Mein Kampf tem edição liberada

Noventa anos depois da edição de seu primeiro volume, em 31 de dezembro último o único livro escrito por Adolf Hitler – Minha Luta (Mein Kampf) – obedecendo a legislação da Baviera, a cujo estado pertencem, caiu em domínio público e poderá de ora em diante ser editado por quem assim o desejar.

Mein Kampf, obra de Hitler de 1925 está livre de direitos autorais
Mein Kampf, obra de Hitler de 1925 está livre de direitos autorais

No ano seguinte, 1926, surgiu o segundo volume (o primeiro é essencialmente autobiográfico) – o mais antissemita de todos os livros – para promover o Nacional Socialismo como uma doutrina de Estado e edificar as bases iniciais do Nazismo alemão. Vendendo 473 livros quando do seu lançamento, chegou a um milhão em 1933 e a 6 milhões em 1940. Em português ganhou uma edição em 1934 pela Livraria do Globo na capital do estado do Rio Grande do Sul, onde se concentrava a maior parte dos apoiadores do Reich no país. Depois, cinco outras pequenas edições chegaram a um restrito mercado composto por defensores remanescentes das ideias de Hitler, pelas Casas Mestre Jou (1962), Moraes (1983), Pensamento (1987), Revisão (1990) e Centauro (2011). Com o fim da 2a. Guerra, as forças aliadas ao chegarem a Berlim apreenderam os extratos da conta dos direitos autorais da obra e mais tarde a deixaram na posse do estado da Baviera que nunca autorizou sua reprodução.

Mais de sete décadas após o fim da 2a. Guerra e do suicídio de Hitler, a discussão suscitada em torno da disponibilização sem controles do texto parece inócua e destinada a ter maior impacto limitado considerando o que já se vê no mundo hoje. Na verdade a obra nunca deixou de ser veiculada, seja pelas modernas facilidades da internet com a oferta, p.ex., de versões não autorizadas por parte da mídia virtual salafista, seja (além do Brasil) em países como Índia ou da Europa Oriental desde a queda do Muro de Berlim, no mundo árabe, na Turquia e mesmo nos Estados Unidos onde não estão proibidas.

Partidos, seitas e agrupamentos de extrema direita e declaradamente neo-nazistas e neo-fascistas se multiplicam perigosamente Europa afora. Apenas alguns exemplos: Frente Nacional de Marine Le Pen na França, Força Voluntária Racial no Reino Unido, Partrido Nacional Democrático na alemanha e em vários outros países, Partido Nazista Americano nos EUA, Movimento Nacionalista Racial na Dinamarca, Golden Dawn na Grécia, Partido Nossa Eslováquia, Partido Nacionalista da Bulgária, ou o poderoso Jobbik na Hungria.

As opiniões de especialistas estão divididas. De um lado, há os que consideram que “obras de propaganda antissemita deveriam seguir proibidas”, como diz o presidente da comunidade judaica na Alemanha, Josef Schuster. De outro lado, a ministra alemã de Educação, Johanna Wanka, sugere que o texto passe a integrar programas escolares como base de instrução política dos estudantes, posição que está deixando indignado o líder do maior sindicato de professores germânicos, Udo Beckmann, para quem “uma leitura obrigatória do Mein Kampf é equivocada e totalmente exagerada”. Um terceiro grupo diz que a proibição acaba contribuindo para converter a obra em um mito, atraindo maior interesse do que deveria. A verdade é que um texto primário como o escrito por Hitler em sua juventude pode ter no máximo uma força simbólica sobre os movimentos sociais do século XXI. No entanto, essa força pode, em alguns casos, não ser desprezível diante da extrema radicalização imposta pelos grupos terroristas e, mesmo, pelo violento discurso fundamentado na exclusão étnica e religiosa que ainda divide os homens em muitas esquinas do mundo.

Be the first to comment

Deixe seu Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*