os curdos chegaram a 500 mil civis e a 300 mil combatentes.

A prometida compensação viria com a implementação do Tratado de Sèvres, a pequena comunidade dedicada à porcelana nos arredores de Paris, em que a comissão formada no artigo 62 por França, Reino Unido e Itália deveria “em seis meses definir esquema para a autonomia das áreas curdas a leste do Eufrates, a sul da Armênia e norte da Síria e Mesopotâmia. E se após 1 ano a maioria dos curdos desejar a independência, submeter-se-á à aprovação da Liga das Nações com a Turquia renunciando a todas pretensões sobre a área.”

Em seguida, sob intensa pressão da nascente república turca de Mustafá Kemal Ataturk, os planos e promessas foram esquecidos pelas grandes potências. Os restos do império otomano acabaram sendo loteados na Conferência de Lausanne de 1923 na figura de “mandatos”: Iraque, Palestina e Transjordânia para o Reino Unido; Libano e Síria para a França; Armênia e influência sobre Constantinopla para os Estados Unidos. O Curdistão desapareceu com partes dadas à Turquia (onde os curdos eram chamados de “turcos das montanhas”), ao Irã e aos nascentes estados da Síria e do Iraque. Não mais se falou em uma Armênia independente nem em um Curdistão autônomo.

Os curdos rebelaram-se dois anos depois de terem sido ignorados em Lausanne, e voltaram à carga – sempre sem sucesso – em 1929 e 1930. Assim, um novo período de escuridão tornou-se inevitável, até que um jovem estudante de ciências políticas da universidade de Ancara, Abdallah Ocalán, fundou o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), de extrema esquerda. O resultado foi uma violenta campanha de guerrilha contra o governo turco em 1987. O PKK, declarado como organização terrorista, submergiu na ilegalidade. Ocalán, depois de ser entregue pelo governo do Quênia ao exército turco, chegou a ser condenado à morte. Sua pena, comutada para prisão perpetua, não lhe anulou o ativismo político e hoje ainda é o principal negociador do partido nas discussões de trégua com o regime de Recep Erdogan.

As batalhas seguintes duraram 30 anos e foram travadas no Iraque. Na segunda metade dos anos 1980, Saddam Hussein encarregou seu primo Ali Hassam al-Majid (o “Ali Químico”) de exterminar a raça curda. Ele começou torturando e assassinando 500 crianças em setembro de 1985 para extrair-lhes informações sobre familiares que seriam militantes peshmergas e em seguida lançou a Operação Anfal que combinou os famosos ataques químicos a execuções e deportações em massa com um saldo de milhares de vítimas.

  1. Desunião, combate ao Estado Islâmico e o destino dos curdos

Passada a 1ª. Guerra do Golfo, Saddam Hussein viu-se obrigado a sair do Kuwait e a retirar suas tropas do território curdo em 1991, dando lugar, finalmente, à constituição de um Governo Regional Curdo (GRC) assumido pela coalisão formada por dois movimentos até então opostos entre si: o KDP e o PUK (vide siglas na tabela), que logo a seguir cederam tropas e espaço para que as forças de guerra norte-americanas enviadas por George Bush descessem no país a fim de eliminar Saddam. Os guerrilheiros curdos foram recebidos como heróis em Kirkuk e Mosul.

A remoção do ditador viabilizou a aprovação de uma nova Constituição pelo Iraque em outubro de 2005 dando autonomia a três províncias curdas: Dohuk, Arbil (a capital) e Suleimania, administrados pelo GRC e autorizados a adaptar leis nacionais, usar o curdo como idioma, ter suas próprias forças de segurança e constituir embaixadas no exterior. A conquista foi de autonomia e não de independência, pois esta não seria aceita. Masoud Barzani, histórico líder curdo assumiu a presidência e Nechirvan Idris Barzani o cargo de 1º Ministro. Em 2009 foram reeleitos, acrescentando-se o partido Gorran, uma dissidência do PUK, ao governo.

Com a retirada das Forças Armadas do estado iraquiano de áreas submetidas à ofensiva do Estado Islâmico (EI), os peshmergas curdos reagiram e expulsaram o invasor de Kirkuk (rica em petróleo), assumindo o controle, mas não oficialmente a sua administração. Outras duas províncias, Nineveh (cuja capital é Mosul) e Diyala, além de cidade síria de Kobani, seguem em intensa disputa com o califado do EI.

