África Central à beira de um novo genocídio

 

Na região dos Grandes Lagos – entre o Victoria e o Tanganyka – um pequeno país do tamanho de Alagoas, com um povo classificado entre os mais miseráveis do mundo, se vê cada vez mais ameaçado de afundar em nova e radical guerra civil. Em 53 anos de independência, desde que se livrou do domínio colonial belga, o Burundi já sofreu dois grandes massacres étnicos. Seus 11,3 milhões de habitantes, à exceção dos pigmeus da raça Batwa (apenas 1% da população) que vivem inteiramente segregados do resto da sociedade, ou são Hutus (85%) ou  Tutsis (14%). Embora sem diferenças genéticas fundamentais, falando o mesmo idioma bantu e professando a mesma religião de maioria católica, não são iguais. Os tutsis estão entre as raças de maior estatura da terra, alcançando comumente 1m90 a 2m10; de perfil aquilino e elegante, nariz longo, pele mais clara e voz aguda. Já os hutus ficam entre 1m70 e 1m80, têm nariz achatado, pele escura e voz grave. Concentrados em três países – Burundi, Ruanda e República Democrática do Congo (RDC) – em essência tutsis são donos de terra e hutus trabalham na terra. Isso está mudando, mas ainda uns são patrões e os demais são servos.

Em 1972, no primeiro genocídio, 200 mil hutus foram mortos pelo exército tutsi. Depois, em 1993 o assassinato do presidente Melchior Ndadaye precipitou uma matança indiscriminada na qual pereceram 350 mil de ambas as etnias. O pior aconteceu no ano seguinte, 1994. Em 6 de abril um avião que levava os dois presidentes hutus – Juvénal Habyarimana de Ruanda e Cyprien Ntaryamira do Burundi – foi abatido por um míssil disparado de uma base tutsi não deixando sobreviventes. Os hutus, enlouquecidos de ódio, durante 100 dias produziram cerca de um milhão de vítimas na vizinha Ruanda. “Matem as baratas, matem as baratas”, ordenavam sem cessar pelos microfones da rádio ruandesa Mille Colline. Como os tutsis se achavam superiores por serem mais altos, os hutus com golpes certeiros na altura do tornozelo decepavam seus pés, uma maneira prática de reduzir-lhes a estatura antes de matá-los. Reorganizando-se, os tutsis retomaram o poder, forçando o exílio de 2 milhões de hutus para as nações vizinhas. Enquanto o conflito ruandês explodia, paralelamente em Burundi a guerra civil entre a maioria hutu e o exército dominado pelos tutsis prolongava-se até 2006, cobrando outras 300 mil vidas. A paz, que perdura até hoje, foi então selada em Arusha, na Tanzânia, com intermediação da ONU.

Agora, dez anos passados, a roda da guerra volta a girar, justo quando se achava que a normalidade poderia consolidar-se.  Afinal, Burundi elegeu em 2005 um presidente promissor, Pierre Nkurunziza, filho de pai hutu e mãe tutsi. O governo é de coalisão, com 60% dos postos ocupados por hutus e 40% por tutsis, que constitucionalmente têm a garantia de comandar o exército. Reeleito em 2010, Nkurunziza deveria sair em meados deste ano, pois a Constituição em seu artigo 96 é taxativa: “o presidente é eleito por sufrágio universal direto para um mandato de 5 anos renovável uma vez”. Contudo, ele resolveu continuar e o corrupto Conselho Eleitoral reuniu-se para autorizar um 3º mandato e em maio último Nkurunziza viu-se uma vez mais reeleito com 69% dos votos. O 2º colocado, Agathon Rwasa, que boicotou o pleito e assim mesmo recebeu 19% dos sufrágios, em seguida aceitou ser nomeado porta-voz do governo no Congresso, dizendo-se disposto a trabalhar pelo entendimento geral. O efeito imediato ao golpe foi sentido nas ruas e na repressão do exército, desatando as amarras de um novo ciclo de violência. Desde abril já são 400 mortos e 3.500 ativistas contrários ao governo detidos.

Pierre Nkurunziza, presidente do Burundi
Pierre Nkurunziza, um típico Hutu, mas filho de mãe Tutsi, presidente do Burundi

Uma tentativa de depor o presidente quando este estava no exterior fracassou, mas um comunicado ao povo de Edouard Nshimirimana, um coronel oposicionista, acaba de informar que estão constituídas as “Forças Republicanas de Burundi – Forebu” com o objetivo de derrubar o presidente ilegalmente reempossado. Os responsáveis pela onda atual de execuções são os membros da juventude aliada a Nkurunziza, conhecidos como os Imbonerakure (os que veem longe), que reúnem parte dos componentes das milícias ruandesas Interahamwe (os que matam juntos) remanescentes de 1994, mais um sem número de órfãos da guerra e desempregados confinados nos campos de refugiados no este do Congo e que só aguardam uma oportunidade e um convite para entrar na luta.

A União Africana em pronunciamento de seus 54 membros declarou que “o continente não aceitará um novo genocídio em seu solo” e, em acordo com a Agência de Direitos Humanos da UNU, decidiu enviar uma missão de paz com 5.000 homens para agir com ou sem a concordância do governo burundês que, de imediato, “rejeitou-a cabalmente como uma força invasora”.  Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU disse que “Burundi está no limite de uma guerra civil que ameaça engolfar toda a região”. É preciso, no entanto, compreender que não há uma propensão efetiva de hutus e tutsis lutarem uns contra os outros. No momento, homens e mulheres das duas etnias trabalham e vão às igrejas lado a lado. Não se trata, portanto, de uma fogueira de fundamentos étnicos e sim de um potencial conflito provocado pela obsessão de Nkurunziza e seus comparsas pelo poder que estão atiçando ao máximo as diferenças inter-raciais que sabem estarem latentes em cada lar burundês. As marcas dos horrores recentes ainda estão muito vivas por toda parte e fazem com que o povo se oponha ao recomeço de tudo. Isso não significa que está descartada a explosão de mais um genocídio na África Central, mas ainda há tempo e condições para impedi-lo. Não deixa, porém, de ser curioso que a União Africana se oponha radicalmente à figura do 3º mandato, quando se sabe que cinco de seus integrantes – Togo, Sudão, Zimbábue, Angola e Guiné Equatorial – têm o mesmo presidente há mais de três décadas. (VGP)

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