A HEMOBRÁS E A CHUVA DE DINHEIRO NO CENTRO VELHO DO RECIFE

Em tempos de tanta crise e tanta falta de dinheiro no bolso de quase todos neste Brasil do arco da velha, a chuva de notas de cinquenta reais que caiu do edifício Pier Duarte Coelho em pleno Cais de Santa Rita no centro velho do Recife é, sem dúvida, um acontecimento a festejar.

Os pernambucanos declararam bem-vinda a derrama, mesmo que tenha desabado justo na cabeça dos agentes da Polícia Federal que vinham entrando com a missão de prender um ilustre morador: o Dr. Rômulo Maciel Filho, diretor-presidente da Hemobrás, uma estatal do Ministério da Saúde para produção de hemoderivados. A sacola de dinheiro que explodiu na calçada é idêntica a outras encontradas no apartamento do médico.

Sob acusações de crimes de peculato, corrupção ativa e passiva, fraude, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa foi também detido (e liberado após prestar declarações na delegacia), entre outros, o atual Diretor de Produtos Estratégicos e Inovação da empresa, o médico Mozart Sales, considerado o criador do programa federal Mais Médicos.

A exemplo de muitos outros casos de corrupção que estão sendo investigados no país, quando se pega o fio da meada vão surgindo conexões e surpresas. No caso da Hemobrás, a ligação mais direta é com o senador pernambucano Humberto Costa, líder do Partido dos Trabalhadores no Senado Federal. Foi na sua gestão que, em 2005, a estatal foi criada, segundo ele “com o objetivo de reduzir a dependência externa do Brasil no setor de derivados do sangue e de gerar empregos, investimentos e transformar Pernambuco em um importante polo científico nacional”. Não foi isso que sucedeu. De acordo com reportagem do site recifense Fato Online “o empreendimento conta com 128 funcionários, já consumiu R$ 1 bilhão dos cofres públicos e, passados dez anos, não produziu uma única gota de hemoderivado”. A fábrica na cidade de Goiana, na região da Mata Norte de Pernambuco, está num terreno de 48000 m2 abrigando 17 prédios. A previsão inicial era de que ficaria pronta num prazo de três anos com capacidade para produzir 500 mil litros de plasma, mas licitações irregulares ou incompletas e má gestão terminaram por causar prejuízos originalmente não suspeitados, como o da obsolescência do projeto num mercado de tecnologia altamente competitiva. Para o procurador do TCU Marinus Marsico, p.ex., atualmente a tendência seria de produção de medicamentos sintéticos para o tratamento de hemofílicos, e não mais de derivados do sangue”. As suspeitas da Operação Pulso são de que os recursos desviados da Hemobrás (as fraudes alcançariam cerca de R$ 30 milhões), entre outros destinos colaterais, tenham alimentado campanhas políticas no estado.

Maquete da fábrica da Hemobrás em Goiana, Pernambuco
Maquete da fábrica da Hemobrás em Goiana, Pernambuco
Torres Gêmeas ilustram a passagem pelo Cais de Santa Rita no centro do Recife
Torres Gêmeas ilustram a passagem pelo Cais de Santa Rita no centro do Recife

O líder do PT, hoje denunciado no corpo da Operação Lava Jato, envolveu-se (sem comprovação final) nos casos das Máfias dos Sanguessugas e dos Vampiros, escândalos que assombraram o Ministério da Saúde logo após sua saída do posto de ministro. O médico Mozart Sales chegou a substituir Costa quatro vezes e recentemente esteve cotado para o posto de ministro até a última hora, quando a presidente Dilma optou pelo paulista Arthur Chioro. Ele ganhou grande notoriedade quando saiu em missão oficial por países como Cuba, Venezuela, Argentina, Espanha, para expor em palestras às associações médicas nacionais as vantagens de que os seus profissionais viessem para o Brasil a fim de trabalhar no programa Mais Médicos, garantindo-lhes todo o apoio e subsídios do governo federal. Depois, não conseguiu eleger-se deputado, mas agora é um forte candidato a concorrer pelo partido ao governo de Pernambuco nas próximas eleições.

MOzart Sales, Diretor de Produtos Estratégicos e Inovação da Hemobrás

Coisas do Brasil: o Pier Duarte Coelho e o Pier Maurício de Nassau, 42 andares cada, são conhecidos como as Torres Gêmeas por sua imponência. Inauguradas em 2012 para abrigar a alta sociedade e os novos ricos da nata recifense, deram um toque de sofisticação ao tradicional bairro de São José, sede do Mercado Público (de 1875, é o mais antigo do país) e base do bloco carnavalesco Galo da Madrugada. Todo ano no dia 19 de março, sertanejos se juntam em romaria na pequena e árida São José do Egito, em pleno sertão, a 475 km da capital, para pedir aos céus que verta água. Diz a lenda que se lá não chove no dia de São José, pode se preparar que é ano de seca. Qual não foi a surpresa do povo ao ver que neste ano de 2015, embora nove meses mais tarde, numa verdadeira benção divina, os santos fizeram chover uma dinheirama exatamente nas ruas que homenageiam o padroeiro. (VGP)

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