Contudo, o Curdistão iraquiano é somente uma parte de todo o Curdistão no Oriente Médio. O quadro a seguir resume informações atuais sobre área, população e grupos políticos mais atuantes. A diáspora curda está concentrada principalmente na Armênia, Azerbaijão e Alemanha, mas há comunidades significativas pela Europa, EUA e Canadá.

Mulheres curdas assumem a luta contra o Estado Islâmico
Mulheres curdas assumem a luta contra o Estado Islâmico
Área,  população e organizações políticas do Curdistão por país
País Área em km2 População em 2016 (milhões) % da população nacional Organizações políticas*
Iraque 65.000 5,5 20 KDP, PUK, KIU, Gorran
Irã 125.000 8,1 7 PJAK, KDP-I
Turquia 190.000 14,7 20 PKK, BPD
Síria 12.000 1,7 9 KDP-S, PYD, YEKITI, KNC
Outros 2,0
Total 392.000 32,0 12,7

KDP= Partido Democrático do Curdistão ( C); PUK= União Patriótica do C; KIU= União Islâmica C; Gorran é dissidência do PUK; PJAK= Partido para uma Vida Livre no C; KDP-I: KDP do Irã; KDP-S= KDP da Síria; PKK= Partido dos Trabalhadores do C; BDP= Partido da Paz e da Democracia; YEKITI= Partido da União Curda; KNC= Conselho Nacional Curdo.

 

As condições práticas diferem em cada país. O regime repressivo do Irã persegue e executa ativistas curdos. A Turquia só agora, talvez, reconheça sua existência como cidadãos. Na guerra da Síria, os curdos não assumiram  um lado, mas se aproveitaram da confusão para declarar unilateralmente um autogoverno em três províncias (não contínuas) junto à divisa com Iraque e Turquia, as quais agora protegem contra o EI que, por sua vez, faz questão de mostrar em seus vídeos a decapitação de combatentes curdos.

Dois fatores são relevantes para explicar, em boa parte, o fato de que até hoje os curdos não tenham conseguido formar uma só nação. Um impedimento é de ordem econômica: a região é rica em reservas de petróleo e gás, calculando-se que 20% da produção nacional do Irã, 74% do Iraque e 100% da Síria estão em terras do Curdistão, o que leva os países a não quererem abrir mão de seus ativos. Outro fator se relaciona aos desentendimentos entre os próprios curdos. Os residentes nas cidades (atualmente a maioria) estão aculturados e dão preferência ao alcance de autonomias domésticas, como maior liberdade cultural e reconhecimento étnico, enquanto os que vivem em áreas rurais mantém um forte espírito tribal. Na verdade não se pode afirmar que exista uma vontade geral de um Curdistão unificado.

A luta atual é no terreno, contra o Estado Islâmico. Peshmergas iraquianos, sírios e turcos são os únicos mostram capacidade efetiva de enfrentar o califa Abu Bakr Al-Baghdadi. “Não precisamos de homens, precisamos de armas”, no que são atendidos por norte-americanos e alemães que lhes fornecem foguetes, tanques, munição e os apoiam com drones e bombardeios aéreos. Nas conversações que a partir de 29 de janeiro se desenvolvem na Suíça para encontrar caminhos de paz na Síria, todos os atores foram convidados e lá estão, menos os curdos, cuja participação foi vetada pela Turquia. Sem representação nas mesas de Genebra, os peshmergas não reclamam e não abandonam o campo de batalha para manter as próprias fronteiras contra a ofensiva do califado, ao mesmo tempo em que procuram ocupar novas áreas para incorporá-las ao seu território. Dizem que lutam por uma causa maior: a viabilização de um só Curdistão, mas como de costume se contentam com o que lhes for permitido.

Qual o destino do povo curdo? Uma hipótese é de que, com base no petróleo abundante que jorra dos poços de Kirkuk, enfim se dê a secessão do Iraque resultando na independência do Curdistão iraquiano. Nesta mesma linha se inserem as instáveis conversações de paz com o governo de Erdogan em Ancara e que, se chegarem a bom termo, poderão trazer uma nova era de calmaria e progresso tanto para curdos quanto para turcos. A outra possibilidade é de que continuem apenas a ser o que sempre foram: guerreiros de aluguel ou em causa própria. Isso significa eternizar a identidade curda como peshmerga e seguir lutando por todo o sempre, para o que motivos não faltam no Oriente Médio. (VGP, 02/2.016)

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