MADURO, COCAÍNA E AS ELEIÇÕES VENEZUELANAS

Nicolás Maduro, inteiramente dedicado à militância sindical que o livrou do duro ofício de motorneiro no metrô de Caracas, desde cedo ficou profundamente impressionado pelo grau de compromisso ideológico e pela beleza daquela advogada, que logo se notabilizaria pela defesa de Hugo Chávez quando ele foi preso em 1992 por ter tentado dar um golpe para derrubar o então presidente Andrés Perez. Cilia Flores, 9 anos mais velha (hoje com 61 anos) e de um estrato social bem acima do seu, casada com três filhos, parecia inacessível. Mas, ele cresceu na estrutura partidária, conseguiu por fim conquistá-la e já viviam juntos quando, contra todas as evidências pregressas, tornou-se presidente da República enquanto ela, nada mais nada menos, mantinha-se como a presidente do Congresso venezuelano (a Asamblea Nacional, unicameral). Casaram-se menos de três meses depois da posse. Pelos cânones do chavismo, Maduro considerou que o título de 1ª. Dama tinha conotação burguesa, e a denominou de “1ª. Combatente”. Na família grande e bem de vida, cresceram como irmãos Efraín Antonio Campos Flores e Francisco Flores de Freites, sobrinhos de Cilia que se firmou como uma das principais figuras do Partido Socialista Unido da Venezuela, o PSUV, principalmente depois de ter inspirado a criação dos Circulos Bolivarianos.

Na última 3ª. feira os dois jovens saíram do anonimato internacional ao serem detidos em Porto Príncipe por um comando da DEA (Administração de Combate à Droga)  dos Estados Unidos e da polícia haitiana, em plena negociação para entrega de 800 kg. de cocaína, uma carga avaliada em 80 milhões de dólares. A DEA monitorava os passos da família Flores há oito meses e filmou todos os contatos e conversas com os receptadores em Tegucigalpa (Honduras) e no Haiti. Efraín e Francisco chegaram em um jatinho pertencente à Mercantil Inversiones Sabenpe C.A. , conhecida na Venezuela como uma grande empresa Coletora de Lixo urbano e que está sendo processada pela municipalidade de Sucre (na Grande Caracas) porque há meses perdeu a concessão pública e não desativa um depósito extremamente poluidor com 20 toneladas de detritos num lixão de sua propriedade. Em seguida foram enviados a New York para enfrentarem o devido processo.

A três semanas de importantes eleições parlamentares, a discussão é se a notícia da prisão da dupla é boa ou ruim. Não obstante o golpe assestado a uma poderosa rota internacional de tráfico de drogas – há estimativas de que cerca de 1/3 das 442 toneladas métricas de cocaína anualmente produzidas na Colômbia fluam para o mundo através da Venezuela –, abre-se a possibilidade de que Maduro adie o pleito previsto para este 6 de dezembro sob o argumento de estar sofrendo um novo “ataque imperialista”. Isso poderá acontecer caso o governo sinta que de fato será derrotado de maneira drástica nas urnas. No momento, as pesquisas de opinião dão 60% das intenções de voto para a oposição reunida na Mesa de Unidade Democrática (MUD) composta por 25 partidos e movimentos, e 30% para o PSUV.

Nos últimos meses próceres oposicionistas trocaram acusações mostrando profundas divergências entre seus dois maiores líderes: Henrique Capriles do partido Primero Justicia com um discurso não conflitivo e Leopoldo López, há 21 meses detido, que pede a renúncia de Maduro. Há poucos dias fecharam acordo que prevê unidade política com formalização de candidatos apenas através da MUD, submissão a consenso de iniciativas particulares, além de um pacto de não agressão e definição do chavismo como rival comum. Serão eleitos 167 deputados num sistema misto (2/3 por votação nominal e o restante pela lista partidária) no qual 60% das cadeiras fica com quem vencer, mesmo que por escassa margem. Nesse sistema, hoje 99 deputados são do PSUV..

Resta ver se o povo, que considera o desabastecimento, a insegurança e o custo de vida como seus maiores problemas, está convencido. Na ausência de propostas claras de mudança, o que se espera é a predominância do “voto contra” o chavismo Com uma inflação que chega a 87% este ano e desabastecimento geral de 61% dos produtos comercializados no país, os saques ao comércio passaram a fazer parte da paisagem nacional ao lado das filas intermináveis e desmoralizantes que costumam formar-se a partir da madrugada na garagem dos supermercados, uma prática imposta pela administração pública para que não sejam vistas da rua.

Efraín Campos Flores, sobrinho da 1a. Dama da Venezuela, preso por tráfico de cocaína em Porto Príncipe, 11/2015
Efraín Campos Flores, sobrinho da 1a. Dama da Venezuela, preso por tráfico de cocaína em Porto Príncipe, 11/2015

O governo determinou um dia por semana, segundo o último número da carteira de identidade, para cada venezuelano fazer compras no “programa de venda de produtos básicos e escassos” como leite, farinha de trigo, sabão em pó, creme dental. Nas farmácias o controle é pela impressão digital dos dois polegares, mas nem isso resolve quando se trata, p.ex., de anticoncepcionais ou medicamentos anti-hipertensivos que realmente desapareceram das gôndolas. A alternativa continua sendo o comércio informal nas periferias, alimentado pelos bachaqueros, pessoas comuns que vivem de comprar o que podem o tempo todo nos mercados e lojas públicas e privadas tradicionais para revender por preços pelo menos quatro ou cinco vezes mais caros, desde que se livrem da polícia fiscalizadora bolivariana.Nicolás Maduro, presidente da Venezuela e sua esposa, Cilia Flores (AP, Caracas, 2015)

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela e sua esposa, Cilia Flores (AP, Caracas, 2015)

 

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