Egípcios, romanos e seus vinhos(*)

Seguindo a tradição, quando o jovem Faraó Tutankamon – a Imagem Viva de Amon – deixou a vida com apenas 18 anos em 1.352 A.C., o que havia de melhor deveria acompanhá-lo em sua caminhada post-mortem. O sarcófago do filho de Akhenaton e provavelmente de Nefertiti foi recuperado intacto e lá estava ele, com sua máscara feita com 10 kg de puro ouro, cercado por especiarias, jóias, textos sagrados, finos tecidos e 36 ânforas, cada uma com 25 litros dos grandes vinhos da época, tintos e, agora se sabe, também brancos, com rótulos identificando procedência, tipo, ano da colheita, certificação de qualidade e até o nome do comerciante (prática hoje esquecida). Do Delta do Nilo provinham os vinhos de primeira, como o “Estrela de Horus no Alto do Céu” que devia ser bebido após cem anos, ou o Aten recomendado para descansar no mínimo por duas décadas. As técnicas utilizadas pelos antigos egípcios para plantação (Ramsés III tinha 513 vinhedos junto ao templo de Amon-Ra), irrigação, eliminação de resíduos, fermentação, guarda, nada ficam a dever às práticas modernas. A bebida era servida com exclusividade à elite e aos deuses, como Osíris e Hathor, a Mãe das Mães, Deusa do amor, da música, da beleza e do vinho.

Durante o império romano, particularmente os vinhos trazidos de Canopo na margem ocidental do Nilo eram apreciados por sua excelência. Os romanos tinham seus próprios vinhedos e eram mais democráticos. Mesmo tratando os escravos como animais, achavam que eles não sobreviveriam sem vinho e davam-lhes uma zurrapa – mistura de suco e água conhecida como Piquette (os soldados bebiam Acetum ou Posca, não tão ruins). A planta da uva, uma trepadeira, crescia em torno do olmeiro, numa simbiose que na Antigüidade se converteu em metáfora para o amor. Olmeiros, árvores ornamentais cuja madeira resistente ao tempo e à água tornou-as presença mais do que comum nas avenidas, parques e na vida diária da Europa e depois dos Estados Unidos (muito usada também para fazer prateleiras, gavetas, barcos), desapareceram na primeira metade do século XX devido à Doença do Olmo Holandês, causada por um fungo letal, o Ophiostoma Ulmi. Somente na Inglaterra morreram 25 milhões de olmeiros, mas nessa época só na Itália ainda serviam de suporte aos parreirais. O casamento entre com a vinha já era conhecido pelos assírios e pelos gregos, de onde vem a referência ao Pteleaikós Oinos, um vinho produzido na província de Ptelea cuja tradução é olmo. Vem do século I o clássico da agricultura De Re Rústica de Lucius Columella com um capítulo inteiro dedicado à ligação entre olmeiros e vinhedos e o mito de Vertumnus & Pomona cantado por Ovídio em seu Metamorphosis quase quinhentos anos depois inspirou Melzi Francesco (e a outros pintores) em seu famoso quadro, hoje exposto no museu Staatliche de Berlim, no qual por detrás das duas figuras uma videira cresce abraçada a um olmeiro.  É do poeta português Simões Dias em sua obra “Peninsulares” de 1876 a estrofe inesquecível: Tu eras, meu amor, qual ramos de hera / Da minha primavera / Eu era, linda flor, qual triste olmeiro / O teu amor primeiro! / Mas veio sobre nós a dura sanha / E tu mimoso arbusto que eu amara / Tombaste, ó sorte avara / Agora em pó desfeita a planta linda / Por que é que espero ainda? / Que a mesma ventania, quando passe / Me tombe e despedace.

Apanha de uvas para vinificar no antigo Egito
Apanha de uvas para vinificar no antigo Egito


As vinhas feneceram após o colapso do império romano no século V, nos negros tempos da Idade Média, só retornando aos campos cerca de dez séculos mais tarde. Com a Renascença, cada país seguiu sua história. A Itália desenvolveu seus cultivos até chegar à forte indústria vinícola da atualidade, enquanto o Egito esqueceu as técnicas milenares e até mesmo o gosto pelo vinho. O islamismo impôs-se no país e com ele a condenação ao álcool. Poucos são os que bebem no Egito atual, altos impostos tornam a importação proibitiva e a indústria local produz vinhos tidos, pelos especialistas, em geral como intragáveis. As três maiores empresas do ramo, Obelisk (espumante “Aida”, um pinot blanc e um cabernet), Gianaclis (o carro-chefe é um cabernet sauvignon de duvidosa qualidade, o “Omar-el-Khayam”) e Chateau des Reves, costumam importar uvas concentradas da Itália, do Líbano e da África do Sul para fabricar vinhos que a conhecida enóloga Jancis Robinson taxou de “apenas ruins“. Turistas são os maiores consumidores, mas se satisfazem com as pirâmides e com a maravilhosa tradição cultural egípcia, deixando quaisquer esperanças enogastronômicas para a volta. (VGP)

(*): Texto de Vitor Gomes Pinto, originalmente publicado no jornal semanal Gazeta de Caxias – edição de 17 a 23/10/2008

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