Civilização árabe em crise

Todos rezam por Alá, mas sunitas e xiítas seguem guerreando
Todos rezam por Alá, mas sunitas e xiítas seguem guerreando

A conceituada revista SEMANA (www.semana.com) de Bogotá, considerada como o melhor veículo de notícias e análises sociais e políticas da América Latina, publica nesta última semana de 2015 uma importante entrevista com o ex-ministro de Relações Exteriores de Israel (e vice- presidente do Centro Internacional de Toledo para a Paz), Shlomo Ben-Ami, que por sua neutralidade, abrangência e grande pertinência em relação aos conflitos de caráter religioso e civilizacional que hoje ameaçam destruir o que resta do Oriente Médio, merece uma leitura cuidadosa por todos os que atuam ou têm interesse no tema das relações internacionais, independente da posição de cada um.

MUNDO SÉCULO XXI, sob autorização da publicação colombiana publica, praticamente na íntegra para não perder nada de seus significados, a mais do que oportuna análise de um homem que segue atento ao que acontece no dia a dia de uma região que mantém sobre si todas as atenções do mundo moderno.

“Estamos diante de um choque de civilizações , como predisse Samuel Huntington?

Shlomo Ben-Ami: Sim. Não sei porque tantos analistas liberais negam essa realidade. No meu entender, está claro que há um problema de adaptação de alguns setores das sociedades muçulmanas árabes aos desafios da cultura da globalização inspirada pelos valores do Ocidente, como o liberalismo, a liberdade de expressão ou o relativismo religioso. Falo especificamente do Islã árabe porque há países muçulmanos , mas não árabes, como Indonésia, Malásia ou Turquia – que funcionam razoavelmente bem. Concretamente, é o mundo árabe que atravessa uma crise civilizacional.

E qual é a razão dessa crise?

Por um lado, el mundo árabe está vivendo algo parecido à guerra dos 30 anos do século XVII na Europa, que colocou frente a frente católicos e protestantes. É que o conflito que está incendiando ao Oriente Médio ocorre no seio da religião. Veja que a luta não é contra os cristãos nem contra os judeu, e sim entre sunitas e xiítas. Por outro lado, no mundo árabe o conceito de Estado não é suficientemente legítimo. Tampouco se consolidou nem é sustentável a longo prazo. O resultado é que países como Síria, Iraque, Líbia ou Iêmen estão se desfazendo. Em verdade, os dois últimos territórios já não existem  como Estados.

De fato, a última guerra entre dois países foi entre Eritréia e Etiópia nos anos noventa. A nossa é uma época de conflitos assimétricos?

É provável. Os Estados sabem que se expõem ao apocalipse se decidem enfrentar-se abertamente. Pense em una guerra entre inimigos como Paquistão e Índia, ambos com bomba atômica. Ou entre Rússia e Ocidente. Ou entre Israel e Irã. As consequências seriam nefastas. No entanto, também é certo que esses países levan décadas enfrentando-se. O Irã tem apoiado de todas as maneiras ao Hezbolá, uma milícia que conduz uma guerra assimétrica contra Israel. Do mesmo modo, a guerra de Cachemira entre Índia e Paquistão está sendo feita com grupos terroristas, não com exércitos nacionais.

O Estado Islámico (EI) é um grupo insurgente que tem recursos e armamento dignos de um país. É possível seguir falando de guerra assimétrica neste caso?

Se um grupo insurgente controla um território, não basta declarar que é um Estado para que se converta em um. Embora EI mostre em seus vídeos professores ensinando nas escolas, policiais dirigindo o trânsito ou oficiais cobrando impostos, tenho dúvidas sobre sua capacidade efetiva de governar. A guerra contra o EI continua sendo essencialmente uma guerra assimétrica. A grande diferença com la insurgência do passado é que os move uma visão  religiosa extrema e apocalíptica, e não uma nacionalista. Não é nada acidental que o EI tenha apagado a fronteira entre Síria e Iraque. Para eles, o conceito de Estado é uma invenção imperialista.

E como se pode resolver o conflito do Oriente Médio?

A resposta militar tem efeitos limitados. Os bombardeios dos Estados Unidos não vão resolver o problema do Islã. Só podem fazê-lo os muçulmanos, como o fizeram os europeus na guerra dos 30 anos. De fato, o problema não é nem territorial nem político. É cultural e religioso. Penso que este século será o momento em que o Islã terá que resolver seus problemas internos. E isso  vai demorar muitos anos, pois requer nada menos que uma transformação da civilização árabe.”

Be the first to comment

Deixe seu Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*