Irã e Arábia Saudita: o ódio pode criar a guerra?

Aiatolá xiita Nimr al-Nimr, executado na Arábia Saudita

Dois dos regimes mais absolutistas e radicais da Terra se desentendem e uma vez mais ameaçam o instável equilíbrio entre a paz e a guerra no Oriente Médio. Em termos de regime, qual o pior: o reino sunita da Arábia Saudita ou o império xiita dos aiatolás no Irã, a antiga Pérsia? Ambos são países islâmicos, ambos adotam a Sharia como código de vida e de morte, ambos possuem imensos territórios e muitos habitantes –30 milhões em 2,15 milhões de km2 na A. Saudita, 80 milhões em 1,65 milhões de km2 no Irã -, mas estão há séculos irredutivelmente separados porque cada um tem a sua opinião sobre como adorar a Maomé.

Os dois gigantes também se parecem na riqueza e na maneira como tratam seus opositores, executando-os .  Os sauditas detém, atrás apenas dos venezuelanos, as maiores reservas mundiais de petróleo, são os segundos (após os Estados Unidos) nas estatísticas de produção e lideram o ranking dos países exportadores, sempre seguidos de muito perto pelos iranianos que em geral se posicionam na quarta posição global quando se trata de comparações relativas ao ouro negro. Já na condenação à pena de morte, só perdem (ou se igualam em crueldade) para a China. Interpretando com máxima dureza as regras da Sharia, aplicam a pena máxima aos que consideram culpados de apostasia, blasfêmia, idolatria, bruxaria, adultério. Os números variam ano a ano, mas com base em dados subestimados de 2014 foram 289 execuções em Teerã e 90 em Riad. A traição é punida com apedrejamento, que começa com pedras pequenas que aumentam gradativamente de tamanho a fim de que a vítima sofra o suficiente para pagar seus pecados, evitando uma morte rápida. A decapitação em praça pública é a prática preferida. Numa referência ao uso dos mesmos métodos, a jornalista Adriana Carranca considerou que a Arábia Saudita é o Estado Islâmico (EI) que o mundo tolera, o califado amigo.

Desta feita os carrascos sauditas exageraram na dose. Sábado último 47 prisioneiros, todos xiitas e acusados de atividade terrorista, mas sem qualquer sumário de culpa formada e naturalmente sem direito a advogado de defesa, foram para o cadafalso com a diferença de que perderam a vida dentro dos muros das prisões e não à vista dos parentes e do povo. Entre eles, contudo, estava o conhecido clérigo xiita Nimr al-Nimr (56 anos), conhecido por protestar de forma não violenta contra as arbitrariedades e perseguições costumeiras praticadas pelo regime. Ele chegou a predizer a queda do governo caso continuasse a reprimir os movimentos de rua de 2011 e 2012, mas suas sugestões de separatismo da província saudita que concentra a minoria xiita no país motivou sua prisão e tortura após ter sido baleado pela Mutaween, a polícia religiosa que tudo vê e, entre outras coisas, controla a obediência às horas de oração (5 vezes ao dia), o uso de vestimentas adequadas ao islamismo, a separação entre homens e mulheres. Afinal foi sentenciado à morte por atrair a atenção externa sobre fatos que seriam de exclusivo interesse do emirado. Sua execução provocou forte reação dos iranianos e o ataque a representações diplomáticas sauditas em Teerã e Mashad. Finalmente, motivou o rompimento de relações diplomáticas e comerciais por iniciativa do rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, sob ameaças do aiatolá Ali Khamenei  de que “a mão vingadora de Alá apertará a garganta dos líderes sauditas”.

Uma vez mais os Estados Unidos tentarão contemporizar e, pelo menos de imediato, não desagradar a seus dois aliados, um histórico e outro de momento. Recorde-se que Osama bin Laden, filho de mãe síria e pai iemenita, nasceu (em 1957) na capital Riad. Em consequência, 15 dos 19 responsáveis pelos ataques de 11 de setembro eram sauditas. Mesmo assim, de olho nos negócios do petróleo, Bush não atacou a Arábia Saudita e sim ao Iraque, num dos maiores erros históricos dos tempos modernos (pelo absurdo do ataque em si e pelo alvo incorreto).

Diante da ampla maioria sunita no Oriente Médio, a teocracia persa não desiste, apoiando diretamente os governos xiitas da Síria, do Iraque e do Iêmen, além de aliar-se à oposição no Bahrein e ao Hezbollah no Líbano. O nível de tensão sem dúvida aumentou muito, mas um conflito bélico entre as duas potências é mais do que improvável, mesmo porque o Irã sabe quem é o seu inimigo. O emirado saudita está armado até os dentes. É o segundo maior importador de armas do mundo, destino de 41% das armas fabricadas pelo Reino Unido e nos últimos anos comprou mais de 250 aviões de combate, helicópteros de guerra e tanques americanos, britânicos e canadenses.  Cruzar a linha da retórica e assumir os riscos de um confronto militar ainda é algo impensável tanto para os dois grandes países islâmicos quanto para todos os atores externos que, observando a troca pesada de ofensas a que ainda se limita a “guerra” atual, devem abster-se de colocar mais lenha na fogueira. (VGP)

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